trans-migração
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( i ) ( n ) ( f ) ( i ) ( n ) ( i ) ( t ) ( a )
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© Gabriel de Ataide Lima. Todos os direitos reservados.
trans-migração
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VELHA
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[erótico
mariposas que gemem
sob a luz dos carros
quando diriges melhor
elas quando lhe lambem
o falo
oh mariposas branquinhas
que gemem muito
sob as luzes dos carros
...]
Falar a língua de todos
Unir o camponês russo ao filósofo chinês
Substituir a guerra pela matemática da paz.
Quando o soldado paulista voltou da Guerra de Canudos, ninguém percebeu de imediato que algo nele tinha quebrado. Por fora, continuava o mesmo homem magro, de bigode ralo e postura orgulhosa, como se ainda marchasse dentro de um uniforme invisível.
Mas por dentro, carregava um silêncio cheio de vozes.
Ele não falava sobre o que tinha visto no sertão. Não falava das casas queimadas, das mulheres correndo com crianças no colo, dos corpos pequenos demais para serem chamados de inimigos. O que mais o perseguia não era o barulho dos tiros, mas o silêncio depois deles — aquele silêncio seco, pesado, que parecia dizer que nada daquilo tinha qualquer sentido.
Às vezes, à noite, ele sentia gosto de poeira na boca, mesmo estando longe do sertão.
E acordava com a impressão de que ainda estava pisando sobre ossos.
Quando chegou em casa, encontrou a mulher sentada à mesa com outro homem. Não havia escândalo, nem gritos. Os dois conversavam baixo, como se já esperassem por ele.
O soldado ficou parado na porta por muito tempo.
Pensou em matá-la.
Não como impulso — mas como uma ideia fria, lógica, quase administrativa, como se fosse apenas mais um gesto inevitável do mundo.
Mas então percebeu algo estranho: não sentia raiva.
Sentia apenas cansaço.
Olhou para os dois e disse, com uma calma que assustou mais do que qualquer fúria:
— Eu vi gente morrer por causa de palavras que ninguém entendia. Honra. Pátria. Fé. Agora volto e descubro que casamento também é uma dessas palavras.
A mulher chorou. O outro homem tentou falar, mas não encontrou voz.
O soldado continuou:
— Talvez tudo isso seja apenas um acordo inventado por pessoas com medo de ficarem sozinhas.
Ele ficou pensando por um momento, como se escutasse alguma coisa distante.
— E no fim, morremos do mesmo jeito.
Então pegou apenas um chapéu e saiu.
Sem brigar. Sem olhar para trás.
Vagou por meses. Trabalhava onde podia, dormia pouco, falava menos ainda. Às vezes sentia que sua vida tinha se tornado um sonho mal contado, daqueles em que os acontecimentos não têm ligação entre si.
Um dia decidiu ir para Rio de Janeiro.
Não sabia exatamente por quê. Apenas sentiu que precisava ir para um lugar onde o mar existisse — porque o mar, pensava, era a única coisa grande o suficiente para engolir as lembranças.
Na véspera da viagem, uma cigana o abordou na rua.
Ela não pediu dinheiro. Não pediu nada.
Apenas segurou sua mão e disse:
— Você carrega mortos nos olhos.
Ele tentou puxar a mão, mas ela apertou mais forte.
— E ainda vai carregar mais. Há um vento estranho soprando no sertão. Uma revolta vai nascer em um lugar chamado Princesa. Sangue de novo. Sempre sangue.
Ele não respondeu.
Mas, pela primeira vez desde a guerra, sentiu medo — não do futuro, mas da repetição.
A cigana soltou sua mão e sorriu, como quem conta uma piada triste.
— A vida não tem sentido, soldado. Mas insiste em continuar.
Na manhã seguinte, ele caminhava orgulhoso pela rua, levando sua pequena mala, convencido de que finalmente estava começando uma nova vida.
Foi então que sentiu o impacto.
Um tiro pelas costas.
Ele caiu sem entender.
Enquanto o mundo escurecia, teve uma última sensação estranha: não dor, nem revolta — apenas a impressão de que tudo aquilo era absurdamente familiar.
Como se estivesse voltando, outra vez, para a mesma poeira do sertão.
E, por um instante antes do fim, pensou:
Talvez a vida seja só isso — um caminho que sempre retorna ao mesmo vazio, não importa para onde a gente fuja.
A chuva começou antes do amanhecer e não parou. Não era uma tempestade violenta, mas uma persistência — uma queda contínua, fina, como se o céu estivesse cansado e, em vez de gritar, tivesse decidido apenas desistir lentamente.
O pintor ficou sentado diante da tela em branco.
Durante horas.
