A miséria da vida, a miséria da forma me assombra...
Olho as mãos, o papel, o meu próprio destino,
E vejo que tudo não passa de sombra,
De um eco que foge do eterno divino.
O verso que escrevo é um grito que pesa,
A carne que habito é um cárcere frio,
Tão pobre e mesquinha se mostra a natureza
Neste desterro de vento e de vazio.
Tanto anseio de infinito na alma cativa,
E o corpo tão frágil, tão breve e minguado!
A forma é a morte que a vida esquiva,
É o molde grosseiro de um sonho quebrado.
E fico a vagar pela noite deserta,
Com a alma aberta a um pranto sem fim,
Vendo a grande miséria que a vida encerra,
E este peso de pó que me acorrenta à terra.