quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O vento no luar

 brilha         seu

corpo

de estrelas         e folhas.

O gato da bruxa brasileira

                 Houve um tempo, nas brenhas fundas onde o sertão brasileiro encontra a floresta encantada, em que os animais não falavam apenas por feitiço, mas porque tinham mais o que dizer do que os próprios donos. Nessa época vivia dona Jandira, uma bruxa de rezas fortes cujos cabelos brancos pareciam nuvens de tempestade e cujas panelas cheias de tucupi guardavam segredos que nenhum caldeirão de Hogwarts ousaria ferver. O orgulho de Jandira não era sua varinha de aroeira, mas sim seu gato, um bichano malhado de nome Caramujo. Caramujo não era um gato comum. Ele não tinha asas de fada, nem olhos que brilhavam no escuro por causa de poções, mas possuía um pelo dourado como sol de meio-dia e um cinismo capaz de azedar o leite a dez passos de distância. Dizia-se na região que Caramujo era, na verdade, um currupio enfeitiçado, ou talvez um espírito da mata que perdera a hora de voltar para casa. O fato é que o gato detestava feitiçaria barata. Quando Jandira tentava usar feitiços de limpeza rápida na casa, Caramujo escondia a vassoura atrás da porta. Quando ela tentava preparar um chá de sumiço, o gato derrubava a erva no fogo só para ver a fumaça ficar verde e assustar o carteiro. Numa noite em que a lua parecia uma fatia de melancia murcha no céu, a maldade rondou a tapera. Veio o Anhangá das Secas, um espírito faminto por feitiços alheios, arrastando garras de carvão e soprando um vento que ressecava até a alma dos poços. Ele bateu à porta de Jandira exigindo que ela lhe entregasse o livro de rezas mais antigo da família, sob a ameaça de transformar a caatinga inteira em pedra salgada. Jandira, que já passara dos cem anos e tinha reumatismo nos joelhos, tremeu. Sua varinha estava no fundo do baú, debaixo de pilhas de panos de prato bordados.

        Foi então que Caramujo entrou em cena. O gato não fugiu, nem guinchou como um gatinho assustado. Ele arqueou as costas de um jeito tão exagerado que parecia um ponto de interrogação feito de puro desaforo. Deu três passos firmes em direção à fresta da porta onde o monstro espreitava, abriu a boca e emitiu um miado. Não era um miado comum. Era o ronco combinado de sete onças pintadas, o estalar de galhos secos sob o passo de uma anta gigante e o eco de uma trovoada de verão. O Anhangá, que estava acostumado a aterrorizar bruxos arrogantes com fórmulas complexas, recuou espantado. Ele nunca havia visto uma criatura que emanasse tanta marra sem precisar de um único encantamento verbal. Caramujo deu mais um passo, balançou o rabo com desdém e encarou o espírito com seus olhos dourados, que pareciam dizer: "Aqui não, meu filho!".

            Derrotado pela pura falta de respeito do felino e pela certeza de que mexer com um gato brasileiro é pedir para ter o azar dobrado, o Anhangá desmanchou-se em uma nuvem de poeira e sumiu rumo ao horizonte. Dona Jandira respirou fundo, pegou o gato no colo e afagou-lhe as orelhas. Caramujo ronronou baixinho, aceitando a homenagem como quem cumpre apenas a sua obrigação diária. E desde então, os moradores do sertão aprenderam que, enquanto houver uma bruxa sábia e um gato malhado à sombra da varanda, nenhuma assombração do mundo terá coragem de estragar a tarde de café com bolo de fubá.

O bruxo e a biciclets

             Houve um tempo, nas neblinas úmidas de Yorkshire, em que a magia e o metal comum mantinham uma trégua silenciosa e desconfiada. Os bruxos daquela região viviam recolhidos em suas chalés de telhados de musgo, olhando com desprezo divertido para as engenhocas grosseiras que os trouxas inventavam para se locomover.

Entre eles vivia Barnaby Gasket, um bruxo de barbas tão longas que precisava amarrá-las com fitas de veludo para não tropeçar nelas ao preparar poções. Barnaby era um homem de sabedoria antiga e paciência curta. Ele desprezava qualquer coisa que exigisse suor físico quando um simples Accio ou uma vassoura enfeitiçada podiam resolver o problema.

Numa tarde de outono, ao retornar do vilarejo trouxa de Little Snoring com uma cesta de nabos encantados, Barnaby encontrou algo abandonado à beira da cerca de sua propriedade. Era um emaranhado de tubos de ferro enferrujados, duas rodas finas com raios de arame que tilintavam ao vento, e um selim de couro rachado. Era uma bicicleta de trouxa, modelo 1892, deixada para trás por um carteiro cansado.

Barnaby aproximou-se com a varinha em punho, farejando o ar como um testrálio diante de uma carcaça desconhecida.

— Uma tolice mecânica — murmurou ele, cutucando o pedal com a ponta da bota. — Sem asas, sem runas de levitação, sem um pingo de essência de mandrágora. Apenas graxa e metal sem rumo.

