terça-feira, 22 de setembro de 2026

Um Pequeno Clã

 Raul descobriu o mar do 

meu corpo em baixo de uma beliche.

E ali, me mamando, me mamando

como se o juízo final tivesse chegado

ele simplesmente engoliu minha porra,

toda, inteira. 

Raul era um deus grego, branco, novinho.

Por onde andas, meu querido Raul,

onde está teu corpo nu que já não mais vejo...

Se é torre ou se é templo

 Samuel era belo, Samuel era duro,

Samuel tinha o pau grande e grosso

igual uma cobra sucuri, e ele fazia

eu chupar ele, e eu chupava com

carinho aquela glande gigantesca.

E Samuel acariciava meus cabelos

antes de elevar seu gozo semi-transparente.

Samuel, tu não eras negro, Samuca.

Tu não eras negro, mas seu pau era gigante.


O cafezal escuro da memória

 O cafezal escuro observava

teu corpo com os meus olhos.

Ó, corpo negro, corpo macio.

E ali, com o brilho da tua caricia

tu mijavas teu banho de urina.


Como esquecer tua voz,

tua voz doce de negro africano:

"Olha aqui, tá duro" sim, duro estava

e aqui maravilhou meus olhos,

seduziu minha boca como um

inseto atraido pela luz.


E, batendo sem saber bater,

eu batia, e você pedia, "não,

senta aqui", mas eu não sentei 

(arrependimento de querubim sereno).

E, mesmo sem sentar, o fluxo branco

saltou da glande sagrada do teu amor.

E alim sua voz secreta: não conta pra ninguém.

E até hoje para ninguém a não ser a você

eu contei!

Amuleto de dor

 A moscas da vida

me espanta...

o trem apita e meu coração soluça uma

ansiedade estranha, que não sei de que...

o tempo moderno é uma frescura...

meu Deus do céu, para que

tantas pessoas nesse mundo inutil...

lá fora o frio e a chuva sem se

importar com os mendigos continua

caindo,

os burgueses ali também não se importam com ele,

nem com o aluguel que os pobres devem,

nem com as tristezas que devemos carregar

como uma cruz,

uma cruz, Senhor meu, nesse mundo inutil...

escuta, essas asas de pomba,

esse passar de serpente,

mas sua boca foi um beijo que nunca tive,

e embora eu tive seu cuzinho macio

debaixo do chuveiro, fiz coisas e coisas,

e mesmo assim,

escuta, apita o trem da vida.


No vazio de todas as coisas

 No vazio de todas as coisas

o vento se move feito um cavalo.

Longe, bem longe, suspiro as

lembranças que me apagam.


A casa está silênciosa, o mar

barulhento das pessoas me abandonaram o peito.

ENTRELAÇADO no meu coração

eis o aço do sofrimento.


Sofro do que... Chega!

O poeta não tem fim!

Balada

 De verde, igual serpente,

folha aberta, sempre como

o boldo secreto, o chá

da tua boca, a exegese

perfeita da tua perfeição.

Vê teu corpo nas nuvens entrelaçadas

entre o mar e a pedra.


Boca serena, boca de cereja,

mulher que carrega no peito o

pequeno cosmo feito de suor e cuspe.

Seguimos em frente, e no teu apartamento,

óh pintura cubista que vi, 

entrelaçado mapa que não se

pode esquecer, teu vestido transformou-se

na memória, e a memória transformou-se no espelho.

Dia após dia a saudade fez o fogo arder. 

Agora o nada e o tempo se misturam.

Sua imagem ainda estampa meu coração.

Podemos sofrer, mas você já não existe.

Balada de desespero

 Me faltam títulos

para os meus poemas.

Estarei morto?

A fruta sobre a mesa

me mira com dó e tristeza.

O fruteiro está cheio de moscas.

Estarei morto?

Ela passa nua por mim,

e meus olhos cheios de

água vai lavando minha alma.

Ela de calcinha vermelha era

o muro que me protegia de tudo.

Estarei morto?

Os cavalos ciganos continuam

bailando entre as estrelas frias.

E eu, deitado no sofá,

miro o mar cheio de agulhas,

e sinto medo. 

Eterno medo de algo que me

encontrará pelas esquinas sombrias.