Grafite,
em tinta de folhas,
respira o tempo.
O lençol branco,
um pico coberto de neve,
onde o poema,
este grito silenciado,
surge na quietude.
Estamos perto.
© Gabriel de Ataide Lima. Todos os direitos reservados.
Grafite,
em tinta de folhas,
respira o tempo.
O lençol branco,
um pico coberto de neve,
onde o poema,
este grito silenciado,
surge na quietude.
Estamos perto.
Meu caro,
Essa provocação de Fernando Jorge sobre a nossa
culta e sobeja Academia Brasileira de Letras toca em uma ferida antiga,
daquelas que a gente esconde sob o casimiro fino e o verniz dos salões
cariocas. O querido Fernando, com seu lápis afiado de cronista indignado,
aponta o dedo para o que há de mais aristocrático e, por que não dizer, de mais
carcomido em nossas formas de sociabilidade intelectual: o fardão como enfeite
de vaidades e o silêncio cúmodor dos que preferem o chá das cinco à têmpera da
história.
Gilberto Freyre, se estivesse aqui a prosear com
vocês à sombra de um manguezal ou na varanda de um engenho pernambucano, diria
que a nossa Academia nunca deixou de ser um espelho da nossa formação
patriarcal e de nossas heranças coloniais. O Brasil sempre teve essa mania
elegante de enfeitar o poder e o prestígio social com a caspa da erudição de
encomenda. O acadêmico de ocasião, aquele que produz um livrinho apenas para passar
pelo buraco da agulha e vestir a farda bordada a ouro, é o legítimo herdeiro do
bacharelismo de faculdade. É o homem letrado não pela paixão da palavra, mas
pelo apetite do status. Para ele, a literatura não é carne viva ou dor social;
é um colar de ouro para adornar o pescoço da respeitabilidade burguesa.
E quanto ao silêncio da Casa de Machado de Assis
diante dos porões da censura — seja nos tempos bravios do Estado Novo de
Vargas, seja sob a bota de ferro dos generais —, isso nos revela a face mais
melancólica da nossa inteligência oficial. Uma academia que se isola em sua
redoma de mármore e silencia diante do arbítrio abdica de sua alma. Prefere o
conforto da poltrona à têmpera da resistência. No fundo, há nessa omissão um
medo ancestral de perder os favores do Estado, de sujar os sapatos lustrosos na
lama da pólvora e da censura.
Contudo, meu caro leitor, a cultura brasileira é
muito mais rica, miscigenada e vasta do que o silêncio protocolar de seus
imortais. Ela pulsa nas ruas, nos batuques, na fala do povo, nos livros que
teimam em nascer apesar da indigência editorial. A Academia pode até continuar
a eleger seus figurões e a guardar silêncio nos salões, mas a verdadeira
literatura do Brasil — essa sim — continua a se fazer com sangue, suor e uma
irrecusável alegria de existir.
O sol da
tarde derretia o asfalto da Rua 13 de Maio, em Campinas, misturando o cheiro de
pastel de feira com o escape dos ônibus municipais. No entanto, o fluxo de
pedestres parecia contornar os dois com uma precisão quase geométrica, como se
uma lei não escrita da burocracia municipal proibisse o espanto naquela
calçada.
Sentada
em um engradado de cerveja virado para baixo, a cigana Esmeralda jogava cartas
encardidas sobre uma mesinha de plástico capenga. Em pé, diante dela, um homem
de terno cinza-claro tentava, sem muito sucesso, manter uma forma humana
definitiva. Suas têmporas ora afundavam em escamas verde-musgo, ora derretiam
em plumas de corvo, num esforço constante para lembrar quem ele era pela manhã.
— Não
adianta vir com essa retórica de transmutação rápida, moço — disse Esmeralda,
sem erguer os olhos do baralho, enquanto batia unhas pintadas de vermelho
escuro no plástico. — Aqui em Campinas, até as metamorfoses precisam de alvará
da prefeitura. O senhor já tentou protocolar sua ausência de contornos no
Poupatempo?
O homem
suspirou, e seu peito expandiu-se momentaneamente no dorso peludo de um urso
pardo antes de murchar de volta para o corte alfaiate do paletó.
— Eu não
escolhi isso, senhora — respondeu ele, a voz oscilando entre o barítono de um
velho professor universitário e o coaxar seco de um anfíbio. — Ontem eu era um guarda-chuva
esquecido no bonde. Antes de ontem, uma rotatória na Avenida Moraes Salles.
Acordo toda manhã e descubro que meu fígado virou uma praça pública ou que
minhas pernas decidiram ser a linha férrea abandonada da Fepasa.
