━Na voz do mar
havia pessoas
e as flores
alongadas no sal.
© Gabriel de Ataide Lima. Todos os direitos reservados.
Havia, no velho, a rigidez de um monumento arrancado à força de sua terra e relutante em aceitar o pó de qualquer outro chão. Ele pertencia à estirpe dos judeus hassídicos da Hungria: barbas longas e emaranhadas, um fervor que beirava o delírio místico e a convicção absoluta de que transitava, de olhos abertos, entre o mundo dos homens e o murmúrio dos anjos. Para ele, o universo era um texto sagrado lido em voz alta, e qualquer desvio dessa partitura soava como heresia.
O nó górdio começou quando o neto — sangue do seu sangue — ousou apaixonar-se. A escolhida era uma jovem judia nascida em Gdańsk, na costa báltica, cuja respiração trazia os ventos frios da Polônia. Mas o abismo entre eles não era apenas geográfico; era uma trincheira linguística e identitária.
Enquanto a avó trazia consigo o iídiche, a língua viva, vernacular e doméstica dos guetos do Leste — o idioma dos mercados barulhentos, das panelas e das lamúrias cotidianas —, o patriarca exigia a altivez de um passado que ele próprio inventava e lapidava na memória. Por parte de mãe, o avô carregava a estirpe sefardita, mas o bisavô encarnava o tudesco irredutível: bruto, visceral e indomado como um animal selvagem acoado na toca.
A antipatia do velho por ela não era gratuita; fundava-se na mais pura soberba mítica. Ele a desprezava porque ela falava apenas iídiche, ignorando solenemente a velha língua nobre dos judeus da Espanha — o ladino ancestral —, da qual ele, em seus delírios de nobreza exilada, jurava ser o legítimo e único herdeiro guardião. Para o profeta selvagem da Hungria, a incapacidade dela de compreender o idioma dos antigos reis e poetas ibéricos não era uma lacuna cultural, mas uma ofensa pessoal à sua própria linhagem celestial.
A casa ruiu para dar lugar à estrada. O velho transformou-se em um nômade comercial, arrastando a família e seus fardos por estradas empoeiradas e cidades europeias que se sucediam como lâminas de um caleidoscópio indiferente. Ele viajava como um profeta menor empurrando uma carroça de quimeras, vendendo tapetes persas e kilims cujos arabescos pareciam mapas de caminhos que ele mesmo não sabia decifrar. Era um patriarca de ferro: inflexível, tirânico e certo de que sua vontade moldava o destino do mundo, enquanto a esposa e os filhos o seguiam como sombras submissas sob o peso da bagagem.
Mas a Europa começou a encolher, sufocada por um monstro de botas lustradas e discursos de ódio que avançava velozmente sobre as fronteiras. O delírio místico do velho chocou-se pela primeira vez contra a realidade implacável da História.
A primeira rota de fuga apontava para o norte e para o oeste: os Estados Unidos. No entanto, a burocracia fria e a insensibilidade dos portos norte-americanos fecharam-se como portas intransponíveis para aquela trupe de exilados sem padrinhos. Foram rejeitados. O sonho americano dissolveu-se antes de virar promessa.
Rendeu-se, então, ao imprevisto. Se os anjos de seu deserto húngaro não abriram as portas de Nova York, o destino os empurrou para o avesso do mapa, para um trópico escaldante e inimaginável: o Brasil.
Desembarcaram em João Pessoa, na Paraíba. O contraste foi uma ofensa suprema à alma do velho. Sob o sol causticante do Nordeste brasileiro, o tudesco barbado, que outrora exigia a nobreza da Espanha e conversava com seres celestes no rigor do inverno europeu, viu-se derretendo no ar abafado do litoral nordestino. Entre o verde implacável das palmeiras e a lentidão do sertão que começava logo ali, o patriarca rugia em vão, enquanto a avó continuava a resmungar em seu iídiche doméstico, indiferente à nova Babel que os cercava.
a voz do narrador━
cidades de fogo ━ou maribondos de água
━música suave do
leitor sem tédio━
━abre a tua boca━
lê o poema da━
árvore━
mesmo preso ━
em quatro
paredes━!