Vêm, meu amor,
vem se deliciar no Brasil,
sussurra a praia suada às três da manhã
enquanto os coqueiros balançam como velhos poetas
que já viram impérios caírem de bêbados.
Os brasileiros são docinhos de brigadeiro,
grudentos de afeto,
derretem no calor da história,
oferecem café, sorriso,
corpo e conversa
antes mesmo de perguntar teu nome.
E tu vens, América,
com teus bolsos cheios de contratos,
teus olhos treinados em cifrões,
teu beijo medido em barris de petróleo
e bases militares.
Dizes “love”
mas pensas “interest rate”.
Deitas-te na rede do sul
com a pressa de quem vai embora amanhã,
fazes juras em inglês rápido
e acordas contando lucros
enquanto o Brasil ainda canta no chuveiro.
Ah, casal improvável!
Um quer dançar descalço no quintal do mundo,
o outro quer vender o quintal,
a música,
o chão,
e até o vento.
O Brasil te ama com excesso,
te chama de “querido”,
te oferece a chave de casa,
abre o coração como quem abre uma geladeira vazia
e diz:
“Tem pouco, mas é teu.”
E tu respondes com sanções,
manuais,
dólares duros como ossos,
ensinando como amar
sem nunca aprender a sentir.
Vêm, meu amor,
vem se deliciar no Brasil —
mas não confundas doçura com submissão,
nem brigadeiro com mercadoria.
Porque até o mais doce dos amantes
cansa de ser sobremesa
no banquete de um império faminto.
E quando o açúcar acaba,
resta a verdade:
amor não é saque,
amor não é contrato,
amor não é invasão disfarçada de abraço.
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