O ateliê cheirava a óleo, madeira úmida e silêncio. A água escorria pela janela em trilhas irregulares, distorcendo a cidade lá fora, como se o mundo estivesse sendo apagado.
Ele tentou segurar o pincel.
Mas sua mão não se movia.
Sentia, com uma clareza quase cruel, que algo dentro dele havia terminado. Não era apenas falta de inspiração — era como se o impulso fundamental que o ligava à pintura tivesse sido retirado, deixando apenas uma forma vazia.
Pensou:
Talvez minha vida tenha sido só isso — um período provisório entre duas ausências.
A ideia não veio como drama, mas como constatação. E essa calma o assustou mais do que qualquer desespero.
Ele lembrou do tempo em que pintar era inevitável, como respirar. Quando cores surgiam dentro dele antes mesmo que olhasse para o mundo. Agora, porém, tudo parecia distante, como uma memória que não lhe pertencia mais.
A chuva continuava.
Ele percebeu que estava esperando algo — não sabia o quê. Talvez um sinal externo, algo que justificasse continuar.
Mas nada acontecia.
Até que, quase sem notar, a luz mudou.
Não foi súbito. Foi um deslocamento gradual. O cinza da janela começou a clarear de maneira estranha, não como quando o sol simplesmente aparece, mas como se estivesse tentando atravessar algo muito espesso.
Ele se levantou devagar.
Por trás das nuvens, o sol não surgia como forma — não havia disco, nem brilho direto. Era apenas uma difusão luminosa, um campo de claridade irregular, que fazia as gotas na vidraça brilharem em camadas.
E, naquele instante, ele viu algo que nunca tinha visto:
A chuva não era apenas queda.
Era também luz.
Cada fio de água carregava um reflexo diferente, como se milhares de linhas invisíveis estivessem ligando o céu à terra, não em tristeza, mas em uma espécie de insistência silenciosa.
Sentiu o peito apertar.
Não de alegria.
Mas de reconhecimento.
Como se compreendesse, finalmente, que o vazio que o paralisava não era ausência — era apenas um lugar ainda não nomeado.
Ele tentou respirar fundo.
Não conseguiu.
As lágrimas vieram antes.
Ele chorou ali mesmo, diante da janela, sem soluços, apenas deixando a água escorrer pelo rosto, misturando-se à luz que atravessava a chuva.
Atrás dele, a tela continuava em branco.
Mas, pela primeira vez naquele dia, o branco já não parecia o fim.
Ele saiu para caminhar porque não conseguia escrever.
A página em branco sobre a mesa parecia observá-lo com uma espécie de reprovação silenciosa, como se dissesse: você não tem nada verdadeiro a dizer.
Era noite em Campinas, e o ar carregava aquele cheiro indefinido de poeira, gasolina e árvores cansadas. O poeta caminhava sem destino, pensando que talvez a literatura fosse apenas uma tentativa elegante de organizar a solidão.
Foi então que a viu.
Ela estava sob a luz de um poste, imóvel, como se tivesse sido colocada ali por algum erro do mundo. Era bela de um modo inesperado — não frágil, mas firme, com um olhar que parecia atravessar as pessoas antes mesmo que elas percebessem.
— Você parece perdido — ela disse, com um sorriso leve.
Ele respondeu algo confuso. Disse que pensava em escrever um conto, mas não sabia sobre o quê. Disse que às vezes achava que sua vida era pequena demais para virar literatura.
Ela riu, não com deboche, mas como quem conhece uma verdade antiga.
— A vida nunca é pequena — disse. — Só é mal escutada.
Então, sem aviso, ela se aproximou e o beijou.
Não foi um beijo longo. Foi rápido, quente, inesperado — como um pensamento que surge antes de desaparecer.
Ele ficou parado depois, sentindo o coração bater com uma estranha calma, como se algo dentro dele tivesse sido reposicionado.
— Escreva sobre isso — ela disse. — Sobre o momento em que você percebe que o mundo é maior do que o seu medo.
E foi embora caminhando devagar, dissolvendo-se na noite como uma lembrança que ainda não existe.
O poeta voltou para casa com uma sensação rara: a de que sua vida, por um instante, havia tocado algo verdadeiro.
Sentou-se diante da página em branco.
E, antes de começar a escrever, teve um pensamento súbito, quase infantil:
Que um dia ganharia o Nobel.
Não por fama. Nem por glória.
Mas porque, naquele momento, acreditava que escrever era apenas isto —
tentar preservar, com palavras, um beijo inesperado no meio da noite.
Quando acordou, a manhã já entrava pela janela.
A página continuava em branco.
E ele não sabia dizer se tinha realmente saído para caminhar…
ou se tudo havia sido apenas um sonho que ainda não terminara.