No salão gelado das marés esquecidas,
ergueu-se Peixuxa, a morsa inflada,
com dobras rangendo como portas antigas
e uma coroa torta de prata salgada.
— “Cidadãos do frio, escutem meu plano!
O Polo Norte será minha mansão!
Comprarei os ventos, o gelo, o oceano,
e despejarei ursos sem indenização!”
Seu bigode tremia em pomposa oratória,
feito cortinas velhas num teatro cruel;
prometia lucro, glória e vitória,
vendendo o próprio silêncio a granel.
“Pois o sol e o dia,” disse em delírio,
“vão virar a areia da doce melodia;
e se eu pudesse ver um porco com asas,
jamais faria tal filantropia.”
As focas cochichavam: “Que morsa indecente…”
Os icebergs riam com dentes de sal.
Mas Peixuxa prosseguiu, gordamente:
— “Expulsar ursos é meu ideal!”
Então o gelo rangeu como osso partido,
o vento soprou uma vaia polar —
e o próprio Polo, farto e ofendido,
rachou-se inteiro sob seu discursar.
Peixuxa caiu no buraco gelado,
rodopiando em pompa e desgraça:
virou apenas um eco inchado,
boiando… sem trono, sem plano, sem graça.
E até hoje no norte, em noites sombrias,
ouve-se um sopro grotesco e profundo:
é a morsa vendendo… em parcelas frias,
o nada mais caro do mundo.