NAS SOMBRAS DO HOLOCAUSTO
!em memória de Nelly Sachs!
Eu vislumbrei um mundo de caos,
as portas do apocalipse hebreu rangendo
como se o universo inteiro respirasse em dor.
Os céus eram cinzas antigas,
e na terra ecoavam passos de espectros
procurando seus nomes perdidos.
Minhas lágrimas de Toráh
caíram — uma a uma —
até se tornarem Talmudes de pranto,
letras incendiadas caminhando
sobre o deserto sem fim.
Cada lágrima, um pergaminho.
Cada soluço, uma profecia quebrada.
E ali, no fulgor último da escuridão,
eu te vi.
Entre o pó dos ossos, entre a treva e o grito,
uma brasa escondida respirava.
Renasci morrendo —
morrendo mais renasci em ti,
como quem atravessa o fogo para lembrar
que ainda existe um nome que não se apaga.
Palavra DEUS!
Sussurro que se ergue das ruínas,
fagulha que insiste em permanecer
mesmo quando o vento do horror
pretende reduzir tudo ao nada.
Nas sombras do Holocausto,
teu eco se fez abrigo:
um fio de luz costurando o abismo,
uma estrela recuada mas viva,
um canto pequeno, quase silêncio,
dizendo que o impossível — ainda — respira.
E assim caminho,
carregando tua sílaba como uma chama dentro do peito,
lembrando que, mesmo onde a noite
parecia eterna,
um sopro teu
ainda germina.
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