Eram onze e vinte de uma terça-feira mofada em São Paulo. A garoa fina caía como um cuspe morno de viaduto, misturando fuligem de escapamento com o cheiro de esgoto da 13 de Maio. Caio estava lá, encostado num portão de ferro enferrujado, com a calça jeans colada na canela e o tênis All Star com um buraco no dedão que já tinha intimidade com a umidade da calçada.
Passou dez minutos achando que tinha levado um bolo cósmico. Pensou: "Sou um imbecil mesmo, caí no papo de uma maluca de casaco vermelho".
Foi quando um par de faróis altos cortou a cerração e uma silhueta contornou a esquina. Brenda. Ela estava sem o casaco de peles agora, vestida com um vestido tubinho preto colado que desafiava as leis da física e da geometria, a bota tratorada fazendo toc-toc no asfalto molhado como passos de desfile de escola de samba em dia de apuração. Na mão, balançava as chaves de um Opala preto ano 78 que parecia beber mais óleo do que ele próprio.
— Demorou, garoto? O trânsito na cabeça dos otários tá feio hoje — disparou ela, destravando a porta do carona com um estalo seco.
Caio entrou no carro engolindo em seco. O painel do Opala fedia a cigarro mentolado, couro velho e a um perfume adocicado que grudava na garganta. Ela engatou a primeira com uma violência quase erótica, o câmbio arranhando levemente, e pisou fundo. O motor roncava como um bicho acuado.
Não trocaram três palavras no trajeto. Subiram para o lado da Bela Vista, entraram numa daquelas ruas ladeiradas onde os sobrados antigos parecem esconder segredos inconfessáveis e rachas de podologia barata. Brenda manobrou de ré com uma precisão cirúrgica, colando a traseira do Opala na fachada de um sobrado grafitado.
— Chegamos ao QG da perdição, Caio. Sobe antes que a polícia passe e ache que eu tô sequestrando menor de idade.
O apartamento dela no segundo andar era um manifesto pop e desorganizado. Paredes pintadas de um azul-petróleo escuro, cartazes de filmes trash colados com fita isolante, pilhas de vinis no chão, luz de neon cor de rosa estourando num canto e um colchão de casal jogado direto no assoalho de taco encerado, coberto com um lençol de cetim leopardo que implorava por socorro.
Caio ficou estacas perto da porta, segurando a própria mochila como se fosse um colete salva-vidas num tsunami.
Brenda trancou a porta com duas voltas, jogou a chave em cima de uma mesinha de centro cheia de cinzeiros e latas de cerveja vazias, virou-se para ele e cruzou os braços. Abriu um sorriso lente, predador, de quem sabia exatamente o estrago que estava fazendo.
— Vai ficar aí com essa cara de quem viu o saci-pererê, moleque? Tira essa jaqueta fedida de gordura de hambúrguer. Aqui a gente respira outro ar.
Antes que ele pudesse gaguejar um "certo", Brenda já estava em cima dele. O cheiro dela o engoliu de uma vez só. As mãos compridas, de unhas pintadas de um vermelho escuro quase preto, desabotoaram a camisa de Caio com uma urgência que não pedia licença. O contraste da pele retinta dela contra a dele, branca e assustada, parecia tinta fresca respingada numa tela em br branco.
O que se seguiu foi um atropelo de sentidos, suor e desregramento.
Não teve frescura, não teve romance de comédia romântica da sessão da tarde. Foi um tranco elétrico. Brenda dominava o espaço com uma soberania de imperatriz do submundo. Cada toque dela queimava a pele de Caio como ácido sulfúrico doce. Ela ria baixinho no pé do ouvido dele, chamando-o de nomes que faziam o sangue ferver na virilha, enquanto o mundo lá fora continuava cinza, chuvoso e irrelevante.
Naquela cama de cetim leopardo, sob a luz cor-de-rosa do neon que piscava com mau contato, Caio esqueceu o cheiro da chapa, o gerente avarento, a escola, o boleto e o próprio nome. Ela o desmanchou inteiro e o reconstruiu do jeito dela: cru, barulhento, vivo.
Horas depois — ou talvez séculos, porque o tempo tinha perdido o ponteiro —, Caio estava deitado de bruços no colchão, olhando o teto, com o corpo dolorido de um jeito bom, parecendo que tinha sido atropelado por um caminhão de pura adrenalina.
Brenda acendia um cigarro na ponta dos dedos, a fumaça subindo em voltas preguiçosas até sumir na penumbra. Ela olhou para ele de soslaio, tragou fundo e soltou a fumaça na direção do rosto dele.
— E aí, garoto? — perguntou ela, com aquela voz rouca que parecia rasgar o veludo. — O fast-food ainda parece a parte mais importante do teu dia?
Caio virou o rosto, sorriu no escuro, sentindo o gosto de nicotina, suor e liberdade na boca, e balançou a cabeça negativamente. Pela primeira vez na vida, ele não sabia para onde ia o dia seguinte — e, porra, nunca tinha se sentindo tão leve.