Natureza
alugada do Brasil
e as ilhas
do mar
do comércio
da inatividade
é entediante.
Poemas Marginais
© Gabriel de Ataide Lima. Todos os direitos reservados.
sábado, 25 de julho de 2026
Natureza alugada do Brasil
Apócrifo de Baudelaire
Não tenha medo
não,
são só ruídos,
acredite,
a casa é cheia de suspiros,
assombração.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Lá no alto da montanha
para o bom Roald Dahl
Lá no alto da montanha,
Acontece uma façanha:
Não é vento, nem trovão,
É um barulho comilão!
Um barulho bem xarope,
Que não quer saber de xope,
Mas gritava no caminho:
— Quero queijo! Quero vinho!
— Um pedaço bem cheiroso,
Pra dar um eco gostoso!
Uma taça bem servida,
Pra alegrar a minha vida!
A montanha deu risada
Dessa ideia aloprada:
— Som não come e som não bebe,
Mas inventa cada uma que me mexe!
A abóbora e a raposa
No canto do mato, viçosa e feliz,
Vivia a abóbora que o mundo quis!
Tão redonda e laranja, brilhando ao luar,
Queria um amigo com quem conversar.
Apareceu a raposa, de passo macio:
"Olá, pequena abóbora, que vento e que frio!
Quer ver uma lua de doce e algodão?"
— "Sim! Vamos juntas voar no fogão?!"
Pularam tão alto, num pulo certeiro,
Voando bem longe do velho canteiro!
Subiram o espaço, deixaram a terra,
Voando por nuvens, vales e serra.
Chegaram à Lua num raio de luz,
Seguindo o caminho que a brisa conduz.
Bateram à porta, num tom de canção:
"Oi, Seu Jorge! Onde está o seu dragão?"
O bondoso Seu Jorge abriu um sorriso,
Mostrando o seu lindo e estranho paraíso.
E o dragão mascava pipoca no chão,
Brincando de roda com a abóbora e o cão... ops, com a raposa, num belo salão!
segunda-feira, 20 de julho de 2026
A Sombra de Xībānyá
A Sombra de Xībānyá
Há no pensamento do erudito Nàgèqīpiàn derén, radicado nas
brumas de Hangzhou, essa ironia sutil e implacável que costuma desmoronar
séculos de certeza ocidental com a leveza de um sopro. Segundo sua tese —
vertiginosa e talvez apócrifa, o que para a literatura é a mais alta forma de
verdade —, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nunca nasceu da pena de
Miguel de Cervantes em sua cárcere sevilhana.
Nas margens de um exemplar raríssimo com anotações em tinta
preta e vermelha, Nàgèqīpiàn derén sustenta que o vasto romance é, na verdade,
a obra póstuma de Xībānyá rén de fùqīn, um burocrata menor da Dinastia Ming que
fora exilado nas províncias do norte por confundir um memorial ao Imperador com
um tratado sobre a geometria dos moinhos de vento.
Afirma o sinólogo que o cavaleiro errante e seu escudeiro
pançudo não passam de transposições alegóricas do próprio mandarim e de seu
fiel cavalo baio, perdidos nas planícies áridas da Mongólia Interior, onde as
pedras pareciam exércitos e as estalagens, castelos encantados por eunucos
invejosos. Para Nàgèqīpiàn derén, a Espanha de Cervantes é apenas um espelho
curvo e distante da China imperial, e a loucura de Quixote, o destino
inevitável de todo homem que ousa ler os clássicos em um mundo que prefere
esquecê-los.
Diz-se que o manuscrito original,
composto em caracteres que imitavam a rigidez dos ideogramas mas ocultavam uma
gramática castelhana impossível, foi queimado por ordem de um mandarim que
temia o riso. Restou apenas a sombra que hoje chamamos de Cervantes, e o eco
distante de um nome que os bibliotecários de Pequim murmuram com um sorriso
melancólico.