Esmeralda
virou uma carta: o Oito de Espadas, manchado de graxa.
— É o mal
de quem vive muito perto do entroncamento ferroviário. Campinas é uma cidade
que estica e encolhe conforme a vontade dos trilhos. Mas o seu caso não é
topografia, é falta de firmeza de caráter. O senhor se lembra de quando era um
bicho só?
— Um
bicho só? — o metamorfo sorriu com um sorriso que se multiplicou em três
fileiras de dentes pontiagudos antes de voltar a ser humano. — É uma lembrança
vaga. Lembro-me de ter tido um nome próprio, mas ele caiu de mim perto do
Mercado Municipal, entre as bancas de mamão. Desde então, sinto-me como um
rascunho borrado pela chuva. Se eu me descuidar, viro o Monumento a Carlos
Gomes e fico preso na praça para sempre, ouvindo pombos.
— Pior
destino seria virar o espumante local — retrucou a cigana, recolhendo as cartas
com um gesto ágil. — Mas olhe bem para mim. O senhor acha que eu também sou
inteira?
O
metamorfo fitou-a com atenção. Sob o lenço de seda dourada, as feições de
Esmeralda começaram a se liquefazer em névoa, revelando por um breve segundo
que ela não era senão o reflexo de uma vitrine vazia na Rua Barão de Jaguara,
projetada ali por engano de luz.
— Nós
somos a mesma coisa — concluiu o homem, resignado, enquanto sua mão esquerda se
transformava temporariamente numa folha de bananeira seca que o vento logo
levou. — Apenas acidentes de percurso numa cidade que esqueceu para onde ia.
— Exato —
sorriu a cigana, voltando a ser de carne, os brincos de argila tilintando. —
Agora, por favor, saia do meio da calçada. O ônibus da linha Centro-Baraão vai
passar daqui a dois minutos, e seria uma pena se o senhor resolvesse virar o
asfalto bem na hora da freada.
O homem
ajeitou a gravata que teimava em virar uma jiboia minúscula, deu de ombros e
seguiu seu caminho, dissolvendo-se lentamente entre os transeuntes que
apressavam o passo rumo à Estação.
A oficina cheirava a pó de gesso velho, cola de sapateiro e àquela melancolia denota das tardes adamantinenses com um sorriso amarelo. Mas a atmosfera, ah, essa tinha o torvelinho cronóforo da vida: os ponteiros do relógio na parede pareciam esticar-se como chicletes, e o pó de gesso, ao cair, nunca chegava ao chão de uma vez só, flutuando em suspensões geométricas que desafiavam a gravidade.
Josias lixava a bochecha
de São Jerônimo. Era uma obra de encomenda para a paróquia do bairro, um
barroco modesto, nordestino por herança emocional, mas plantado no asfalto frio
do Sul. Faltava apenas dar o polimento final no nariz aquilino quando a cabeça,
ainda separada do corpo de arame e estopa, mexeu a pálpebra de gesso
craquelado.
— Sabe, Josias —
disse a cabeça, com uma voz que parecia rolar dentro de um pote de cerâmica oca
—, você tem uma péssima mania de endeusar o que já nasceu poeira.
Josias largou a lixa.
Não gritou. No universo onde as pessoas simples cruzam olhares na esquina da Rua
da Praia com a Avenida Corrientes, coisas absurdas acontecem com a naturalidade
de quem perde o ônibus das seis. O escultor limpou as mãos no avental
engordurado e encarou o objeto.
— É o verniz —
balbuciou Josias, buscando uma racionalidade burocrática bem ao estilo de um
funcionário público melancólico. — O solvente forte sempre causa alucinações
olfativas.
— Não venha com
subterfúgios de almanaque, Josias — replicou o santo, cujos olhos de vidro
pintados a óleo brilhavam com uma ironia muito contemporânea. — Sou eu,
Jerônimo, ou o que restou de mim nesta projeção tridimensional que você insiste
em modelar. E quer saber de uma coisa? Estou farto.
— Farto? Mas demorei
três dias para acertar a curva desta orelha! — protestou o escultor, ofendido
em seu brio artesanal.
— De orelhas o mundo
está cheio, Josias. O que faltam são pernas — disse a cabeça, inflando as
bochechas de gesso como se respirasse pela primeira vez em séculos. — Ficar
aqui em cima da bancada, com essa auréola de folha de ouro falsa que você
comprou na lojinha do armênio, é de uma inutilidade metafísica exasperante.
Chega de imagens estáticas. O sagrado não cabe na redoma do seu atelier.
