quarta-feira, 25 de março de 2026

Palco de Sal

 Palco de Sal


(Recitado, com um murmúrio de mar ao fundo)

O tempo é um bicho que rói o silêncio...

E a gente, aqui, fingindo que não vê.


(Cantado, com força)

Abram-se as cortinas de veludo e vento

Onde o destino dança sem pudor

Sou atriz de mim mesma, nesse momento

Encenando o riso, disfarçando a dor.


É o teatro da vida, meu senhor!

Comédia de erros, drama de ninar

Onde a luz do refletor é o próprio sol

E o palco é esse chão, pronto pra quebrar.


(Suave, quase um sussurro)

Mas se o peito aperta e o gosto amarga

Busco na lágrima o que me dá valor

É o tempero santo que a alma carrega:

O suor do corpo, o sal do amor.


Sim, o sal do amor...

Que arde na ferida, mas preserva o coração.

Que me faz sagrada, que me faz humana

Nessa imensa e divina encenação.


(Finalizando com firmeza)

O pano desce.

A vida fica.

E o amor... ah, o amor é o que autentica.

O Brilho do Agora


Atrás das cortinas de luz


A cena se faz, se desfaz

No teatro da vida Onde o erro conduz


E o sal do amor Vem temperar a paz.

A Escada de Ar

 A Escada de Ar

Lidar com música, eu digo,

é abrir um poço de lua;

com poesia, eleva um pouco

o cavalo que flutua.


Tira a gente desse chão

de pedra, cal e castigo;

meio duro de ser vivido,

meio amargo de ser trigo.


As cordas da guitarra

são degraus de vento frio;

quem nelas põe a mão

já não morre de vazio.



A Geometria do Pranto

Chorando eu refaço,

com fios de sal e lua,

as nascentes que você secou

no meio da minha rua.

Seu silêncio foi o gesso

que parou o rio vivo;

mas meu olho é um poço

onde o mundo é fugitivo.

Bebem as ervas amargas

da água que me consome;

pois onde você fez deserto,

minha mágoa põe um nome.

A Máscara de Gesso

 A Máscara de Gesso

O mito do brasileiro,

de riso doce e amigável,

é um espelho de fumaça

sobre um chão impiedoso.

Nunca foi e nunca 

pertenceu a mim

essa luva de veludo;

eu vejo o dente da foice

no gesto mais mudo.


As escravidões históricas

dormem no sal da cozinha;

correntes de prata velha

na garganta da vizinha.

Sob o sol que tudo doura,

há um chicote de sombra;

o medo acorda cedo

e no tapete se esconde.

O Altar de Vidro...

 O Altar de Vidro

Um feitiço de tintas

mancha a tarde de canela;

o sol busca, nas sombras,

o rosto de uma donzela.


Sobre as Madalenas eternas,

o tempo deixa de ser;

no sol das laranjas ocultas,

o brilho quer se esconder.



A Lição do Meio-Dia

Um riacho de amores

passa por debaixo da mesa;

o professor de filosofia ensina

a gramática da incerteza.


Diz de coisas do sol, sal,

e dessas pedras belas:

que o saber é um cavalo morto

diante das estrelas.


Vou abusar do seu sonho,

sem medo do despertar;

com as mãos cheias de musgo

e o silêncio de luar.



A Pomar de Vênus

Nada está perdido,

nem o grito, nem o cio;

sob a luz do equador

bebe a sede do rio.


Nessas frutas ninfomaníacas

que o Brasil faz explodir,

o açúcar é uma faca

pronta para nos abrir.


Cantam polpas de veludo

e caroços de marfim;

o mundo se entrega todo

neste banquete sem fim.




O Oráculo do Pomar

A inglesa fruta disse:

— Nothing is lost.

E o vento, que é um alfaiate,

lhe deu um botão de geada.


Três vezes, a lua treme,

três vultos passam no muro;

três tigres tristes bebem

o leite do escuro.


Diz o eco na varanda:

— Nothing is lost.

Mas os tigres perdem as listras

no frio de cada poste.



A Cantiga do Abismo

O fundo do mar, eu digo,

tem cavalos de papel;

galopam ondas de vidro

sob um imenso chapéu.

Eu vi, entre as algas mudas,

as crinas de um carrossel;

eu vi as guitarras desse céu

dedilhadas pelo mel.

Seis cordas de nuvem fria

vibram na palma da mão;

o peixe vira harmonia,

o vento, uma oração.

O Beijo de Neve...

 O Beijo de Neve 

Teu sorriso de açucena

— que Mallarmé aprovaria —

é uma garça de marfim

na minha noite sombria.


Beijo eu na vida que quis,

sob o olhar de um astro morto:

teu riso é um lírio de sal

ancorado no meu porto.



O Livro das Ondas

Escrevo-te a luz do Brasil,

no que tens de belo e fundo:

uma saudade de prata

que dá a volta no mundo.


Planto o meu coração

nas tuas vinhas de sal;

teus mares guardam o segredo

de um verso sem final.



O Rebanho de Vidro

Espelhos na cidade,

olhos de metal e frio;

onde a lua se estilhaça

no fundo de um vazio.


A natureza de prédios

não conhece o jasmineiro;

nos sonhos acordados do néon,

o silêncio é prisioneiro.



Madrugada Meridional

Ao sul do equador, a lua

tem um brilho de metal;

o vento que entra pela rua

traz o cheiro do pomar.


Vou acordar no teu abraço,

sem o medo do passado;

com o frescor do teu cansaço,

beijos molhados e raspados.

O Redil de Tinta

 O Redil de Tinta

Ninguém escreve fora da vida,

nem o vento, nem a mão.

Mas a morte — touro forte —

pasta em nosso coração.


Rodeia sempre o cercado,

com chifres de lua fria;

bebe a água do ditado

e a luz da agonia.


Bokinha recita: