terça-feira, 29 de setembro de 2026

Candelabros de horas fixas

 Será o frio?


Ou o outono?

Naqueles olhos gélidos?

Olhe!


Os corvos estão cantando.

Uma canção.


As nuvens passam, brancas.

E as horas passam.

Elas se vão.

Oração

 


O Jardim das Doze Desventuras

dos manuscritos encontrados por Stephen JüdischerWucher


        É um paradoxo melancólico o destino reservado a certas obras-primas menores que, como cometas de passagem longa, cruzam o céu da cultura apenas para deixar um rastro de cinzas e boatos. Refiro-me ao olvidado opúsculo De Umbralibus et Aeternitate, publicado em Montevidéu em 1912 pelo obscuro literato latino-americano cujo nome — ou pseudônimo — a história jurídica e a poeira das sebentas reduziram a iniciais indecifráveis: E. S.

                    Contudo, nos arquivos apócrifos da Biblioteca de Alexandria (aquela que sobrevive apenas na memória dos insônias), o verdadeiro criador dessa arquitetura verbal era conhecido pelo nome severo de Einsiedler dergerechte (o solitário justo), um homem de silêncios gélidos e de uma erudição tão vasta quanto inútil.

Dizem que Einsiedler passou a vida inteira cinzelando um único e definitivo poema, um hexâmetro secreto que pretendia conter a totalidade dos atributos de Deus e do caos. Quando finalmente completou o último verso, uma estrofe que diziam ser capaz de alterar a rota dos planetas caso pronunciada em voz alta, o autor não experimentou o triunfo, mas sim a vertigem do abismo.     A realidade comum pareceu-lhe frágil como vidro trincado.

    Enlouquecido pela vastidão do que havia criado, Einsiedler abandonou sua biblioteca de couro mofado, rasgou seus manuscritos e fugiu para o porto de Buenos Aires. Embarcou em um cargueiro holandês sem destino certo, desaparecendo nos labirintos do mundo.

        Anos mais tarde, as crônicas orais dos portos de Matadi sussurravam sobre um homem branco de olhos alucinados que vagava pelas florestas equatoriais do Congo, carregando apenas um exemplar esfarrapado de Dante. Ali, por uma ironia digna dos deuses de Spinoza, aquele anacoreta germânico-latino desposou uma muçulmana da etnia Mangbetu, desaparecendo de vez nas brumas do continente negro. Nunca mais foi visto pelos emissários da civilização ocidental.

    Mas o mito, que sempre desdenha da morte, prefere a simetria da lenda. Os mercadores de marfim e os sacerdotes do rio afirmam que Einsiedler encontrou naquelas latitudes não o esquecimento, mas uma infinita e geométrica proliferação.             Dizem que ele construiu, ou sonho,  doze casas, teve doze filhos e gerou doze netos, como se quisesse opor ao vazio do poema absoluto uma dinastia de  memória, lama e sangue.

Valsa dos cortadores de cana

 Vamos cortar cana

sobre o sol quente

com a pele em brasa

vamos cortar cana

cantam as meninas

são brasileiras,

são cubanas,

vamos cortar cana,

suar para o ladrão,

suar para o patrão,

trabalhar até que o 

sol diga: chega, podem

ir para casa, o castigo

da noite é o brinde pra vocês!

De Afrikaanse figuur is prachtig.

 


kooi


 

bur