sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Inspiração

 ━Amanhecer

no pensamento

 a poesia da

   ━ noite ou

    ━do dia

Dinheiro e velhice e vice-versa

 Velho e mulher bonita

quanto dinheiro tem

                ela ou ele na calcinha?

Los sefarditas

 Los sefarditas partieron de la vieja Espanya,

por la mar, por la mar, oh viejas memórias:

Los sefardim exieron de la vieja Espanya,

por la mar, por la mar, o meldadas d'antiguyor;

dejaron las suenyas y la agadá en las entranyas,

sin saber a onde les truxería el sinor.

Ancho es el mar i amargo es el Fakto,

kon el cantar triste que truxeron del Rey;

andando por ondas sin ningún kontrato,

guardando el unor i la vieja ley.

Sobre os discursos brasileiros na ONU

O asfalto da praça está úmido, aquele sereno fino de fim de tarde que parece descer direto da melancolia dos jornais. Em cima da mesa do café, a xícara de um café já morno divide espaço com a manchete escancarada. O estadista do Planalto, com a gravata ligeiramente torta e o ar de quem salvaria o universo antes do almoço, franze o cenho, aponta o dedo indicador para o outro lado do mapa e decreta, em tom de quem governa a Terra Prometida: lá longe, muito longe, o mundo vai mal.

É curioso como a geopolítica tem esse dom de anestesiar a vista curta.

Enquanto o dedo riste aponta para as areias do Oriente Médio, aqui na esquina o vento traz o cheiro de esgoto a céu aberto e a visão de uma lona preta esticada sob o viaduto. No semáforo, a menina de dez anos estende a mão magra pedindo troco para comprar um pão que o governo só vê na estatística. Mas a miséria da nossa calçada parece invisível aos olhos de quem usa binóculos de alto alcance. É mais fácil cuidar da paz dos outros do que dar teto a quem dorme ao relento na praça da Sé.

Não que o sofrimento alheio não mereça lamento. O mundo é um tecido frágil, e toda dor ecoa. O problema é a estranha hierarquia da piedade que habita os gabinetes. O governante que se erguia como porta-voz da justiça global tropeça na própria porta de casa, fingindo não ver a fila do osso, o desemprego que corrói a dignidade do pai de família e a fome que morde o estômago de milhões de brasileiros.

Diz o ditado antigo que a caridade começa em casa — e a coerência, decerto, deveria seguir o mesmo endereço. É um espetáculo curioso esse do político brasileiro que veste o manto de árbitro universal, como se o Brasil fosse um oásis de perfeição de onde se pode dar lições de moral à humanidade. Ora, deixemos os judeus com seus labirintos seculares, suas dores antigas e seus desertos. Temos desertos próprios fervendo em nosso quintal, bem mais perto, onde a sede não é metafórica.

A xícara de café esfriou de vez. O garçom passa recolhendo os restos do dia. Lá fora, o semáforo fecha, o sinal vermelho brilha no asfalto molhado, e a miséria continua ali, esperando que alguém desvie os olhos do horizonte e olhe, finalmente, para o próprio umbigo.

Na voz do mar

 ━Na voz do mar

havia pessoas

e as flores

alongadas         no sal.

Palhaço

 ━aplausos━

        mas chora o

palhaço

lágrimas

                de mel branco.

A Torre de Babel Familiar

Havia, no velho, a rigidez de um monumento arrancado à força de sua terra e relutante em aceitar o pó de qualquer outro chão. Ele pertencia à estirpe dos judeus hassídicos da Hungria: barbas longas e emaranhadas, um fervor que beirava o delírio místico e a convicção absoluta de que transitava, de olhos abertos, entre o mundo dos homens e o murmúrio dos anjos. Para ele, o universo era um texto sagrado lido em voz alta, e qualquer desvio dessa partitura soava como heresia.

O nó górdio começou quando o neto — sangue do seu sangue — ousou apaixonar-se. A escolhida era uma jovem judia nascida em Gdańsk, na costa báltica, cuja respiração trazia os ventos frios da Polônia. Mas o abismo entre eles não era apenas geográfico; era uma trincheira linguística e identitária.

Enquanto a avó trazia consigo o iídiche, a língua viva, vernacular e doméstica dos guetos do Leste — o idioma dos mercados barulhentos, das panelas e das lamúrias cotidianas —, o patriarca exigia a altivez de um passado que ele próprio inventava e lapidava na memória. Por parte de mãe, o avô carregava a estirpe sefardita, mas o bisavô encarnava o tudesco irredutível: bruto, visceral e indomado como um animal selvagem acoado na toca.

A antipatia do velho por ela não era gratuita; fundava-se na mais pura soberba mítica. Ele a desprezava porque ela falava apenas iídiche, ignorando solenemente a velha língua nobre dos judeus da Espanha — o ladino ancestral —, da qual ele, em seus delírios de nobreza exilada, jurava ser o legítimo e único herdeiro guardião. Para o profeta selvagem da Hungria, a incapacidade dela de compreender o idioma dos antigos reis e poetas ibéricos não era uma lacuna cultural, mas uma ofensa pessoal à sua própria linhagem celestial.


A casa ruiu para dar lugar à estrada. O velho transformou-se em um nômade comercial, arrastando a família e seus fardos por estradas empoeiradas e cidades europeias que se sucediam como lâminas de um caleidoscópio indiferente. Ele viajava como um profeta menor empurrando uma carroça de quimeras, vendendo tapetes persas e kilims cujos arabescos pareciam mapas de caminhos que ele mesmo não sabia decifrar. Era um patriarca de ferro: inflexível, tirânico e certo de que sua vontade moldava o destino do mundo, enquanto a esposa e os filhos o seguiam como sombras submissas sob o peso da bagagem.

Mas a Europa começou a encolher, sufocada por um monstro de botas lustradas e discursos de ódio que avançava velozmente sobre as fronteiras. O delírio místico do velho chocou-se pela primeira vez contra a realidade implacável da História.

A primeira rota de fuga apontava para o norte e para o oeste: os Estados Unidos. No entanto, a burocracia fria e a insensibilidade dos portos norte-americanos fecharam-se como portas intransponíveis para aquela trupe de exilados sem padrinhos. Foram rejeitados. O sonho americano dissolveu-se antes de virar promessa.


Rendeu-se, então, ao imprevisto. Se os anjos de seu deserto húngaro não abriram as portas de Nova York, o destino os empurrou para o avesso do mapa, para um trópico escaldante e inimaginável: o Brasil.

Desembarcaram em João Pessoa, na Paraíba. O contraste foi uma ofensa suprema à alma do velho. Sob o sol causticante do Nordeste brasileiro, o tudesco barbado, que outrora exigia a nobreza da Espanha e conversava com seres celestes no rigor do inverno europeu, viu-se derretendo no ar abafado do litoral nordestino. Entre o verde implacável das palmeiras e a lentidão do sertão que começava logo ali, o patriarca rugia em vão, enquanto a avó continuava a resmungar em seu iídiche doméstico, indiferente à nova Babel que os cercava.