terça-feira, 28 de abril de 2026

tarde de domingo

 

o que se passou naquela tarde de domingo não foi uma conversa de namorados como as que se ouvem nos bancos de jardim entre um beijo e uma promessa de fidelidade eterna porque júlia e rodolfo tinham essa mania de carregar o mundo às costas e niterói por mais que fosse bela não bastava para conter a tempestade que se armava entre os dois não senhor rodolfo olhou para o café já frio e disse que a vida era uma repetição sem fim um círculo que se morde e se consome e que se o tal do demônio aparecesse de noite a perguntar se ele queria viver tudo outra vez exatamente igual com as mesmas dores e as mesmas alegrias ele rodolfo diria que sim mas júlia que tinha os olhos postos num ponto invisível do horizonte interrompeu o raciocínio sem pedir licença nem usar vírgulas que o pensamento não se detém por formalidades gramaticais meu querido rodolfo tu falas do eterno retorno como se fosse uma escolha de menu num restaurante de luxo mas esqueces que o amor fati não é aceitar a tua vidinha de classe média com o teu escritório e o teu automóvel é amar o destino até nas vísceras da tragédia e eu pergunto-me se terias estômago para amar a tua própria ruína se ela te batesse à porta amanhã e ele respondeu que sim que era o além-do-homem ou pelo menos o projeto de um e júlia soltou um riso curto que parecia um estalido de ramos secos tu és apenas um humano demasiado humano rodolfo queres o super-homem mas não suportas a solidão de uma tarde sem me ligares queres a morte de deus mas procuras um sentido em cada esquina como se o cosmos tivesse a obrigação de te explicar o porquê de estarmos aqui sentados a fingir que percebemos o que o velho friedrich escreveu enquanto enlouquecia em turim e rodolfo ofendido porque o orgulho masculino é uma criatura sensível e de vidro disse que a vontade de poder era o que o movia mas júlia pôs a mão sobre a dele e a pele dela era o único absoluto naquele momento o problema é que passas tanto tempo a olhar para o abismo que te esqueces de olhar para mim e o abismo rodolfo não te vai fazer o jantar nem te vai dar um abraço quando a angústia apertar nitzsche era um solitário que gritava para as montanhas e nós somos dois tontos a gritar um com o outro num domingo de sol se deus morreu não foi para que o substituísses por um bigode filosófico mas para que fosses capaz de criar a tua própria luz e a minha luz agora é ir embora porque o eterno retorno deste teu mau humor já me cansa os pés e assim se levantaram deixando na mesa o rastro da discussão e o eco de uma filosofia que como todas as outras serve para muito pouco quando o que se quer na verdade é apenas saber se ainda se ama alguém no meio do caos de um universo que não nos ouve nem nos entende.

O Passado

 


O relógio de parede do Bar do Quincas — não o Borba, mas um Joaquim de carne, osso e poucas falas — batia as onze da noite com a fadiga de quem já contou muitos desatinos. À mesa do canto, o Dr. Alcebíades, advogado de causas mofadas e memória seletiva, girava o copo de conhaque como se tentasse decantar o próprio tempo.

— Ah, Joaquim! — exclamou Alcebíades, com a voz pastosa de uma nostalgia mal digerida. — Naquele tempo, sim, havia ordem. O país marchava! Podia-se andar na rua sem o sobressalto de hoje. As famílias eram sólidas, e o civismo, meu caro, o civismo era o pão de cada dia. Que saudade daqueles anos de chumbo... que para mim foram de ouro!

Joaquim, que limpava o balcão com um pano cujo encardido era a crônica da semana, parou o movimento circular. Olhou para o advogado com aqueles olhos de quem guarda o passado não em redomas, mas em cicatrizes.

— Ouro, doutor? — murmurou Joaquim, a voz saindo por entre um cansaço antigo. — Depende de quem batia o metal.

— Ora, não venha com sociologias de botequim! — atalhou o doutor, batendo na mesa. — Havia segurança. O sujeito respeitava a autoridade. O Brasil era um gigante que despertava, as usinas subiam, as estradas rasgavam o mapa...

Joaquim largou o pano. Na penumbra do bar, ele não via as usinas de Alcebíades; via a imagem de 1972, quando o medo entrava pela fresta da porta antes mesmo do sol. Lembrou-se do compadre Sebastião, que sumira numa tarde de terça-feira por causa de um panfleto esquecido no bolso, e cuja mãe morrera anos depois, com os olhos fixos na calçada, esperando um passo que o asfalto devorara para sempre.

— A ordem, doutor — disse Joaquim, aproximando-se do balcão — custava caro. O senhor via as luzes da cidade, mas eu via o preço do óleo subir antes do galo cantar. A miséria, que o senhor diz que não via, escondia-se sob as botas. O senhor sentia segurança porque o seu silêncio era o seu salvo-conduto.

Alcebíades soltou uma risada seca, curta, tipicamente machadiana em sua ironia involuntária. — Bobagem! Quem não devia, não temia.

— Temia-se até o pensamento, doutor. — O dono do bar fixou o olhar no copo vazio do cliente. — No meu bar, naquele tempo, os homens falavam baixo. Não sobre mulheres ou futebol, mas sobre o vizinho que podia ser um "orelha". O medo não era de assaltante; era de quem deveria proteger. E a fome? O senhor se esquece das filas, do milagre que só dava sombra para os donos do altar.

