melodia
do
mel do
corpo
nasce o sol
nasce o mar
salgado
e salgada
é a melodia
melodia do tempo!
do tempo que passa...
© Gabriel de Ataide Lima. Todos os direitos reservados.
melodia
do
mel do
corpo
nasce o sol
nasce o mar
salgado
e salgada
é a melodia
melodia do tempo!
do tempo que passa...
Nascem as
flores da
primavera
e o cheiro
do perfume
do sol
sobre o
sal do mar
venta as janelas
dos navios
afogados!
DIÁRIO DE TLÖN
Suplemento de Arquitetura, Espectros e Labirintos
Menina
refuta o tempo cíclico e impede furto ontológico na residência dos Álvares
BUENOS AIRES
(Via Campinas) — Na confluência inexata entre as sombras do corredor oeste
e o esquecimento absoluto, ergue-se o casarão da senhora Cassandra. Foi neste
endereço que, no crepúsculo da última quinta-feira, o fluxo linear do tempo
sofreu uma ameaça de inversão. O boletim registrado na Sociedade de Estudos
Metafísicos de Campinas relata a tentativa frustrada de um delito paradoxal: o
roubo da juventude alheia por um agente há muito falecido.
A autora da infração era Ofélia, referida nos alfarrábios locais como a
"bruxa pálida". Os registros cartoriais atestam, com a ilusória
precisão típica dos documentos cívicos, que Ofélia faleceu por asfixia mística
naquele mesmo casarão há exatas cinco décadas. Contudo, no universo das casas antigas,
a morte não é um destino, mas um erro de gramática. Ofélia não havia partido;
convertera-se em um artifício da própria arquitetura, aguardando pacientemente
nos ângulos cegos dos espelhos. Seu objetivo era geométrico e perverso:
transmutar sua estática palidez cadavérica na vitalidade de sua hospedeira, a
tia Cassandra, através de um axioma de troca equivalente.
O processo de usurpação já se iniciara quando a noite caiu. Observadores do
invisível relatam que a velhice de Cassandra migrava, gota a gota, para a superfície
do grande espelho prateado da sala de estar, enquanto a face de Ofélia,
emergindo do outro lado do azougue, recuperava o rubor de 1976. A imortalidade
e a juventude, provou o evento, são apenas uma questão de contabilidade furtiva
entre dois mundos.
O crime cósmico só não se consumou graças à intervenção
da menina Síria. Alheia à complexidade erudita dos labirintos temporais, a
criança valeu-se de uma refutação violenta e irrefutável. Munida da pesada
Enciclopédia Britânica (Volume M, Mirrors to Myths), Síria atirou o tomo contra o
cristal no exato momento em que as almas se cruzavam no meridiano do espelho.
Ao fragmentar a superfície, fragmentou o próprio tempo.
Os peritos que recolheram os cacos confirmaram que o
feitiço foi cancelado por um paradoxo: a bruxa pálida foi multiplicada e
reduzida a milhares de réplicas minúsculas e inofensivas, agora presas para
sempre nos estilhaços espalhados pelo tapete persa. Cassandra manteve suas
rugas intactas, declarando aos repórteres que a eternidade lhe parecia, afinal,
um conceito excessivamente longo e cansativo. Síria, por sua vez, retornou aos
seus cadernos de matemática, perfeitamente indiferente ao fato de ter
assassinado a morte.
CORREIO DE CAMPINAS - Caderno de
Ocorrências Cotidianas e Inexplicáveis
Prefeitura suspende buscas por bípede felino; Zoonoses
alega falta de formulários para entidades cósmicas
CAMPINAS, SP
—Na madrugada desta terça-feira, a Guarda Municipal encerrou oficialmente o
inquérito sobre o chamado "Gatohomem do Largo do Rosário". Segundo o
boletim de ocorrência, preenchido com caligrafia trêmula e rasurado três vezes
pelo oficial de plantão, as buscas foram interrompidas por absoluta inadequação
burocrática: o sistema municipal não possui protocolo para a captura de
abominações indescritíveis.
As aparições começaram na
última sexta-feira. Diversos transeuntes relataram a presença de um felino de
dois metros de altura, caminhando ereto sobre as patas traseiras pelas calçadas
de paralelepípedo do centro. A criatura, descrita como portadora de uma pelagem
negra que parecia absorver a luz dos postes e olhos amarelos que refletiam a
fria e ancestral indiferença do cosmos, tem causado transtornos leves ao
comércio noturno.
O Sr. Lucrécio,
jornaleiro aposentado, foi a principal testemunha. "Ele não miou nem
rosnou", declarou o idoso, que desde então se recusa a olhar para o céu
noturno. "A besta parou ao meu lado no ponto de ônibus da Avenida
Francisco Glicério. Com as garras pingando um lodo de eras mortas, ele ajeitou
a gola de um sobretudo invisível e reclamou, em um dialeto gutural e
pré-humano, sobre a demora da linha 381."
Agentes do Departamento
de Zoonoses tentaram intervir na noite de domingo, munidos de redes padrão e
petiscos de fígado. No entanto, ao ser cercada nos fundos do Palácio da
Justiça, a criatura simplesmente rejeitou as leis da física tradicional.
Testemunhas afirmam que o monstro dobrou seu corpo humanoide em ângulos
não-euclidianos, achatando-se em uma geometria blasfema antes de escorrer, como
uma sombra espessa, para dentro das grades de um bueiro.
A Prefeitura emitiu uma
circular interna tranquilizando a população. O texto afirma que, embora a
criatura exale uma aura de loucura e desespero primordial, ela aparentemente
não é portadora do vírus da raiva. Pede-se apenas aos munícipes que mantenham
as lixeiras devidamente trancadas e evitem oferecer sardinhas a divindades
esquecidas pela razão. O caso foi arquivado na gaveta de assuntos pendentes,
aguardando um carimbo da vigilância sanitária.
A flor e as estrelas estão desabrochando,
e lá fora a chuva fria cai,
gotas, meu caro francis ponge,
se eu pudesse falar francês arcaico, eu lhe diria,
alegremente, mon ami. Sonhemos com símbolos verdadeiros,
ocultos e figurativos.
sobre a luz das agulhas
ruge o diamante nas mãos
do velho andarilho
o frio vai formando um
poema de metáforas longas,
a neve é a água gelada
por fim desce o pântano
e lá pelas névoas agitadas
uma bola de futebol desce.