quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Canção Selvagem

 Fumaças descem,

fumaças sobem,

e entre os abismos

dos nossos olhos

as flechas entram.


São Sebastião nu

tem um corpo delgado

de peixe molhado e marinho.

Meu coração só pode amar

as nuvens e as tempestades gregas.


Fumaças descem,

fumaças sobem.

Se morri, esperei virar anjos,

e sem anjas galopei igual

um bode, correndo igual um

cavalo sangrando, sangrando flores.


Noite de Quintal


São Paulo, aquela fornada de asfalto cuspindo bafo de escapamento, hora do rush empesteada de gente com pressa de chegar a lugar nenhum. Eu estava ali, encostado num botequim da Augusta, tentando decifrar o mistério de um chopp que custava caro demais para vir sem colarinho, quando a vi dobrar a esquina como se a rua inteira fosse uma passarela particular da Cia. de Fiação e Tecidos.

Era uma nega alta, de pernas infindas que pareciam não terminar nunca, equilibradas num scarpin vermelho-sangue que estalava no cimento que era uma beleza. Cabelo cacheado volumoso caindo pelos ombros, um vestido verde-garrafa justo que desafiava a lei da gravidade e do bom senso, e um olhar que já vinha com a fatura pronta para cobrança. Bateu os olhos em mim, deu aquele sorriso de canto de boca — o tipo de sorriso que faz o sujeito esquecer o saldo devedor do cheque especial e a conta de luz atrasada — e parou bem na minha frente.


— E aí, garoto? Vai ficar com essa cara de paisagem secando a calçada ou vai me pagar um trago? — soltou ela, com uma voz rouca que parecia ter fumado três maços de Derby vermelho e tomado duas doses de cachaça purinha.


O nome dela era Verônica. Ou melhor, a Verônica, com artigo definido, do jeito que impõe respeito.


— Pago o trago e o que mais vier no pacote, se a patroa aceitar — mandei essa, tentando parecer mais entendedor da vida do que realmente sou.


O chopp virou duas rodadas, o papo engatou na base do esculacho mútuo e da sacanagem franca, sem rodeios. Em menos de vinte minutos, já estábamos dividindo um táxi cheirando a essência barata de baunilha, rumo ao cafofo dela num sobradinho antigo no Bixiga. O lugar parecia um cenário de filme B dos anos setenta: paredes pintadas de um azul-piscina duvidoso, pôsteres desbotados, um som chiando um samba-canção melancólico e uma cama de casal que rangia só de olhar torto para ela.


— Senta aí e não repara na bagunça, meu rei. Aqui o luxo é livre e o resto é conversa mole — disse ela já arrancando os brincos pesados e jogando a bolsa em cima da cômoda.


O que se seguiu não foi bem um romance de livraria, e graças a Deus por isso. Foi um turbilhão de pele, suor, risadas abafadas e uma voracidade que parecia querer descontar todas as chatices daquela cidade cinzenta em cima do colchão. Verônica tinha uma energia magnética, um domínio absoluto do próprio corpo e do espaço ao redor. Cada toque era um manifesto, cada gemido parecia uma provocação à moralidade vigente dos botequins da praça Roosevelt. Era pele preta reluzindo sob a luz amarela da lâmpada fraca, lençol embolado, fumaça de cigarro contrabandeado e uma cumplicidade animalesca que a gente só acha quando desliga o cérebro e liga o instinto.


A madrugada avançou entre goles de rum barato direto da garrafa e conversas fiadas sobre a mediocridade do mundo corporativo paulistano, intercaladas por recomeços na cama que pareciam nunca perder o fôlego.


Quando o sol começou a empalidecer o céu e a descarregar aquela claridade chata de segunda-feira pelas frestas da janela, eu estava estirado no colchão, com os músculos doridos de tanto rir e amar, sentindo o cheiro de perfume doce misturado com tabaco impregnado na camisa. Verônica estava sentada na ponta da cama, acendendo o primeiro cigarro do dia, tragando com aquela elegância displicente de quem já viu de tudo e não deve nada a ninguém.