            Mas a curiosidade, essa falha que acomete tanto os tolos quanto os grandes arquimagos, falou mais alto. Barnaby decidiu que desmancharia a traquitana para usar as engrenagens em seus caldeirões. Montou a bicicleta de qualquer maneira, equilibrando-a precariamente, e apontou a varinha para a corrente, pretendendo enfeitiçá-la para que flutuasse até seu laboratório.

Porém, um espirro intempestivo — causado por um pólen alérgico que flutuava dos arbustos — fez com que sua varinha espirrasse faíscas rubras diretamente sobre o selim.

A bicicleta não flutuou. Ela estremeceu. Um som metálico, agudo e estridente ecoou pela campina, como o ganido de um pelúcio zangado. As rodas giraram sozinhas com uma velocidade furiosa, e o guidão saltou nas mãos de Barnaby, torcendo-se como uma cobra assustada. Antes que o bruxo pudesse proferir um contra-feitiço, a engenhoca disparou ladeira abaixo, levando o velho bruxo agarrado a ela como um carrapato em um hipogrifo desgovernado.

— Parar! — gritou Barnaby, o vento arrancando as fitas de sua barba. — Imobilulus! Arresto Momentum!

        Os feitiços saltavam da varinha, mas a bicicleta, infundida com a energia caótica da magia acidental e a obstinação mecânica dos trouxas, parecia imune à alta magia. Ela não obedecia às leis da física nem às regras da feitiçaria. Subiu morros íngremes sem perder o fôlego, cruzou riachos saltando de pedra em pedra como um sapo de chumbo, e ziguezagueou por entre o rebanho de ovelhas mágicas de um vizinho, que espalharam lã prateada por todo o campo.

Enquanto voava pelo ar em curvas impossíveis, Barnaby percebeu algo extraordinário. A vassoura exigia foco mental, equilíbrio refinado e uma certa graça aérea que ele nunca tivera. Mas a bicicleta... a bicicleta exigia ritmo. Exigia que ele sincronizasse o balanço de suas pernas envelhecidas com o girar implacável das rodas.

Sem perceber, o bruxo começou a rir. Uma risada rouca e estrondosa que há décadas não escapava de seu peito. Esqueceu a dignidade de sua túnica rasgada e o medo de se espatifar contra um carvalho centenário. Ele impulsionou os pés nos pedais de ferro, sentindo a queimação nas articulações, uma dor perfeitamente humana e terrivelmente viva que nenhuma poção de cura conseguia imitar.

        Após dar sete voltas completas em torno do monte mais alto de Yorkshire, a bicicleta finalmente desacelerou por si mesma, parando exatamente no mesmo lugar onde havia sido encontrada, diante da cerca de Barnaby.

O bruxo desceu cambaleando, as pernas trêmulas, o chapéu pontudo torto na orelha e o rosto corado. A corrente fumegava levemente, e os pneus estavam gastos, mas a engenhoca repousava em silêncio, como se nada tivesse acontecido.

        Barnaby Gasket passou os dias seguintes trancado em sua oficina. Não para desmontar a bicicleta, mas para estudá-la. Diz a lenda que ele nunca mais voltou a usar sua vassoura para pequenas viagens, e que, nas noites de lua cheia, os moradores de Little Snoring podiam ver a silhueta de um velho bruxo de barbas amarradas pedalando furiosamente pelos campos, rindo para as estrelas, tendo descoberto que a verdadeira magia, às vezes, precisa apenas de um empurrãozinho humano

O Bruxo e o Burro

 Era uma vez, na rua Beco, em Paris, um bruxo chamado Aristide que não sabia fazer feitiçaria nenhuma, mas tinha um diploma em filosofia barata e um burro cinzento que havia lido a Bíblia inteira só para poder discutir com o dono.

— Aristide — disse o burro, balançando as orelhas compridas —, você insiste em tentar transformar este tijolo em ouro, mas esquece que o ouro é uma invenção de banqueiros sem imaginação. O verdadeiro mistério está no feno.

O bruxo franziu a testa, ajeitou a túnica de estopa que fedia a poeira e respondeu:

— Cale a boca, animal! Você só pensa em capim porque seu povo nunca soube lidar com a metafísica da transcendência!

— Meu povo? — retrucou o quadrúpede, cruzando as patas dianteiras com um ar de superioridade acadêmica. — Sou um burro universal. Não tenho pátria, não tenho Torá, não tenho dogma. Apenas mastigo e raciocino, duas atividades que você abomina em prol da sua pequena teologia de calçada.

  Nesse exato momento, bateu à porta uma velha bruxa caolha, vestida com trapos pretos e carregando um cesto cheio de maçãs podres. Era a vizinha do terceiro andar, especializada em pragas domésticas e panfletos conspiratórios.

— Bom dia, Aristide! Trago novidades terríveis — anunciou ela, sentando-se sem ser convidada. — Descobri que o padeiro da esquina é descendente de um clã milenar de gigantes sumérios que controlam o preço da farinha através de redes cabalísticas invisíveis!

