domingo, 12 de julho de 2026

Despedida do sonho

 Todas as noites eu te vejo em meus sonhos.

Você me olha melancolicamente,

e seus cachos negros roçam seu rosto.

Você sussurra uma palavra secreta em meu ouvido,

uma coroa de cipreste como lembrança.

Eu acordo; tudo se foi; o sonho foi levado pela asa do corvo,

e esquecida está a palavra dita na escuridão da despedida.

No outono...

 No outono exuberante,

 a noite grita como

 cristal!

Passou

 Quando a noite estiver fria, 

de quem serão os olhos?

Quando o mar estiver frio,

 em cujas águas eles morrerão?

Quando os dias passarem

 lentamente, quem carregará este coração?

E quanto tempo nos resta?

Que eu mude não é estranho

 O que é superficial muda

O que é profundo também muda

A maneira de pensar muda

Tudo neste mundo muda

O clima muda com os anos

O pastor muda seu rebanho

E como tudo muda

Que eu mude não é estranho

O diamante mais fino muda

Seu brilho passa de mão em mão

O passarinho muda de ninho

Os sentimentos de um amante mudam

O viajante muda de rumo

Mesmo que isso lhe cause prejuízo

E como tudo muda

Que eu mude não é estranho

Tudo muda

Tudo muda

Tudo muda

Tudo muda

Tudo muda

Tudo muda

O sol muda seu curso

Quando a noite permanece

A planta muda e se veste de verde na primavera

O animal selvagem troca de pelagem

O velho muda de cabelo

E como tudo muda

Que eu mude não é estranho…

sábado, 11 de julho de 2026

ONDE SE ENCONTRAM OS RUSSOS, ADEUS AMOR, SOU UM GLORY HOLE


O jornal sangra a seda do czar cortada em fatias de

sílaba de botas

o telefone é uma couve-flor apodrecendo no gelo da Sibéria

tic-tac o poema é uma cavidade na parede de concreto

o orifício da história

onde o ditador sussurra números de sapatos

e o amor é uma preposição gasta

pela umidade da censura.


Recorte o relâmpago:

Pasternak + cinza + o som de um trinco + adeus.


O buraco na parede é a única métrica possível

neste século de ferro e vírgulas inúteis

uma fresta

um olho

um nada

onde se esconde a luz que não pode dizer o nome

do pai

do poeta

do erro.


A lógica caiu da mesa como uma criança de vidro

o jornal está picado

o silêncio é a nossa melhor rima

o buraco é a boca de um deus que se esqueceu de falar.

Deixe-me ir, desista de mim

 Deixe-me ir, desista de mim

Vivemos sem sentir a terra sob nossos pés...

Novos sentimentos despertam

Para nomeá-los todos... Para lutar com terror diante dos inimigos...

 De alguma forma... Até que Apolo exige do poeta 

que componha um novo verso

A conversa é basicamente absurda,

e estamos prontos para realizar o milagre do perdão

De um verso na gaveta

 Um mero capricho, ou asas de corvo 

numa faca, veja só, ele é um gênio, não é?


 Os beijos queimam, um milagre.