segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Matéria Vã


A miséria da vida, a miséria da forma me assombra...

Olho as mãos, o papel, o meu próprio destino,

E vejo que tudo não passa de sombra,

De um eco que foge do eterno divino.

O verso que escrevo é um grito que pesa,

A carne que habito é um cárcere frio,


Tão pobre e mesquinha se mostra a natureza

Neste desterro de vento e de vazio.

Tanto anseio de infinito na alma cativa,

E o corpo tão frágil, tão breve e minguado!

A forma é a morte que a vida esquiva,


É o molde grosseiro de um sonho quebrado.

E fico a vagar pela noite deserta,

Com a alma aberta a um pranto sem fim,

Vendo a grande miséria que a vida encerra,

E este peso de pó que me acorrenta à terra.

Sombra e Vazio


A morte passou por mim, devo aplaudila ou chorar apenas...

Ela passou leve, como um sopro de vento

Sobre as coisas mortais do meu pensamento,

Trazendo o silêncio de um mundo que foi.

Vi o seu manto escuro roçar a minha veste,

Vi o clarão distante que a noite reveste

Com a pálida franja de um sonho sem fim.

E fiquei assim, estátua de tédio e de espanto,

Sem saber se mereço o pranto

Ou se devo saudar a ausência de mim.

Tudo é tão breve, tão frágil, tão vago...

A vida escoa-se como água de lago

Que o tempo dissolve na cinza do chão.

E a morte passou... Deixou-me a alma vazia,

Nesta angústia funda que o dia

Transforma em eterna oração.

Elegia do Silêncio e da Inércia


Longe de ti, talvez morto, quem sabe feliz igual pedra...

No fundo escuro do tempo parado,

Onde o eco da vida não bate mais,

Repousa o espírito cansado e frustrado,

Livre da ânsia dos bens e dos ais.

É uma paz áspera, dura e estéril,

Sem o tormento da carne que erra,

Sem o peso cruel e febril

Deste fardo que o homem encerra.

Se não há o calor do teu peito amado,

Se a alma definha na fria calçada,

Pelo menos o ser despojado e culpado

Encontrou o repouso na morte fingida,

Transformado em matéria gelada,

Insensível ao sopro da vida.

Canto de Angústia e Culpa


Esse mundo, repugno ego...


Na sombra espessa da torre fechada,

Onde a carne vacila e o espírito peca,


Sinto a culpa pesando na alma gasta,

Num silêncio de cruz e de treva seca.


Não há perdão que alcance o fundo

Deste abismo de cinza e de horror,


Onde o homem se perde no imundo

Labirinto da carne e da dor.


Ó pureza distante, vislumbre sagrado,

Que a matéria corrompe e consome!


Carrego no peito o fardo pesado

De ser pó, de ser culpa, de ser homem.

Canção da Solidão e do Abismo


Anjos, quem me dera vê-los, apenas abismos contemplo, nu...

Na imensidão fria do mundo que racha,

Onde a esperança repousa na cinza,

E o passo vacila na brecha da treva.

Busco nos ares a asa branda,

O sopro divino que acalma o pranto,

Mas só encontro o silêncio profundo,

O eco vazio que habita o fundo.

Estou desarmado diante da noite,

Sem véu, sem armadura, sem santo,

Sentindo o peso do tempo que passa.

E, no entanto, há beleza no fundo da fossa,

Pois mesmo nu e sem anjos no olhar,

É humano e divino este meu penar.

Canção da Dor e da Graça


Fé, em cruz de ferro, 

Em anéis coroados de catolicismo, 

Eu vejo templos, templos

 Que me prendem,

 Eu choro lágrimas de mar...

Numa ânsia infinita de eterno fervor,

A alma se entrega ao mistério do altar,

Na dor que redime e no imenso penar.

São torres de pedra que sobem aos céus,

E o eco dos sinos repica a chorar

O fardo pesado de amar e perder...

No peito o silêncio começa a pesar.

Mas há tanta graça na prece sombria,

No manto sagrado da Virgem Maria,

Que o pranto transborda e se torna oceano.

E nessa corrente de fé e desgosto,

Eu beijo a cruzada, a imagem, o rosto,

E sigo rezando o meu canto profano

Negra Mulher


Negra mulher, manta de mar, onde olho quero te carregar...

Nas asas do vento, no som do tambor,

Trazer-te bem perto, no peito guardada,

Na curva sagrada da estrada encantada,

Onde a vida pulsa no fogo do amor.

És onda que bate na areia da praia,

Mistério profundo que o tempo não rege,

No abraço de espuma que a alma protege

Contra toda a angústia que a vida desvia.

Olhar-te nos olhos é ver o infinito,

É ser marinheiro do teu mar sagrado,

Nenhum outro porto me traz tanto afeto.

E assim, navegando no teu corpo lindo,

Eu quero levar-te, sorrindo e cantando,

Por este universo de braços abertos.