Cenário: Uma varanda estreita em São Paulo, final de tarde, o barulho constante e abafado do trânsito. Saulo e Paula, irmãos já na meia-idade, observam o cinza da cidade.
PAULA: (Com a voz um pouco áspera, segurando uma xícara de café frio) Saulo, esse vento frio de São Paulo me enferruja a alma. Não é o vento da nossa casa.
SAULO: (Olhando para o céu que mal se distingue entre os prédios) O vento de lá traz o cheiro do rio, Paula. E o calor... O calor de Manaus grudava na pele, mas era um calor de vida, não essa frieza úmida que aqui só serve para te fazer vestir mais uma blusa.
PAULA: É isso que me mata. A gente se acostumou com o asfalto, com essa pressa que não leva a lugar nenhum. Quantos anos, Saulo? Desde que papai se foi?
SAULO: Desde o dilúvio, parece. Eu penso no Tarumã, no cheiro de açaí fresco no Mercado. Penso naqueles fins de tarde na Ponta Negra, quando o sol parecia queimar a água só para a gente ver. Lembro de mãe nos dizendo que a única coisa que não se deve esquecer é a luz do lugar onde se nasce.
PAULA: Mas você fica aqui. Eu fico aqui. Criamos raízes falsas nesse chão que não é nosso. Nossos filhos só conhecem prédio e fumaça. Digo a eles que a casa da avó era de madeira e tinha uma mangueira que dava manga o ano inteiro. Eles acham que estou inventando um conto de fadas.
SAULO: (Um sorriso triste) E talvez estejamos. Ou inventamos para nós mesmos a desculpa de ter ficado. Você tem seus filhos, Paula. A escola, a vida deles está aqui.
PAULA: E você? Você fica por quê, Saulo? A gente prometeu que voltaria. Montaria uma vendinha no Japiim, qualquer coisa... O sol nos curaria.
SAULO: (Se virando para ela, a voz mais baixa, quase um segredo) A verdade é que a gente não pode voltar, Paula. Aquele lugar... Ele só existe na memória, feito um livro que a gente não tem coragem de abrir de novo, porque sabe que o final já passou.
(O tempo avança. Meses depois, em Campinas. Paula está sozinha em seu pequeno quintal, dobrando roupas. As crianças estão na escola. O telefone toca. É uma voz distante, formal. Saulo, na véspera, fora levado por um mal súbito, um silêncio repentino. Paula desliga, os olhos secos.)
PAULA: (Para si mesma, olhando o sol pálido de Campinas) Saulo. Você não vai ver mais o rio. Não vai sentir o calor de lá.
(Ela se senta. Por um momento, a ideia de ir embora, de desfazer tudo, de pegar os meninos e a pouca herança e tentar a sorte em Manaus é uma chama viva. A chama do juramento, do calor que ele buscou a vida toda.)
(Olha ao redor: as plantas que ela cultivou, os cadernos dos filhos sobre a mesa da cozinha. A rotina pesada, mas familiar.)
PAULA: (Respirando fundo, sentindo o cheiro do amaciante nas roupas limpas) Ele morreu buscando a luz de lá. Eu... eu não posso deixar as crianças sem a minha luz aqui. Não vou.
(Ela se levanta, as mãos firmes. Manaus continua sendo um sonho de madeira e água, mas Campinas, agora, é o solo duro e real onde ela precisa enterrar o seu luto e garantir que a vida de seus filhos não seja apenas uma sombra da saudade que a consumiu. Ela decide ficar. O rio agora corria para dentro dela, silencioso e profundo.)
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