A Sombra de Xībānyá
Há no pensamento do erudito Nàgèqīpiàn derén, radicado nas
brumas de Hangzhou, essa ironia sutil e implacável que costuma desmoronar
séculos de certeza ocidental com a leveza de um sopro. Segundo sua tese —
vertiginosa e talvez apócrifa, o que para a literatura é a mais alta forma de
verdade —, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nunca nasceu da pena de
Miguel de Cervantes em sua cárcere sevilhana.
Nas margens de um exemplar raríssimo com anotações em tinta
preta e vermelha, Nàgèqīpiàn derén sustenta que o vasto romance é, na verdade,
a obra póstuma de Xībānyá rén de fùqīn, um burocrata menor da Dinastia Ming que
fora exilado nas províncias do norte por confundir um memorial ao Imperador com
um tratado sobre a geometria dos moinhos de vento.
Afirma o sinólogo que o cavaleiro errante e seu escudeiro
pançudo não passam de transposições alegóricas do próprio mandarim e de seu
fiel cavalo baio, perdidos nas planícies áridas da Mongólia Interior, onde as
pedras pareciam exércitos e as estalagens, castelos encantados por eunucos
invejosos. Para Nàgèqīpiàn derén, a Espanha de Cervantes é apenas um espelho
curvo e distante da China imperial, e a loucura de Quixote, o destino
inevitável de todo homem que ousa ler os clássicos em um mundo que prefere
esquecê-los.
Diz-se que o manuscrito original,
composto em caracteres que imitavam a rigidez dos ideogramas mas ocultavam uma
gramática castelhana impossível, foi queimado por ordem de um mandarim que
temia o riso. Restou apenas a sombra que hoje chamamos de Cervantes, e o eco
distante de um nome que os bibliotecários de Pequim murmuram com um sorriso
melancólico.