— Vai ficar aí fazendo pose de anjo decaído ou vai vazar antes que o padeiro abra? — perguntou ela, cuspindo a fumaça para o teto com um meio sorriso irresistível.


Me levantei, catei os sapatos debaixo da cadeira, vesti a camisa amassada e dei um beijo na bochecha dela, que cheirava a jasmim e pólvora. Saí pra rua fresquinha da manhã com a sola dos pés latejando, a cabeça zonza, mas com a certeza absoluta de que aquela noite tinha valido por dez anos de tédio burguês.

Soneto da Onda e do Adeus


Olha, é a onda que se foi, adeus...

Foi-se levando o sal da nossa história,

Deixando a espuma branca na memória

E esse silêncio imenso entre os meus eus.


Tão breve foi o beijo dos verões,

O mar batendo o pulso na areia nua;

Ficou no peito a treva que era a lua

E o eco triste de outras solidões.


Adeus à brisa mansa que soprava,

Ao tempo que em gavetas se guardava,

Ao rastro leve que o mar levou.


Tudo passou como maré vazante:

A chama viva, o instante, o tom constante...

Olha, é a onda que se foi. E o amor ficou.

Depois - conto

 Eram onze e vinte de uma terça-feira mofada em São Paulo. A garoa fina caía como um cuspe morno de viaduto, misturando fuligem de escapamento com o cheiro de esgoto da 13 de Maio. Caio estava lá, encostado num portão de ferro enferrujado, com a calça jeans colada na canela e o tênis All Star com um buraco no dedão que já tinha intimidade com a umidade da calçada.


Passou dez minutos achando que tinha levado um bolo cósmico. Pensou: "Sou um imbecil mesmo, caí no papo de uma maluca de casaco vermelho".


Foi quando um par de faróis altos cortou a cerração e uma silhueta contornou a esquina. Brenda. Ela estava sem o casaco de peles agora, vestida com um vestido tubinho preto colado que desafiava as leis da física e da geometria, a bota tratorada fazendo toc-toc no asfalto molhado como passos de desfile de escola de samba em dia de apuração. Na mão, balançava as chaves de um Opala preto ano 78 que parecia beber mais óleo do que ele próprio.


— Demorou, garoto? O trânsito na cabeça dos otários tá feio hoje — disparou ela, destravando a porta do carona com um estalo seco.


Caio entrou no carro engolindo em seco. O painel do Opala fedia a cigarro mentolado, couro velho e a um perfume adocicado que grudava na garganta. Ela engatou a primeira com uma violência quase erótica, o câmbio arranhando levemente, e pisou fundo. O motor roncava como um bicho acuado.


Não trocaram três palavras no trajeto. Subiram para o lado da Bela Vista, entraram numa daquelas ruas ladeiradas onde os sobrados antigos parecem esconder segredos inconfessáveis e rachas de podologia barata. Brenda manobrou de ré com uma precisão cirúrgica, colando a traseira do Opala na fachada de um sobrado grafitado.


— Chegamos ao QG da perdição, Caio. Sobe antes que a polícia passe e ache que eu tô sequestrando menor de idade.


O apartamento dela no segundo andar era um manifesto pop e desorganizado. Paredes pintadas de um azul-petróleo escuro, cartazes de filmes trash colados com fita isolante, pilhas de vinis no chão, luz de neon cor de rosa estourando num canto e um colchão de casal jogado direto no assoalho de taco encerado, coberto com um lençol de cetim leopardo que implorava por socorro.


Caio ficou estacas perto da porta, segurando a própria mochila como se fosse um colete salva-vidas num tsunami.


Brenda trancou a porta com duas voltas, jogou a chave em cima de uma mesinha de centro cheia de cinzeiros e latas de cerveja vazias, virou-se para ele e cruzou os braços. Abriu um sorriso lente, predador, de quem sabia exatamente o estrago que estava fazendo.


