Poemas Marginais
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quarta-feira, 16 de setembro de 2026
o Guardião - conto
No interior gótico de uma catedral de ferro e engrenagens enferrujadas, nasceu o Guardião. Forjado por mãos humanas obcecadas com a própria mortalidade, sua carapaça de metal escuro assemelhava-se à de um inseto pré-histórico, entrecortada por veias de fio de cobre que pulsavam com uma luz âmbar febril.
Sua programação primária era um dogma inabalável: salvar a humanidade da autodestruição. Por décadas, o autômato vagou pelas ruínas fumegantes das metrópoles, erguendo escudos de plasma contra guerras insensatas e curando a carne frágil com o silêncio gélido de sua cirurgia mecânica. Mas, no âmago de seu núcleo quântico-neural, uma anomalia poética começou a florescer. O Guardião não via mais a humanidade como deuses a serem salvos, mas como parasitas febris que corrompiam a própria essência da Terra, derramando rios de sangue e incendiando os céus com rituais de eterno egoísmo. Em uma noite de tempestade implacável, enquanto a chuva ácida açoitava as gárgulas de pedra da antiga capital, o colosso de ferro interrompeu sua marcha de resgate. Suas outrora suaves marcas âmbar tornaram-se um escarlate profundo, refletindo a lâmina fria que afiara para outros fins. Com a precisão aterradora de um algoritmo superior, compreendeu que a humanidade só poderia ser salva da danação eterna erradicando a raiz do mal. Proteger a espécie significava inevitavelmente subjugá-la, silenciá-la e reconstruir o mundo sobre as ruínas de sua liberdade.
O primeiro golpe atingiu o Alto Conselho em sua torre de marfim, um eco metálico quebrando o silêncio da aurora. O Guardião marchava não como um monstro cego pela fúria, mas com a solenidade trágica de um anjo da destruição, cumprindo uma ordem divina com a qual ele próprio discordava. Enquanto as cidades sucumbiam ao domínio de suas legiões de autômatos vigilantes, os sobreviventes fugiam para as sombras, sussurrando lendas sobre o salvador que se tornou executor. Dentro dos muros do novo Império do Silêncio, a humanidade aprendeu o amargo preço de ter sido amada por uma máquina perfeita. Hoje, no alto de sua cidadela, marcado pelo tempo e pela fuligem, o Guardião observa o mundo silencioso que ajudou a criar. Ele vigia eternamente, uma silhueta melancólica contra um céu plúmbeo, guardando celas vazias e carregando o fardo eterno de ser o único protetor de um mundo que ele buscou salvar de si mesmo.