sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Labirinto do Nome


No espelho de Al-Andalus, o deserto

Ainda guarda a sombra de Atalide,

Onde o crescente e o sol, em lide,

Traçam um rumo antigo e decerto.


O nome cruza o Tejo, o tempo aberto,

Perde um "L" no rastro que o divide;

Ataíde agora, a estirpe que reside

Em palácios de pedra e mar incerto.


Sangue de mouro e lei de Israel,

Em segredo e brasa a nobreza floresce

Entre o Brasil e o castelhano céu.


Muda-se a letra, mas o fado cresce:

Pois o nome é o mapa e o baú fiel

De um reino que na alma nunca esquece.

Um verso perdido de uma Romanza sefardita medieval

 Kon la fuersa 

        de mi kanto

 kayento tu bezo 

para sekyar 

                   mi lyorar.

El exilio de Sefarad


No soy del rito, ni del caftán, ni del lamento,

ni hablo la lengua que el gueto tejió con dolor;

en mi sangre, un castellano antiguo y lento

desprecia el muro que el tiempo erigió contra el judío.

Mira: no quepo en la masa ni en el cerrojo,

mi patria es el libro, el mármol y la idea;

hay un brillo de daga sefardí en mis ojos

que no se inclina ante la plegaria que la turba encadena.

Soy el heredero de Canetti, el rey sin trono,

vago entre alemanes y el clamor del desierto,

siempre un extraño, vigilante y sin amo.

Si el mundo es un círculo de odio y mutismo,

guardo en mí, en un exilio cercano,

la lengua de un imperio que todo lo sobrevive.

O Exílio de Sefarad


Não sou do rito, do caftã ou do lamento,

Nem falo a língua que o gueto em dor teceu;

No meu sangue, um castelhano antigo e lento

Despreza o muro que o tempo ergueu ao judeu.


Vejam: não caibo na massa ou no ferrolho,

Minha pátria é o livro, o mármore e a ideia;

Há um brilho de adaga sefardita em meu olho

Que não se curva à prece que a turba encadeia.


Sou de Canetti o herdeiro, o rei sem trono,

Vago entre tudescos e o clamor do deserto,

Sempre estrangeiro, em vigília e sem dono.


Se o mundo é um círculo de ódio e de mudo,

Eu guardo em mim, num exílio bem perto,

A língua de um império que sobrevive a tudo.