Na vastidão escura e verdejante, onde o musgo é macio como veludo antigo E as copas das árvores tocam o teto cinzento do céu, Baco estendeu as mesas. O deus do suco rubro, da uva e do delírio convidou os Imortais. Veio o Olimpo inteiro, menos o pai do raio. Pois Zeus dormia, pesado e surdo, em sua nuvem de chuva e tédio, Flutuando em seu próprio trono de vapor.
Veio também a raça de cascos e peito largo, a estirpe indomável dos Centauros: O rei Haroldo, pisando firme na terra, e a rainha Betânia ao seu lado. Mas o senhor das sombras, o carcereiro do inferno, Ficou de fora. Hades, o esquecido, o irmão do silêncio frio. Da sua amargura subterrânea, ele teceu a vingança. Não com fogo comum, mas com um sopro de escuro veludo, Uma casca de fera, um espírito faminto de dentes e lua: Um terrível lobisomem, nascido do rancor, da inveja e da treva profunda.
Ele irrompeu na clareira. A festa virou guincho e silêncio cortado. O monstro caiu sobre os cascos, rasgou os flancos, Deixando a grama verde manchada de um vermelho mais escuro que o vinho.
Mas nas bordas da floresta, onde o frio do norte endurece a pele, Vivia Polako, o caçador de passos silenciosos. Homem de tendões de ferro, que conhecia o segredo do arco. Ele viu o horror com seus olhos cinzentos e não tremeu. Ergueu o teixo, puxou a corda até o limite do osso, E a primeira flecha cantou no ar da noite, certeira, Pregando-se no olho brilhante da besta, que uivou a própria morte.
A fera avançou, cega e furiosa, mas Polako não recuou um palmo. Mais duas flechas. Duas no coração. Onde o metal frio encontrou o centro da maldição, O monstro desabou, desmanchando-se em fumaça e cinzas, Devolvido ao abismo de onde Hades o mandara sair.
O silêncio voltou à floresta, pesado de admiração e luto. E os centauros, curvando suas grandes cabeças diante do homem, Lhe deram uma coroa de carvalho antigo e ouro bruto. Não mais apenas um caçador das sombras da mata, Mas coroado ali, sob as estrelas frias, Como o verdadeiro Rei dos Homens.