segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

ABUTRES SELVAGENS

Éramos três, quatro, talvez sete,

dependia da noite, da bebida,

da coragem que cada um carregava

como uma faca enferrujada no bolso.


Nos chamavam de abutres selvagens,

porque rondávamos as praças vazias,

os bares caindo aos pedaços,

os banheiros públicos com cheiro de derrota,

onde deixávamos nossa literatura

escrita com ponta de faca, caneta roubada,

batom barato ou carvão de cigarro.


Escrevíamos palavrões,

não por amor ao escândalo,

mas porque o país inteiro já estava

entupido de palavras limpas demais,

palavras assépticas,

palavras que não sangravam.


E nós queríamos sangue.


A cada madrugada,

um de nós entrava no banheiro da rodoviária

como um profeta embriagado,

deixando versos obscenos

nas portas quebradas das cabines.

“a pátria fede”, escrevia Jandira.

“mas eu fodo mais forte”, respondia Jonas.

E alguém completava embaixo:

“literatura ou morte”.


Os guardas nos perseguiram,

os donos de bar arrancaram nossos poemas

com esponja e água sanitária,

mas não podiam apagar

a sensação de que algo estava surgindo

por baixo da cidade,

como um animal respirando pela primeira vez.


Nós andávamos pelas ruas

com a arrogância de quem sabe

que ninguém nos lerá,

e mesmo assim escrevemos.


Éramos pobres, sujos,

filhos bastardos de Bolaño

e das vielas do Brasil,

mas cada palavrão que deixávamos no ladrilho

brilhava como uma estrela caída

sobre a madrugada.


E no fim,

talvez não tenhamos mudado nada,

talvez só o vento tenha lido nossos poemas.


Mas éramos jovens,

éramos ferozes,

éramos abutres selvagens,

e nas asas sujas que arrastávamos pela cidade

havia — juro —

uma espécie de liberdade.


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