terça-feira, 8 de setembro de 2026

a ostra e o dia

 melodia

do

mel do 

corpo


nasce o sol

nasce o mar


salgado

e         salgada

é a melodia


melodia do tempo!

do tempo que passa...

Nascem as flores da primavera

         Nascem as

flores da

primavera

e o cheiro

do perfume

    do sol


sobre o

        sal do mar

venta     as janelas

dos navios

afogados!

força monumental

 Mariposas

negras de

culos imensos

e doces

passam e


dançam

pela memória

da aurora 

feliz!

A menina e a bruxa - conto fantástico

 

DIÁRIO DE TLÖN 

Suplemento de Arquitetura, Espectros e Labirintos

Menina refuta o tempo cíclico e impede furto ontológico na residência dos Álvares

BUENOS AIRES (Via Campinas) — Na confluência inexata entre as sombras do corredor oeste e o esquecimento absoluto, ergue-se o casarão da senhora Cassandra. Foi neste endereço que, no crepúsculo da última quinta-feira, o fluxo linear do tempo sofreu uma ameaça de inversão. O boletim registrado na Sociedade de Estudos Metafísicos de Campinas relata a tentativa frustrada de um delito paradoxal: o roubo da juventude alheia por um agente há muito falecido.

        A autora da infração era Ofélia, referida nos alfarrábios locais como a "bruxa pálida". Os registros cartoriais atestam, com a ilusória precisão típica dos documentos cívicos, que Ofélia faleceu por asfixia mística naquele mesmo casarão há exatas cinco décadas. Contudo, no universo das casas antigas, a morte não é um destino, mas um erro de gramática. Ofélia não havia partido; convertera-se em um artifício da própria arquitetura, aguardando pacientemente nos ângulos cegos dos espelhos. Seu objetivo era geométrico e perverso: transmutar sua estática palidez cadavérica na vitalidade de sua hospedeira, a tia Cassandra, através de um axioma de troca equivalente.

        O processo de usurpação já se iniciara quando a noite caiu. Observadores do invisível relatam que a velhice de Cassandra migrava, gota a gota, para a superfície do grande espelho prateado da sala de estar, enquanto a face de Ofélia, emergindo do outro lado do azougue, recuperava o rubor de 1976. A imortalidade e a juventude, provou o evento, são apenas uma questão de contabilidade furtiva entre dois mundos.

    O crime cósmico só não se consumou graças à intervenção da menina Síria. Alheia à complexidade erudita dos labirintos temporais, a criança valeu-se de uma refutação violenta e irrefutável. Munida da pesada Enciclopédia Britânica (Volume M, Mirrors to Myths), Síria atirou o tomo contra o cristal no exato momento em que as almas se cruzavam no meridiano do espelho. Ao fragmentar a superfície, fragmentou o próprio tempo.

            Os peritos que recolheram os cacos confirmaram que o feitiço foi cancelado por um paradoxo: a bruxa pálida foi multiplicada e reduzida a milhares de réplicas minúsculas e inofensivas, agora presas para sempre nos estilhaços espalhados pelo tapete persa. Cassandra manteve suas rugas intactas, declarando aos repórteres que a eternidade lhe parecia, afinal, um conceito excessivamente longo e cansativo. Síria, por sua vez, retornou aos seus cadernos de matemática, perfeitamente indiferente ao fato de ter assassinado a morte.

O Gatohomem de Campinas - conto fántastico

 

CORREIO DE CAMPINAS - Caderno de Ocorrências Cotidianas e Inexplicáveis

Prefeitura suspende buscas por bípede felino; Zoonoses alega falta de formulários para entidades cósmicas

CAMPINAS, SP —Na madrugada desta terça-feira, a Guarda Municipal encerrou oficialmente o inquérito sobre o chamado "Gatohomem do Largo do Rosário". Segundo o boletim de ocorrência, preenchido com caligrafia trêmula e rasurado três vezes pelo oficial de plantão, as buscas foram interrompidas por absoluta inadequação burocrática: o sistema municipal não possui protocolo para a captura de abominações indescritíveis.

As aparições começaram na última sexta-feira. Diversos transeuntes relataram a presença de um felino de dois metros de altura, caminhando ereto sobre as patas traseiras pelas calçadas de paralelepípedo do centro. A criatura, descrita como portadora de uma pelagem negra que parecia absorver a luz dos postes e olhos amarelos que refletiam a fria e ancestral indiferença do cosmos, tem causado transtornos leves ao comércio noturno.

O Sr. Lucrécio, jornaleiro aposentado, foi a principal testemunha. "Ele não miou nem rosnou", declarou o idoso, que desde então se recusa a olhar para o céu noturno. "A besta parou ao meu lado no ponto de ônibus da Avenida Francisco Glicério. Com as garras pingando um lodo de eras mortas, ele ajeitou a gola de um sobretudo invisível e reclamou, em um dialeto gutural e pré-humano, sobre a demora da linha 381."

Agentes do Departamento de Zoonoses tentaram intervir na noite de domingo, munidos de redes padrão e petiscos de fígado. No entanto, ao ser cercada nos fundos do Palácio da Justiça, a criatura simplesmente rejeitou as leis da física tradicional. Testemunhas afirmam que o monstro dobrou seu corpo humanoide em ângulos não-euclidianos, achatando-se em uma geometria blasfema antes de escorrer, como uma sombra espessa, para dentro das grades de um bueiro.

A Prefeitura emitiu uma circular interna tranquilizando a população. O texto afirma que, embora a criatura exale uma aura de loucura e desespero primordial, ela aparentemente não é portadora do vírus da raiva. Pede-se apenas aos munícipes que mantenham as lixeiras devidamente trancadas e evitem oferecer sardinhas a divindades esquecidas pela razão. O caso foi arquivado na gaveta de assuntos pendentes, aguardando um carimbo da vigilância sanitária.

Voltando

 A flor e as estrelas estão desabrochando,

e lá fora a chuva fria cai,

gotas, meu caro francis ponge,

se eu pudesse falar francês arcaico, eu lhe diria,

alegremente, mon ami. Sonhemos com símbolos verdadeiros,

ocultos e figurativos.

domingo, 6 de setembro de 2026

O destino

 sobre a luz das agulhas

ruge o diamante nas mãos

do velho andarilho


o frio vai formando um

poema de metáforas longas,

a neve é a água gelada


por fim desce o pântano

e lá pelas névoas agitadas

uma bola de futebol desce.