domingo, 26 de julho de 2026

LABIRINTO

 Toma de mim o verso 

em português arcaico, 

para que, como Sêneca, eu possa cantar

 os dias que passam soberanamente. 

Vê o vazio da vida, 

esta estranha agitação... Não é o verme

 um deus mundano e oco do mundo? 

O melhor que se pode ser nesta estranha

 coincidência é o esquecimento. Silêncio,

 nele reside a vitória e as cinzas. Tudo 

no universo passa. Se o universo quer 

algo de nós, faz tudo para complicar 

nossos passos. A eternidade dura um

 único segundo. O barro do

 corpo agradece e chora.

Aleph

 Em meus sentimentos,

 em todos os sentimentos da          vida: aqui estou eu,

 o mesmo personagem de mim

 mesmo nestes lados da existência.

A Biblioteca de Babel

 Aqui jaz o jornal aberto, e no espelho meu rosto cansado examina as notícias de todo o Brasil: domingo chegou, sábado se foi. Amanhã, todos os dias, os dias se encontram. Tédio da existência, tédio de dormir e acordar, sonhar e beber… A manhã retorna involuntariamente e afoga tudo em meu peito. Agora, velho Walt Whitman barbudo, lembre-se de mim, longe do fim, proclama minha voz em sonhos e espelhos antigos, e tigres me perseguem ao lado de hipopótamos sonâmbulos. Em mim nascem todos os homens. Além disso, aqui está uma flor no seio de uma mulher, da qual me amamento extasiado até o fim.

BEOWULF

 Entre os anos e a passagem do tempo, a palavra que deveria dar vida a esta antiga lenda saxônica se desfaz em uma metáfora vazia. Quem chora? Quem chora? Abram os portões, é o saxão barbudo Beowulf, buscando a espada, o círculo do mundo em versos, contemplando o belo dragão com adagas femininas e sensuais. Mundo vasto de gritos, veja apenas a noite tardia de suspiros e uma faca no orgulho de todos os dilemas.

O golem

 O rabino contempla com ternura o fervor dos dias: Para criar a eterna escrita do amor, veja Deus contemplando a si mesmo num espelho numa rua da antiga capital europeia. Das rochas orientais às ocidentais, um gato canta uma anedota judaica, e em meio ao futuro, a metáfora infinita da moeda.


O golem reconhece-se um dia na vaga sombra dos olhares do judaísmo ancestral.

As manhãs marinhas

 Dos teus olhos, como o mar, vem a promessa: 

da origem destes olhos,

 todos os pescadores dos lagos do amor, 

da origem, da origem viva da manhã,

 do mar, dos teus olhos.

sábado, 25 de julho de 2026