terça-feira, 16 de junho de 2026

Quadrinho

 


O Vidente de Fogo e Vento


Rimbaud! O meteoro, o estranho brilho,

Que no azul do infinito se treslouca;

Na chama audaz de uma febril boca,

Rasgou da lógica o estreito trilho.


Deixou o berço, o pranto, o antigo trilho,

Para encontrar, na visão que o convoca,

A essência bruta que o delírio toca,

No navio ébrio que não busca o brilho.


Poeta vidente, em descaminhos vagos,

Que fez da vida um barco em mar de espasmos,

Perdido em ritmos, em febris afagos.


Sua poesia, em lúgubres entusiasmos,

É o sol que queima em mil distintos lagos,

No fundo eterno dos abismos-chasmos.

O Cantor das Entranhas Cósmicas


Augusto! O visionário da matéria,

Que na podridão viu a luz da essência;

Cantou da vida a atroz e fria ausência,

Em versos de uma dor, de uma miséria.


Na lente do átomo, a alma incerta, séria,

Fez da decomposição sua eloquência;

Transformou o verme em viva transcendência,

Na escala atroz da cósmica artéria.


Mórbido arcano, alquimia do nada,

Onde o cadáver — semente do futuro! —

Se funde à terra, em chama gelada.


Ó, trovador do abismo, do obscuro,

Que na carcaça, em lúgubre jornada,

Encontrou o brilho do infinito puro!

O Mestre das Flores do Mal


Baudelaire, o artífice da estranha sombra,

Que fez do abismo o seu altar de luz!

Na tua pena, o vício se traduz

Em música que o espírito assombra.

Tua lírica — um espectro que desombra

O lado oculto da alma que seduz;

Pois no negror da dor que nos conduz,

A beleza, em seu luto, se alfombra.


Cidades de metal, névoas de fel,

Onde o Spleen em carícias se desata,

E o Ideal ascende em brilho de éter e mel.

Ó, rei da essência, em verso de cascata,

Que revelou, no peito desse céu,

A própria flor que da agonia brota!

O Contraste de Fogo e Gelo


Na rua fria, o vento corta o vago,

Onde a brancura, em desatino, esplende;

A carne, em curvas, o luar suspende,

Num desenhar de um luminoso afago.


O corpo — estátua! — em mármore, um amago

De nádegas que o ar, em névoa, prende;

É o vulto audaz que a noite em luz acende,

Nesse contraste, em lúbrico afago.


Formas que desafiam o frio severo,

Escultura de luz na sombra errante,

Numa exposição de um brilho etéreo.


Beleza pura, em desvario constante,

Que faz do asfalto, o seu império austero,

No espasmo vivo de um luar vibrante.

O Ritual de Nayane


Nayane, flor de alvura, estranho lume,

Em cuja carne a luz se faz escultura,

De branca seda e rara arquitetura,

Onde o desejo em ondas se assume.


Na tua forma, o vago se resume,

Em curvas de âmbar, de pálida candura;

A boca busca, em febre, a formosura,

Nesse altar vivo, em rastro de perfume.


Chupa-se o mel, o néctar do mistério,

No gozo vago, em brilhos de ametista,

Nesta fusão de um corpo, num império.


Beijo a brancura, a essência, a conquista,

Nesta Nayane, sonho de império,

Que o meu desejo, em versos, transvista.