sábado, 11 de julho de 2026

ONDE SE ENCONTRAM OS RUSSOS, ADEUS AMOR, SOU UM GLORY HOLE


O jornal sangra a seda do czar cortada em fatias de

sílaba de botas

o telefone é uma couve-flor apodrecendo no gelo da Sibéria

tic-tac o poema é uma cavidade na parede de concreto

o orifício da história

onde o ditador sussurra números de sapatos

e o amor é uma preposição gasta

pela umidade da censura.


Recorte o relâmpago:

Pasternak + cinza + o som de um trinco + adeus.


O buraco na parede é a única métrica possível

neste século de ferro e vírgulas inúteis

uma fresta

um olho

um nada

onde se esconde a luz que não pode dizer o nome

do pai

do poeta

do erro.


A lógica caiu da mesa como uma criança de vidro

o jornal está picado

o silêncio é a nossa melhor rima

o buraco é a boca de um deus que se esqueceu de falar.

Deixe-me ir, desista de mim

 Deixe-me ir, desista de mim

Vivemos sem sentir a terra sob nossos pés...

Novos sentimentos despertam

Para nomeá-los todos... Para lutar com terror diante dos inimigos...

 De alguma forma... Até que Apolo exige do poeta 

que componha um novo verso

A conversa é basicamente absurda,

e estamos prontos para realizar o milagre do perdão

De um verso na gaveta

 Um mero capricho, ou asas de corvo 

numa faca, veja só, ele é um gênio, não é?


 Os beijos queimam, um milagre.

atmosfera especial

 Quem trancou a luz naquela janela?


Ah, o dia chegou, chegou como uma flor,

uma onça dourada no parapeito da janela

da humanidade.


Você ouve como é lindo?


É o som do mar, Homero e Pasternak

à minha porta, e eu, de

calças russas.


Mas devemos parar de escrever poemas por causa disso?


Não, a neve não machuca ninguém,

e o calor nos faz beijar mais.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Paisagem

 O mar

Montanhas

Horizontes

Poente

 Lírio do amor,          um


 beijo que passou

Sobre os Objetos do Medo: Fragmentos Filosóficos

I

Vivemos numa era de modernidade fluida, em que as certezas se confundem em constante fluxo e a memória muitas vezes se torna um fardo leve demais para a consciência coletiva. O horror não é um acidente da história, mas uma possibilidade estrutural da própria civilização. Nesse cenário, o Holocausto, que ninguém se esqueça, foi apenas uma das formas de mal infligidas aos judeus, como o foi em outras épocas e contra outros povos além dos semitas. Não foi uma anomalia no desenvolvimento da modernidade, mas a revelação de sua face mais sombria: a capacidade tecnológica de instrumentalizar a crueldade e fazer do "Outro" um objeto de aniquilação. Quando desumanizamos, abrimos a porta para a violência, permitindo que ela deixe de ser um evento isolado e, em vez disso — perigosamente — se torne uma opção dentro do espectro de nossas possibilidades históricas.


II

A modernidade líquida, em sua busca implacável pelo consumo como medida do valor humano, criou novos espaços de segregação que operam sob o disfarce da neutralidade comercial. Considere os shoppings, onde os trabalhadores são tratados como lixo por gigantescas corporações como o McDonald's, enquanto os ricos se comportam como porcos, mesmo que os pobres, além de suas possibilidades, aspirem a ser como esses porcos ricos. Nesses templos de vidro e luz artificial, a desigualdade não é apenas um fato estatístico; é uma coreografia cotidiana. O trabalhador é reduzido a uma engrenagem substituível na máquina, um apêndice da eficiência logística, enquanto o consumidor abastado exerce seu "direito" ao desprezo, protegido por uma arquitetura que separa o privilégio da miséria. O que é verdadeiramente assustador não é apenas a brutalidade da exploração, mas também o poder sedutor desse modelo: o desejo de ascensão social se torna uma armadilha na qual os oprimidos, fascinados pelo glamour do luxo, anseiam ocupar o próprio lugar que os esmaga. É o triunfo supremo da lógica consumista, que nos faz sentir o desejo ardente de nos tornarmos os algozes daqueles que, ainda ontem, compartilhavam o mesmo solo poeirento conosco.