O advogado deu de ombros, buscando no fundo do conhaque a justificativa para a sua cegueira. Para ele, o passado era um quadro retocado, onde as manchas de sangue haviam sido cobertas por uma camada generosa de verniz autoritário.

— O senhor é um pessimista, Joaquim. O que vale é a glória da nação!

— A nação, doutor, são as pessoas. E as pessoas estavam mudas. — Joaquim retomou o pano e o balcão. — O senhor sente saudade da ditadura porque, naquela época, o senhor era jovem e o mundo parecia curvar-se aos seus pés. O senhor não tem saudade do regime; o senhor tem saudade da sua própria importância, que o tempo, esse sim o maior ditador, tratou de confiscar.

Alcebíades levantou-se, pagou a conta com um desdém aristocrático e saiu para a noite. Na rua, o silêncio era absoluto. O advogado sentiu um calafrio, talvez pela brisa, talvez por perceber que, embora o passado fosse o seu refúgio, ele era o único habitante de uma cidade fantasma onde a "ordem" era apenas o nome que ele dava à própria indiferença.

Joaquim apagou as luzes. No escuro, o Bar do Quincas guardava a verdade que os homens de linho preferiam esquecer: que a paz imposta pela força é apenas um cemitério onde a liberdade espera, pacientemente, pela ressurreição.

 

Os Negros


O sol de dezembro castigava o lombo da terra roxa, fazendo a poeira levantar em redemoinhos preguiçosos na chegada à Vila de Santa Cruz. Estácio, jovem de ideias arejadas pelos ventos da capital, desceu da diligência limpando o paletó de linho. Trazia na mala livros de sociologia e no peito uma curiosidade inquieta pelo "interiorzão".

Logo na entrada, a paisagem se dividia como se riscada a canivete.

De um lado, o Morro do Café. Ali, as casas ostentavam frentes de alvenaria, janelões de guilhotina e jardins onde o buxinho era aparado com régua. Nas varandas, brancos de bigodes circunspectos fumavam charutos, enquanto senhoras de pele pálida balançavam leques, protegidas da canícula pelas sombras das mangueiras centenárias. O tilintar de louça fina era o som daquela casta que o café — o ouro negro — havia coroado.

Do outro lado, atravessando o córrego que servia de esgoto e lavanderia, o Arraial de Baixo.

Ali, a cor mudava drasticamente. Eram os negros. Livres por lei, mas escravos da circunstância. Moravam em casebres de pau-a-pique, onde a lama seca parecia pedir licença para não desabar. Crianças de barriga crescida e pés no chão corriam atrás de vira-latas, enquanto mulheres de ombros curvados carregavam trouxas de roupa que pesavam mais que o próprio destino.

Estácio parou diante da venda do Seu Nonô, um sujeito de pele cor de pergumento e olhos espertos.

— Diga-me uma coisa, Seu Nonô — começou o jovem, apontando para o abismo social que separava os dois bairros. — Por que essa gente vive assim, no farelo, enquanto lá em cima a nata nada no leite? Abolimos a escravidão há décadas, não?

O velho Nonô deu uma tragada no cigarro de palha, soltando a fumaça com a lentidão de quem já viu muitas estações.

— Ah, o moço é dos "estudados", né? Pois olhe bem. A lei assinou o papel, mas não assinou o coração das terras. Lá em cima, o branco herdou a fazenda, o nome e o crédito no banco. Aqui embaixo, o negro herdou a liberdade de passar fome sem o chicote nas costas. A liberdade deles é como um pássaro que soltaram da gaiola, mas cortaram as asas antes.

Estácio sentiu um aperto no peito. Viu um velho negro, de barbas brancas como o algodão, sentado num toco de madeira. O homem tinha as mãos calejadas, transformadas em garras pelo trabalho bruto na lavoura que nunca foi sua.

— É um absurdo geográfico — murmurou Estácio para si mesmo. — A cidade é um tabuleiro de xadrez onde as peças pretas só servem para serem comidas pelas brancas.

— É a "ordem natural", dizem os doutores de lá — atalhou Nonô, com um pingo de sarcasmo. — Dizem que é falta de brio. Mas eu queria ver o filho do Coronel erguer aquele bairro do nada, começando com a mão vazia e o estômago roncando.

Estácio caminhou pela rua poeirenta, sentindo que o progresso do Brasil, tão decantado nos jornais da capital, era um edifício luxuoso construído sobre um pântano de injustiças. Ali, em Santa Cruz, o tempo parecia ter parado para manter o privilégio de uns e o sacrifício de muitos, como se a cor da pele ainda fosse o limite invisível entre o ser humano e a ferramenta de trabalho.

O jovem suspirou. Sabia que, enquanto o Morro não olhasse para o Arraial com olhos de irmão, o Brasil continuaria sendo essa "Vila de Santa Cruz": uma pátria grande, mas com a alma dividida pelo muro invisível do preconceito.

poesia

 poesia

o que é isso

que chamas

assim

miragem

parada

esplendida

esse meu caderno

vou deixar para

que outros cantem

o que eu cantei em

silêncio

um dia

As ondas do mar

 assim como o oceano

vem e vai

sua voz 

passa por mim

douravante bela

limpida e esplendida

uma canção sonora

digna de pássaro

cantar


a eternidade

vai deixar tua voz

zumbindo ao vento

por esses mares

e quem sabe

um dia teu nome


as ondas puras

voltem a chamar

pingente pendant

 pingente


essa alegria

passageira

pingente

cubista


pendant


this fleeting joy

pendant

cubist

Dois