Há um fio que não vemos
ligando o pulso solitário
ao grande coração do mundo.
Caminho entre sombras próprias,
pensando ser ilha,
mas sob meus passos vibra
a memória de milhões de passos antigos.
O vento que me atravessa
já falou a bocas mortas,
já ergueu bandeiras,
já embalou berços esquecidos.
Não sou apenas este corpo breve,
nem esta mente que duvida:
sou também o eco
de uma canção coletiva
que nunca termina de ser cantada.
Quando fecho os olhos,
ouço-a —
uma roda imensa girando no escuro,
onde cada alma é centelha
e nenhuma arde sozinha.
Assim aprendo:
o destino não é um caminho isolado,
mas um campo magnético de espíritos,
e cada escolha minha
faz vibrar o tecido inteiro do invisível.
Ó alma coletiva,
mar secreto onde deságuo —
que eu não tema dissolver-me,
pois no perder-me em ti
é que me torno inteiro.