Nas ruas quebradas do meio-dia
celebramos sem música,
copos vazios erguidos ao nada,
um rito aprendido com a poeira.
As vitrines rezam em neon,
e os homens caminham com a cabeça baixa,
levando nos bolsos
os restos de um credo vencido.
Há um canto — não de louvor,
mas de ferrugem —
onde a alma aprende a calar
para não ouvir o próprio eco.
Celebração é isto:
a ordem vestida de ruína,
o calendário queimando datas,
a esperança mastigada lentamente.
Nos templos da pressa
os relógios pregam sermões,
e Deus aparece apenas
como um rumor entre sirenes.
Mesmo assim, algo insiste.
Sob o entulho da linguagem,
uma centelha, quase obscena,
recusa-se a morrer.
Celebramos, então,
não a salvação,
mas o intervalo —
esse instante trêmulo
entre a queda
e o pó.
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