terça-feira, 14 de julho de 2026

Todas as tragédias da humanidade são escritas pela própria humanidade.

     Ao observar a vida, a primeira lição que aprendemos é que a monstruosidade não reside no sobrenatural, nem no acaso, mas na própria argila humana. Somos nós, com nossas mãos e mentes, que construímos os instrumentos de nossa própria aniquilação.

     A história, em sua maioria, não é um drama escrito por deuses distantes, mas um inventário meticuloso que nós mesmos redigimos, dia após dia, escolha após escolha. A fome, o frio, a humilhação, o gás; nada disso é obra de um destino cego. São palavras escritas com a tinta da indiferença, da ambição e da adesão silenciosa ao mecanismo do mal.

  Não há inocentes na tragédia humana, exceto aqueles que não a testemunharam por terem sido suas primeiras vítimas. Aquele que constrói o forno, o que o alimenta, o que olha para o lado e o que cala: todos, em graus diversos, são coautores do mesmo capítulo sombrio. A humanidade é, a um só tempo, o carrasco, a vítima e o cronista de sua própria queda. E é talvez essa a nossa maldição mais terrível: saber que a pena que escreve a tragédia é segurada pela mesma mão que deveria construir a salvação.

Kaddish

 Na neve

a mesa

o calor do corpo

nossos corpos

em beijos eróticos

Jerusalém

do fogo

o fogo.

De madrugada claridade

 para a lua

Noite

A porta secreta

 a porta

se entrelaça     em silêncio

nuvens     brancas

     de amor 

sol                 girassol

Dante ao longe vê Beatrix

 Longe do seu

 corpo nu,

 madeira negra 

queimada,                 paraíso.

Despedida

 Navios fantasmas

ao longe

acenam para

o mar azul e branco

Não houve sim que eu dissesse

 O leito                uma pedra de ar.

Deitei-me no teu nome,

nessa extensão de sombra

onde o silêncio ganha peso de sílex.


Ali,

o testemunho é uma língua de fogo

que brota entre nós:

eu morri a tua morte,


vivi a tua vida,

numa respiração de cinza

que o dia não conhece.


Nada nos resta,

senão este ser-conosco:

um morrer-viver

nas margens do que não tem nome.