sobre a luz do dia
chove
© Gabriel de Ataide Lima. Todos os direitos reservados.
Rimbaud! O meteoro, o estranho brilho,
Que no azul do infinito se treslouca;
Na chama audaz de uma febril boca,
Rasgou da lógica o estreito trilho.
Deixou o berço, o pranto, o antigo trilho,
Para encontrar, na visão que o convoca,
A essência bruta que o delírio toca,
No navio ébrio que não busca o brilho.
Poeta vidente, em descaminhos vagos,
Que fez da vida um barco em mar de espasmos,
Perdido em ritmos, em febris afagos.
Sua poesia, em lúgubres entusiasmos,
É o sol que queima em mil distintos lagos,
No fundo eterno dos abismos-chasmos.
Augusto! O visionário da matéria,
Que na podridão viu a luz da essência;
Cantou da vida a atroz e fria ausência,
Em versos de uma dor, de uma miséria.
Na lente do átomo, a alma incerta, séria,
Fez da decomposição sua eloquência;
Transformou o verme em viva transcendência,
Na escala atroz da cósmica artéria.
Mórbido arcano, alquimia do nada,
Onde o cadáver — semente do futuro! —
Se funde à terra, em chama gelada.
Ó, trovador do abismo, do obscuro,
Que na carcaça, em lúgubre jornada,
Encontrou o brilho do infinito puro!
Baudelaire, o artífice da estranha sombra,
Que fez do abismo o seu altar de luz!
Na tua pena, o vício se traduz
Em música que o espírito assombra.
Tua lírica — um espectro que desombra
O lado oculto da alma que seduz;
Pois no negror da dor que nos conduz,
A beleza, em seu luto, se alfombra.
Cidades de metal, névoas de fel,
Onde o Spleen em carícias se desata,
E o Ideal ascende em brilho de éter e mel.
Ó, rei da essência, em verso de cascata,
Que revelou, no peito desse céu,
A própria flor que da agonia brota!
Na rua fria, o vento corta o vago,
Onde a brancura, em desatino, esplende;
A carne, em curvas, o luar suspende,
Num desenhar de um luminoso afago.
O corpo — estátua! — em mármore, um amago
De nádegas que o ar, em névoa, prende;
É o vulto audaz que a noite em luz acende,
Nesse contraste, em lúbrico afago.
Formas que desafiam o frio severo,
Escultura de luz na sombra errante,
Numa exposição de um brilho etéreo.
Beleza pura, em desvario constante,
Que faz do asfalto, o seu império austero,
No espasmo vivo de um luar vibrante.
Nayane, flor de alvura, estranho lume,
Em cuja carne a luz se faz escultura,
De branca seda e rara arquitetura,
Onde o desejo em ondas se assume.
Na tua forma, o vago se resume,
Em curvas de âmbar, de pálida candura;
A boca busca, em febre, a formosura,
Nesse altar vivo, em rastro de perfume.
Chupa-se o mel, o néctar do mistério,
No gozo vago, em brilhos de ametista,
Nesta fusão de um corpo, num império.
Beijo a brancura, a essência, a conquista,
Nesta Nayane, sonho de império,
Que o meu desejo, em versos, transvista.