— Eu sabia! — gritou o bruxo, dando um salto que derrubou sua varinha de condão feita de cabo de vassoura. — Tudo está conectado! Os sumérios, os profetas, o sistema financeiro internacional e o fato de que meu café com leite sempre vem frio! Precisamos escrever um manifesto de setecentas páginas imediatamente!

O burro soltou um suspiro profundo, daqueles que fazem tremer as paredes de gesso podre, e abanou o rabo para afastar uma mosca teimosa.

— Vocês dois sofrem da mesma doença — murmurou o animal, fechando os olhos com tédio. — Inventam inimigos colossais porque têm medo do vazio do próprio cérebro. O bruxo culpa os deuses antigos e os escribas; a bruxa culpa o padeiro e a geometria sagrada. No fim das contas, nenhum de vocês sabe fazer um feitiço decente para espantar as moscas, mas adoram discursar sobre a ordem cósmica.

Aristide olhou para o burro, depois para a bruxa caolha, e os dois concordaram num ponto raro:

— Cale a boca, burro insolente! Você não entende nada de geopolítica mística!

    E o burro, bocejando, voltou a mastigar o capim, pensando consigo mesmo que, entre deuses, bruxos e profetas, o único ser realmente lúcido em Paris era aquele que contentava-se em carregar sacas de batatas sem precisar explicar a origem do universo.

A lenda do Primeiro e Nefastus

 

            Nas altas eras antes de o tempo contar os dias pelos ciclos do sol, nos salões incriados onde a luz tece o próprio tecido do ser, habitava aquele a quem os antigos chamavam de o Primeiro. Seu trono era forjado do mais puro ouro que jamais conheceu escória, e sobre sua fronte repousava uma coroa de fogo reluzente, viva e inextinguível. Em suas mãos, que detinham o peso e a medida dos mundos, ele guardava uma espada de chamas azuis, cortante como a verdade, e um escudo de prata polida onde dormiam cinco estrelas imortais.

            Na língua dos elfos, que guarda o eco dos primeiros pensamentos, ele era nomeado apenas como o Outro; pois sua majestade era vasta demais para caber nos nomes comuns, e o pavor reverente impedia que seus lábios pronunciassem sua verdadeira designação. Ele era o artífice, o Senhor da Chama Imperecível, aquele cuja vontade gerou a dança dos planetas e a tapeçaria das constelações que pontilham a vastidão da noite.

            Mas a harmonia da criação jamais esteve isolada da sombra. Nas profundezas onde o silêncio     devora as formas, habitava seu irmão, Nefastus — um espírito de terror incomensurável, cuja essência se enroscava na penumbra em uma imensa forma de aranha, coroada por uma face humana de fria e implacável malevolência. Entre os dois estendia-se um abismo intransponível de propósitos. Enquanto o Primeiro desejava que o ser florescesse e cantasse em louvor à luz, Nefastus buscava desfazer os fios, corromper a tapeçaria e arrastar o cosmos de volta à estéril geometria do nada. Houve incontáveis batalhas entre a espada azul e as garras do vazio. O Primeiro, em sua longanimidade, tentou por eras erguer barreiras contra o ódio de seu irmão. Contudo, em uma hora de profunda e terrível reviravolta, a traição e a astúcia de Nefastus prevaleceram, lançando o criador das estrelas nas profundezas vertiginosas do Poço do Vazio.

                Apesar da queda, o espírito do Outro não conheceu a morte, pois o que nasce da chama pura não pode ser extinto, apenas ocultado. E das profundezas escuras, ergueu-se novamente a promessa da aurora, enquanto Nefastus, preso à sua própria fome insaciável, jurava vingança eterna, sabendo que, enquanto houvesse uma única estrela a brilhar no céu, o seu domínio estaria incompleto.

 

Nas altas torres onde a luz habita

Nas altas torres onde a luz habita,

Reina o Primeiro, cuja glória é infinita.

De ouro é seu trono, de chamas sua coroa,

E a sua mão o fogo azul entoa.

Com o escudo de prata e cinco estrelas puras,

Ele teceu do cosmo as formosuras.

Os elfos, temerosos da grandeza,

Chamavam-no "O Outro", guardando a nobreza

Do nome sagrado que a língua não ousa,

Pois a sua força é vasta e misteriosa.


Mas na penumbra onde o abismo se estende,

O irmão sombrio e terrível acende

O ódio profundo que a mente consome:

Nefastus, a aranha de humano nome.

Do vazio frio, onde o nada impera,

Ele ataca a obra que o Primeiro gera.

Planetas e sóis, na dança criada,

Sofrem a ira da besta alada.


Ao fundo do poço o Arcano foi levado,

Mas jura vingança o irmão revoltado.

A luz e a treva em eterno combate,

Até que o tempo o ciclo desate,

E a graça do alto desça e encerre

A antiga dor desta infinda guerra.




colagem cubista

 nos lirios

nos tons

a tinta

a tela só