sexta-feira, 4 de setembro de 2026

LEVE SUA ESPADA - conto fantástico

LEVE SUA ESPADA

        Nas profundezas da Colina dos Sussurros, onde as árvores riam em voz baixa e a grama brilhava com o pó de estrelas que caía dos sonhos mal dormidos, vivia Dust, um fauno de cascos prateados e chifres macios como veludo. Dust tinha a cabeça cheia de rimas antigas e o pé leve como a brisa de outono, mas a memória, ah, essa vivia sempre pendurada na lua errada. Numa manhã em que o sol parecia um botão de ouro descosturado do céu, ele decidiu que era dia de caçar o vento norte. Deu dois saltos de alegria, empurrou a pesada porta de carvalho de sua toca e partiu pelos caminhos de musgo, pisando leve e respirando o cheiro de resina e mistério.

        Mal havia cruzado o riacho dos espelhos, sentiu o ar ficar pesado, cheirando a pedra úmida e meias velhas de ogro. Ali, bloqueando a trilha com sua barriga redonda como uma caldeira de ferro, estava Gorn, um troll de pedra vulcânica que guardava a Ponte do Suspiro. O monstro rosnou, fazendo as pedras tremerem, e cruzou os braços grossos como troncos de carvalho carcomido.

— Ninguém passa por aqui sem deixar um dente de ouro ou a alma penada — resmungou o troll, erguendo uma clava que pesava mais que uma tempestade.

        Dust parou, enfiou a mão na algibeira e percebeu, com um arrepio gélido descendo pela espinha até os cascos, que a espada mágica de prata que seu avô lhe dera ficara em cima da cômoda, bem ao lado da xícara de chá de dente-de-leão. O troll gargalhou, mostrando dentes pontiagudos como cacos de vidro. Mas Dust não era fauno de se assustar com cara feia. Ele ajeitou o colete de lã, fechou os olhos e começou a cantar, com uma voz que soava como água correndo sob o gelo:

Oh, pedra que sonha em ser montanha altaneira,

Não prendas o vento que corre na beira,

Pois o peso do mundo que carregas no chão

É pó que o tempo sopra na palma da mão.

A voz de Dust teceu fios de ouro invisíveis no ar. O troll piscou, confuso. Seus olhos duros como granito começaram a se fechar, fascinados pela melodia que falava do peso de existir. Gorn bocejou um estrondo, sentou-se pesadamente na grama e, embalado pelo verso, adormeceu profundamente, roncando como um trovão distante.

Dust deu um tapinha afetuoso no ombro de pedra do gigante dorminhoco e seguiu sua jornada. Mas a floresta mudava de pele conforme o dia envelhecia. Logo as árvores perderam as folhas e o céu ficou roxo como um hematoma. Numa clareira onde a névoa dançava em círculos, espreitava Madame Corvo, uma bruxa cujos dedos eram compridos como galhos secos e que guardava feitiços dentro de potes de vidro empoeirados. Ela esticou o pescoço e sibilou, bloqueando o caminho com uma fumaça verde:

— Ah, um petisco com chifres! Vou transformar seus cascos em cascas de noz e sua voz em coaxar de rã!

A bruxa ergueu o cajado nodoso, pronta para lançar a praga. Dust, sentindo falta do frio metal da espada na cintura, respirou fundo o perfume das amoras silvestres e cantou de novo, sua voz agora subindo como fumaça de incenso:

Bruxa que teces a teia na noite escura,

O mal que destila não traz formosura,

O espelho que brilha no fundo do poço

Mostra que a vida é mais que um feitiço de osso.

        O canto de Dust carregava o eco de mil primaveras esquecidas. A bruxa parou de pular. O cajado em sua mão começou a brotar pequenos botões de margaridas. Suas rugas profundas pareceram suavizar-se enquanto ela ouvia a promessa de renovação contida nas notas do fauno. Deixando cair o cajado florido, Madame Corvo cobriu o rosto com as mangas pretas do vestido e chorou lágrimas doces que viraram gotas de orvalho no chão.

        O fauno sorriu, deu meia-volta e continuou. Porém, quando a noite finalmente caiu como um manto de veludo cravejado de olhos frios, ele chegou à Garganta do Medo, onde morava o Espectro sem Face, uma criatura feita de pura ausência que sugava a cor de tudo o que tocava. O espectro deslizou na sua direção como uma sombra sem lua, gelando o sangue nas veias de Dust.

        Sem espada, sem ferro, sem proteção física alguma, o fauno olhou nos olhos vazios da escuridão e entoou seu canto mais forte, puro e corajoso:

Sombra que erras sem nome e sem face,

O fogo da vida não há quem desfaça,

Pois mesmo no escuro mais fundo e sem fim,

A luz que me guia reside em mim.

        A canção ecoou pelos desfiladeiros como uma estrela que se acende no abismo. O espectro estremeceu, incapaz de suportar a beleza daquela verdade cantada, e desfez-se em uma nuvem de fumaça cinzenta que o vento espalhou pelos campos.

        Dust caminhou de volta para casa sob a luz pálida da lua minguante, com os cascos leves e o coração cheio de histórias para contar aos grilos. Ao cruzar novamente a pesada porta de carvalho de sua toca, trancando a noite lá fora, ele tirou o colete, suspirou aliviado por estar a salvo e murmurou para si mesmo, balançando a cabeça com um sorriso travesso:

— Quando for sair da toca da caverna, lembre-se bem... leve sua espada.