Josias sentiu um
calafrio na espinha.
— E o que você
sugere que eu faça? Fechei contrato com o padre para entregar o santo na
sexta-feira. Tem sinal adiantado e tudo....
A cabeça de São
Jerônimo suspirou, levantando uma micro-nuvem de gesso branco.
— Quebre o molde,
homem! Pegue esse martelo, desça a escadaria e vá ali na Praça da Matriz. Tem
uma fila de gente dormindo ao relento sob o viaduto, com frio nas juntas e a
barriga colada nas costas. Eles não precisam de um Jerônimo de gesso para olhar
para o teto; eles precisam de sopa quente e de alguém que os olhe nos olhos.
Josias olhou para o
martelo de borracha na bancada. Olhou para a cabeça expressiva, que agora
piscava o olho esquerdo com uma cumplicidade desconcertante.
O tempo parou por um
segundo — aquele segundo típico em que uma mosca suspende o voo no
meio da sala. Depois, com um movimento seco, Josias pegou a cabeça debaixo do
braço, como quem carrega uma melancia pesada e insólita, tirou o avental e caminhou
em direção à porta.
Lá fora, a cidade continuava indiferente, mas na sua axila o santo resmungava:
— Isso, garoto. E
trate de comprar dois quilos de batatas no caminho.
(Cenário rústico,
inspirado no Auto da Compadecida e nos Autos de Gil Vicente. Ao centro, um
presépio simples. Entram em cena o Bispo,
com seu báculo e suntuosidade eclesiástica; o Judeu, com um livro antigo de capas gastas; e o Árabe, com uma bolsinha de moedas
tilintando na cintura.)
Auto do Pretendido Menino
Personagens:
O Bispo: Pomposo, dogmático e latineiro.
O Judeu: Enigmático, recurvado, falando por enigmas talmúdicos.
O Árabe: Pragmático, mercador astuto, de olho no lucro.
Ato Único.
O BISPO (Erguendo os braços para o
céu, com voz solene): Ó, rebanho infiel e gente errada! Ajoelhai ante a
luz sagrada! Este menino que aqui jaz na estrebaria É o Verbo feito carne, a
pura teologia! É o Filho do Pai, Dogma e Trindade, A única porta da eterna
piedade! Fora da Santa Igreja, ó dura sorte, Não há salvação, senão a eterna
morte! Ajoelhai, pecadores, e beijai o chão: Eis o Rei dos Reis, a nossa
redenção!
O JUDEU (Folheando páginas invisíveis,
sorrindo de leve e olhando de lado): Vós falais de reis, Senhor Bispo de
capa esplendente, Mas o mistério do Altíssimo não se alcança tão mente. Diz o
Talmud nas sendas do tempo escondido: O Mamzer
famoso, o mestre ferido... É semente de Davi que o vento espalhou, Um sopro de
além que o espinheiro tocou. Nasce na palha o que a Torá velou em segredo, Nem
cordeiro pascal, nem ídolo de credo. É o nó górdio da Lei, o enigma profundo:
Um carpinteiro graúdo que veio desmanchar o mundo!
O ÁRABE (Aproximando-se do presépio,
balançando as moedas e sorrindo maliciosamente): Ora, deixai-vos de
teologias e de rabinos, Que o vento do deserto traz negócios mais finos! Um
parto na palha, sem ouro nem tenda? Isso é desperdício de grande encomenda!
Onde já se viu Messias sem caravana e sem feira? Se este menino trouxesse
astúcia verdadeira, Já teríamos montado aqui mesmo o bazar: Venda de incenso,
mirra e ouro a par! Comércio sagrado, peregrinação garantida, Pois milagre sem
lucro é alma perdida!
O BISPO (Indignado): Heresia!
Sacrilégio de mercador e fariseu!
O JUDEU (Rindo): Tudo é
mistério que o vento escondeu...
O ÁRABE (Piscando o olho para o
público): Mistério ou não, guardem minhas palavras: o turismo religioso
vai render mais que mil cabras!
(Curvam-se os três em
direção ao presépio, enquanto cai o pano.)
Que lágrima é essa,
fluindo suavemente
em seus olhos?
Acorde, há um anjo
no paraíso do nosso amor.
para paul celan
Sobre o muro
há um muro e nesse muro
há outro muro de gelo.
Dentro do cobre
existe o cobre.
E ao pé das flroes
há outras flores, viver e mortas.
Na pedra existe a pedra.
Na nuvem que se dissolve
em água há outras nuvens
que também se dissolvem
em água
resplandecente.