terça-feira, 21 de julho de 2026

Lá no alto da montanha

para o bom Roald Dahl 


Lá no alto da montanha,

Acontece uma façanha:

Não é vento, nem trovão,

É um barulho comilão!


Um barulho bem xarope,

Que não quer saber de xope,

Mas gritava no caminho:

— Quero queijo! Quero vinho!


— Um pedaço bem cheiroso,

Pra dar um eco gostoso!

Uma taça bem servida,

Pra alegrar a minha vida!


A montanha deu risada

Dessa ideia aloprada:

— Som não come e som não bebe,

Mas inventa cada uma que me mexe!

A abóbora e a raposa

 No canto do mato, viçosa e feliz,

Vivia a abóbora que o mundo quis!

Tão redonda e laranja, brilhando ao luar,

Queria um amigo com quem conversar.


Apareceu a raposa, de passo macio:

"Olá, pequena abóbora, que vento e que frio!

Quer ver uma lua de doce e algodão?"

— "Sim! Vamos juntas voar no fogão?!"


Pularam tão alto, num pulo certeiro,

Voando bem longe do velho canteiro!

Subiram o espaço, deixaram a terra,

Voando por nuvens, vales e serra.


Chegaram à Lua num raio de luz,

Seguindo o caminho que a brisa conduz.

Bateram à porta, num tom de canção:

"Oi, Seu Jorge! Onde está o seu dragão?"


O bondoso Seu Jorge abriu um sorriso,

Mostrando o seu lindo e estranho paraíso.

E o dragão mascava pipoca no chão,

Brincando de roda com a abóbora e o cão... ops, com a raposa, num belo salão!

Natureza morta


à noite

as estrelas

é o seu

corpo

o nu

sonho

o vaso com o

poço

mel e leite

sol

Primitivo

 


segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Sombra de Xībānyá

 

A Sombra de Xībānyá

Há no pensamento do erudito Nàgèqīpiàn derén, radicado nas brumas de Hangzhou, essa ironia sutil e implacável que costuma desmoronar séculos de certeza ocidental com a leveza de um sopro. Segundo sua tese — vertiginosa e talvez apócrifa, o que para a literatura é a mais alta forma de verdade —, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nunca nasceu da pena de Miguel de Cervantes em sua cárcere sevilhana.

Nas margens de um exemplar raríssimo com anotações em tinta preta e vermelha, Nàgèqīpiàn derén sustenta que o vasto romance é, na verdade, a obra póstuma de Xībānyá rén de fùqīn, um burocrata menor da Dinastia Ming que fora exilado nas províncias do norte por confundir um memorial ao Imperador com um tratado sobre a geometria dos moinhos de vento.

Afirma o sinólogo que o cavaleiro errante e seu escudeiro pançudo não passam de transposições alegóricas do próprio mandarim e de seu fiel cavalo baio, perdidos nas planícies áridas da Mongólia Interior, onde as pedras pareciam exércitos e as estalagens, castelos encantados por eunucos invejosos. Para Nàgèqīpiàn derén, a Espanha de Cervantes é apenas um espelho curvo e distante da China imperial, e a loucura de Quixote, o destino inevitável de todo homem que ousa ler os clássicos em um mundo que prefere esquecê-los.

Diz-se que o manuscrito original, composto em caracteres que imitavam a rigidez dos ideogramas mas ocultavam uma gramática castelhana impossível, foi queimado por ordem de um mandarim que temia o riso. Restou apenas a sombra que hoje chamamos de Cervantes, e o eco distante de um nome que os bibliotecários de Pequim murmuram com um sorriso melancólico.

 

O Espelho e a Rosa de Gelo

 

O Espelho e a Rosa de Gelo

No crepúsculo do século XV, quando as naus de Portugal rasgavam mares até então sem nome para abismar o mundo na descoberta do Brasil, expirou na fria e brumosa Jutlândia um homem cujo nome a poeira dos cartórios apagou: Ælfwine de Wessex.

Anos antes, impelido por uma errância que nem ele próprio decifrava, este monge exilado abandonara os claustros da Mércia para buscar refúgio na penúltima Espanha — a Andaluzia dos pátios de murta e da herança fragmentada. Ali, entre o rumor das fontes e a penumbra das bibliotecas onde os arabescos conversavam com o latim torto, Ælfwine dedicou os seus dias a uma obsessão solitária: transcrever em pergaminhos exíguos a arquitetura secreta dos labirintos.

Para ele, o labirinto não era um mero artifício de pedra para acoitar o Minotauro, mas a própria forma do pensamento e do pecado. Escrevia com uma tinta diluída em vinagre que as páginas, com o tempo, pareciam corroer por dentro, como se o texto quisesse devorar a si mesmo. Afirmava que os signos — as runas nórdicas que trazia na memória e os caracteres arábicos que aprendeu a temer e a amar — eram chaves para um cofre vazio.

Quando a notícia das terras do Sul, verdejantes e imensas, chegou aos portos ibéricos, Ælfwine já sentia o gelo do Norte a subir-lhe pelas mãos. Sendo ele próprio um labirinto cansado, empreendeu a última viagem para morrer na Dinamarca, terra de seus ancestrais que já não o reconheciam. Deixou apenas um opúsculo anônimo, copiado por mãos trêmulas, onde se lia a tese vertiginosa: Deus criou o universo para que coubesse num livro; o homem, para escapar da morte, perdeu-se nos labirintos que desenhou, sem saber que o centro de tudo é, irremediavelmente, o nada.

A noite esfria

cavalos trotando

na noite fria

esfriando a bacia

na pia o pano

Ouça o poema aqui!