Furei o céu —
com a testa nua dos que não temem o abismo.
A noite partiu-se em dois,
uma concha negra revelando seu miolo de estrelas.
Pedra do véu,
te encontrei no limiar onde o silêncio
tem o peso de mil séculos.
Toquei tua face áspera
como quem toca a memória mineral do mundo.
Nasci, morri e renasci
no intervalo de um sopro,
como se o tempo fosse apenas
o tremor de uma pena sobre o gelo.
E quem era ali?
Quem me fitava da fresta do impossível?
Aquele —
leu, leme, leão pardo,
pássaro jaca —
um emaranhado de nomes,
um bicho de sílabas primitivas
que guardava nos olhos
o primeiro fogo da terra.
Ele sussurrou:
“carrega a pedra, mas não o peso;
carrega o véu, mas não o medo.”
E assim caminhei,
com o céu rasgado às costas
e a pedra do véu entre as mãos,
sabendo que cada renascimento
é apenas outra forma de voltar
ao início do poema do mundo.
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