sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A Festança na Floresta Verde

             Na vastidão escura e verdejante, onde o musgo é macio como veludo antigo E as copas das árvores tocam o teto cinzento do céu, Baco estendeu as mesas. O deus do suco rubro, da uva e do delírio convidou os Imortais. Veio o Olimpo inteiro, menos o pai do raio. Pois Zeus dormia, pesado e surdo, em sua nuvem de chuva e tédio, Flutuando em seu próprio trono de vapor.

    Veio também a raça de cascos e peito largo, a estirpe indomável dos Centauros: O rei Haroldo, pisando firme na terra, e a rainha Betânia ao seu lado. Mas o senhor das sombras, o carcereiro do inferno, Ficou de fora. Hades, o esquecido, o irmão do silêncio frio. Da sua amargura subterrânea, ele teceu a vingança. Não com fogo comum, mas com um sopro de escuro veludo, Uma casca de fera, um espírito faminto de dentes e lua: Um terrível lobisomem, nascido do rancor, da inveja e da treva profunda.

                Ele irrompeu na clareira. A festa virou guincho e silêncio cortado. O monstro caiu sobre os cascos, rasgou os flancos, Deixando a grama verde manchada de um vermelho mais escuro que o vinho.

    Mas nas bordas da floresta, onde o frio do norte endurece a pele, Vivia Polako, o caçador de passos silenciosos. Homem de tendões de ferro, que conhecia o segredo do arco. Ele viu o horror com seus olhos cinzentos e não tremeu. Ergueu o teixo, puxou a corda até o limite do osso, E a primeira flecha cantou no ar da noite, certeira, Pregando-se no olho brilhante da besta, que uivou a própria morte.

    A fera avançou, cega e furiosa, mas Polako não recuou um palmo. Mais duas flechas. Duas no coração. Onde o metal frio encontrou o centro da maldição, O monstro desabou, desmanchando-se em fumaça e cinzas, Devolvido ao abismo de onde Hades o mandara sair.

            O silêncio voltou à floresta, pesado de admiração e luto. E os centauros, curvando suas grandes cabeças diante do homem, Lhe deram uma coroa de carvalho antigo e ouro bruto. Não mais apenas um caçador das sombras da mata, Mas coroado ali, sob as estrelas frias, Como o verdadeiro Rei dos Homens.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A Triste e Terrível Vida de Tim dos Corvos


Na grande Querafina, a cidade dos bruxos e magias,

Onde fumaça verde cobre os dias,

Vivia um garoto de olhar entristecido:

Tim dos Corvos, o infeliz esquecido.


Ele era órfão de mãe, pobre e judiado,

Pois Michele dos corvos havia tombado.

O malvado Vakir, o Necromante feroz,

Matou-a gritando em medonha voz,

Roubando o Anel dos Poderes da mão dela,

Para reinar nas terras do norte com a sua panela...

Ops, com sua maldade sem fim, bem cruel,

Transformando em trevas o mais belo céu!


E com quem morava o pequeno Tim, meu amigo?

Com um pai que era um verdadeiro perigo!

Pedro dos Corvos era o seu progenitor,

Um bruxo fedorento, bêbado e bebedor!

O dia inteiro no bar ele ficava,

Enquanto o pobre Tim na lama trabalhava.


Com botas furadas e o rosto sujo de carvão,

Tim varria o chão sem ganhar um tostão.

Seu pai chegava em casa cambaleando no feitiço,

Soltando soluços e um bafo de chouriço!

Dizia: "Trabalhe, garoto! Não fique a olhar!"

E jogava a caneca de cerveja de manteiga no ar!


Mas escute bem, meu leitor de bom grado,

Nem tudo na história está terminado.

Pois um garoto que sofre e carrega uma cruz,

Um dia há de ver uma nesga de luz.

O Anel dos Poderes ainda vai brilhar,

E o bruxo do norte vai se assustar...

Pois a ira dos corvos, quando desperta,

Deixa a maldade de Vakir bem desperta!

O pensador

 


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