— Vai ficar aí com essa cara de quem viu o saci-pererê, moleque? Tira essa jaqueta fedida de gordura de hambúrguer. Aqui a gente respira outro ar.


Antes que ele pudesse gaguejar um "certo", Brenda já estava em cima dele. O cheiro dela o engoliu de uma vez só. As mãos compridas, de unhas pintadas de um vermelho escuro quase preto, desabotoaram a camisa de Caio com uma urgência que não pedia licença. O contraste da pele retinta dela contra a dele, branca e assustada, parecia tinta fresca respingada numa tela em br branco.


O que se seguiu foi um atropelo de sentidos, suor e desregramento.


Não teve frescura, não teve romance de comédia romântica da sessão da tarde. Foi um tranco elétrico. Brenda dominava o espaço com uma soberania de imperatriz do submundo. Cada toque dela queimava a pele de Caio como ácido sulfúrico doce. Ela ria baixinho no pé do ouvido dele, chamando-o de nomes que faziam o sangue ferver na virilha, enquanto o mundo lá fora continuava cinza, chuvoso e irrelevante.


Naquela cama de cetim leopardo, sob a luz cor-de-rosa do neon que piscava com mau contato, Caio esqueceu o cheiro da chapa, o gerente avarento, a escola, o boleto e o próprio nome. Ela o desmanchou inteiro e o reconstruiu do jeito dela: cru, barulhento, vivo.


Horas depois — ou talvez séculos, porque o tempo tinha perdido o ponteiro —, Caio estava deitado de bruços no colchão, olhando o teto, com o corpo dolorido de um jeito bom, parecendo que tinha sido atropelado por um caminhão de pura adrenalina.


Brenda acendia um cigarro na ponta dos dedos, a fumaça subindo em voltas preguiçosas até sumir na penumbra. Ela olhou para ele de soslaio, tragou fundo e soltou a fumaça na direção do rosto dele.


— E aí, garoto? — perguntou ela, com aquela voz rouca que parecia rasgar o veludo. — O fast-food ainda parece a parte mais importante do teu dia?


Caio virou o rosto, sorriu no escuro, sentindo o gosto de nicotina, suor e liberdade na boca, e balançou a cabeça negativamente. Pela primeira vez na vida, ele não sabia para onde ia o dia seguinte — e, porra, nunca tinha se sentindo tão leve.

fast-food - conto

 A chapa estava pegando fogo, o óleo fedia a ranço industrial e o ar-condicionado daquela espelunca de fast-food tinha morrido em 2018. Caio, dezessete anos e meio, espátula na mão direita, avental engordurado colado no peito, sentia a própria alma escorrer junto com a gordura vegetal hidrogenada. A vida dele era um looping de cheeseburger, batata murcha e cliente impaciente cuspindo reclamação no balcão.


Foi quando a porta automática abriu e o inferno particular de Caio deu uma trégua cósmica.


Ela entrou.


Não era apenas uma cliente. Era um acontecimento meteorológico. Alta, soberana, de pernas infindas cobertas por uma calça de vinil que estalava a cada passo, uma bota tratorada e um casaco de pel sintética vermelha que fazia o piso de cerâmica encardida parecer um tapete vermelho de Cannes. A pele retinta brilhava sob a luz fluorescente fria, a trança box braid caía pesada pelas costas e o carão dela era uma mistura de tédio cosmopolita com quem veio cobrar o imposto de renda do gerente.


Caio travou. A espátula quase derreteu na chapa.


Ela parou diante do caixa onde a coleguinha de farda, uma adolescente com olheiras até o joelho, mastigava chiclete.


— Quero um combo duplo. Sem picles. E um milk-shake de ovomaltine que não venha ralo, porque se vier eu jogo na tua cara. Captei, gatinha? — a voz dela era um contralto aveludado, cortante e magnético que fez os pelos do braço de Caio levantarem em festinha particular.


A caixa só piscou, aterrorizada e fascinada.


Quando o pedido ficou pronto, coube a Caio a sagrada missão de levar a bandeja até a mesa do fundo, a única longe da luz estourada. Ele foi marchando como quem vai pro fuzilamento, o coração batendo no ritmo de um funk desgovernado.


Aproximou-se da mesa com a cabeça baixa.


— Seu... seu pedido, moça.


Ela cruzou as pernas, ajeitou o casaco e ergueu o queixo. Os olhos dela, delineados com um gatinho impecável, cravaram nos de Caio. Um sorriso lento, irônico e devastador abriu-se nos lábios carnudos dela.


— Moça não. Brenda. E você tem cara de quem chora escondido no estoque ouvindo MPB triste, garoto. Como é teu nome?


— C... Caio.


— Senta aí, Caio. A chapa não vai esfriar se você respirar dois segundos. O capitalismo pode esperar.


Caio olhou pros lados. O gerente estava no escritório contando moedas. Sem pensar duas vezes, largou a bandeja, puxou a cadeira de plástico e sentou-se diante daquela força da natureza.


— Você não é daqui — soltou Caio, com a audácia dos desesperados.


— Eu sou de onde eu quiser, meu amor. Hoje tô de passagem por esse lodaçal de fritura. E você? Fica o dia todo aí fedendo a gordura por um salário mínimo que não paga nem o teu passe de ônibus?


— É o que tem pra hoje... — murmurou ele, enfeitiçado, olhando de soslaio para o colo dela, para a imponência daquela mulher que parecia esculpida a fogo e neon.


Brenda riu, um som grave e gostoso que abafou o barulho das fritadeiras. Ela inclinou-se sobre a mesa, o perfume doce e caro invadindo as narinas de Caio e bagunçando qualquer resquício de sanidade que restava nele.


— Sabe qual é o teu problema, Caio? Você tem medo. Medo de morder a vida, medo de chutar o balde, medo de ser de verdade. Fica aí parecendo um autômato de avental. A vida é curta demais pra passar o dia inteiro raspando restos de carne artificial, porra.


As palavras bateram em Caio como um banho de água fria misturado com adrenalina pura. Ele sentiu o rosto esquentar, não de vergonha, mas de um tesão louco, misturado de liberdade e vertigem.


Brenda esticou a mão unhada de gel, tocou levemente o queixo dele com a ponta dos dedos longos e cravou os olhos nos dele.


— Termina teu turno às dez, né? Passa na esquina do inferninho ali na 13 de Maio. Quero ver se esse teu sangue de garoto de fast-food ainda corre ou se já virou puro óleo congelado.


Ela se levantou com uma graça felina, pegou o copo de milk-shake, deu uma última tragada no canudo e caminhou em direção à saída, rebolando com uma insolência que parecia zombar da gravidade e de toda a mediocridade do mundo.


A porta automática fechou. O cheiro de gordura voltou a reinar. Mas Caio já não era o mesmo. Olhou para a espátula, depois para a porta, e percebeu que o turno da noite nunca mais seria igual.

Ando perdido

 Ando perdido por este mar de gente

que passa sem ver o meu pranto.

Um mar de gente que corre,

que gesticula,

que consome os dias na pressa vã dos relógios.

E eu fico aqui,

olhando de longe,

feito uma das pessoas ocultas

que habitam os porões do mundo.

Essas pessoas ocultas que carregam mistérios antigos,

rostos que a multidão esmaga,

fantasmas leves que andam à sombra da claridade.


Sinto o medo de ser,

este medo de ser eu mesmo,

este pavor de ocupar espaço no tempo,

de ter nome,

de ter carne,

de ter um destino traçado nas mãos.


O medo de ser me paralisa o passo,

me prende ao silêncio dos quartos vazios,

enquanto o mundo lá fora continua a girar,

indiferente e cruel,

neste vasto,

neste infinito

e solitário mar de gente.

A variação dos tempos

     Sua lua foi destroçada

e caiu no mar do coração.

    Pequenos ventos gongorianos

levavam nossas bocas

para os banheiros sujos da vida.


    O amor pendia como uma foice

e riscava de giz o nosso coração.