LEVE SUA ESPADA
Nas profundezas da Colina
dos Sussurros, onde as árvores riam em voz baixa e a grama brilhava com o pó de
estrelas que caía dos sonhos mal dormidos, vivia Dust, um fauno de cascos
prateados e chifres macios como veludo. Dust tinha a cabeça cheia de rimas antigas
e o pé leve como a brisa de outono, mas a memória, ah, essa vivia sempre
pendurada na lua errada. Numa manhã em que o sol parecia um botão de ouro
descosturado do céu, ele decidiu que era dia de caçar o vento norte. Deu dois
saltos de alegria, empurrou a pesada porta de carvalho de sua toca e partiu
pelos caminhos de musgo, pisando leve e respirando o cheiro de resina e
mistério.
Mal havia cruzado o
riacho dos espelhos, sentiu o ar ficar pesado, cheirando a pedra úmida e meias
velhas de ogro. Ali, bloqueando a trilha com sua barriga redonda como uma
caldeira de ferro, estava Gorn, um troll de pedra vulcânica que guardava a
Ponte do Suspiro. O monstro rosnou, fazendo as pedras tremerem, e cruzou os
braços grossos como troncos de carvalho carcomido.
— Ninguém passa por aqui
sem deixar um dente de ouro ou a alma penada — resmungou o troll, erguendo uma
clava que pesava mais que uma tempestade.
Dust parou, enfiou a mão
na algibeira e percebeu, com um arrepio gélido descendo pela espinha até os
cascos, que a espada mágica de prata que seu avô lhe dera ficara em cima da
cômoda, bem ao lado da xícara de chá de dente-de-leão. O troll gargalhou,
mostrando dentes pontiagudos como cacos de vidro. Mas Dust não era fauno de se
assustar com cara feia. Ele ajeitou o colete de lã, fechou os olhos e começou a
cantar, com uma voz que soava como água correndo sob o gelo:
Oh, pedra que sonha em ser montanha altaneira,
Não prendas o vento que corre na beira,
Pois o peso do mundo que carregas no chão
É pó que o tempo sopra na palma da mão.
A voz de Dust teceu fios
de ouro invisíveis no ar. O troll piscou, confuso. Seus olhos duros como
granito começaram a se fechar, fascinados pela melodia que falava do peso de
existir. Gorn bocejou um estrondo, sentou-se pesadamente na grama e, embalado
pelo verso, adormeceu profundamente, roncando como um trovão distante.
Dust deu um tapinha
afetuoso no ombro de pedra do gigante dorminhoco e seguiu sua jornada. Mas a
floresta mudava de pele conforme o dia envelhecia. Logo as árvores perderam as
folhas e o céu ficou roxo como um hematoma. Numa clareira onde a névoa dançava
em círculos, espreitava Madame Corvo, uma bruxa cujos dedos eram compridos como
galhos secos e que guardava feitiços dentro de potes de vidro empoeirados. Ela
esticou o pescoço e sibilou, bloqueando o caminho com uma fumaça verde:
— Ah, um petisco com
chifres! Vou transformar seus cascos em cascas de noz e sua voz em coaxar de
rã!
A bruxa ergueu o cajado
nodoso, pronta para lançar a praga. Dust, sentindo falta do frio metal da
espada na cintura, respirou fundo o perfume das amoras silvestres e cantou de
novo, sua voz agora subindo como fumaça de incenso:
Bruxa que teces a teia na noite escura,
O mal que destila não traz formosura,
O espelho que brilha no fundo do poço
Mostra que a vida é mais que um feitiço de osso.
O canto de Dust
carregava o eco de mil primaveras esquecidas. A bruxa parou de pular. O cajado
em sua mão começou a brotar pequenos botões de margaridas. Suas rugas profundas
pareceram suavizar-se enquanto ela ouvia a promessa de renovação contida nas
notas do fauno. Deixando cair o cajado florido, Madame Corvo cobriu o rosto com
as mangas pretas do vestido e chorou lágrimas doces que viraram gotas de
orvalho no chão.
O fauno sorriu, deu
meia-volta e continuou. Porém, quando a noite finalmente caiu como um manto de
veludo cravejado de olhos frios, ele chegou à Garganta do Medo, onde morava o
Espectro sem Face, uma criatura feita de pura ausência que sugava a cor de tudo
o que tocava. O espectro deslizou na sua direção como uma sombra sem lua,
gelando o sangue nas veias de Dust.
Sem espada, sem ferro,
sem proteção física alguma, o fauno olhou nos olhos vazios da escuridão e
entoou seu canto mais forte, puro e corajoso:
Sombra que erras sem nome e sem face,
O fogo da vida não há quem desfaça,
Pois mesmo no escuro mais fundo e sem fim,
A luz que me guia reside em mim.
A canção ecoou pelos
desfiladeiros como uma estrela que se acende no abismo. O espectro estremeceu,
incapaz de suportar a beleza daquela verdade cantada, e desfez-se em uma nuvem
de fumaça cinzenta que o vento espalhou pelos campos.
Dust caminhou de volta
para casa sob a luz pálida da lua minguante, com os cascos leves e o coração
cheio de histórias para contar aos grilos. Ao cruzar novamente a pesada porta
de carvalho de sua toca, trancando a noite lá fora, ele tirou o colete,
suspirou aliviado por estar a salvo e murmurou para si mesmo, balançando a
cabeça com um sorriso travesso:
— Quando for sair da
toca da caverna, lembre-se bem... leve sua espada.