quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Mítico-Pagão: alguns versos

 O Fogo do Bardo

O poeta não escreve:
acende runas na noite,
queima palavras no carvalho antigo
até que o vento aprenda o nome do mundo.

Na colina onde os druidas dormem,
o verbo é chama azul,
e cada sílaba arde
como cervo tocado pelo relâmpago.

Não é a mão que escreve,
mas o círculo de pedras,
o lago escuro que reflete
a lua ferida dos deuses antigos.

Ele sopra cinzas ao céu,
esperando que o sopro divino
— velho como Dagda,
selvagem como o mar de Ériu —
aprenda a falar por sua boca.

Pois só quando o fogo termina
e resta o silêncio do musgo,
é que a palavra, enfim viva,
ergue-se como canto eterno
na harpa invisível do mundo.



O ventre oculto

No círculo de carvalhos, onde a turfa arde
e a harpa cala para ouvir a terra,
ergue-se o rito: tambores de bronze,
vozes antigas como impostos e decretos.
A deusa vem do ventre da colina,
coroada de musgo e juramentos.

Ela traz na mão o ferro do tempo,
lei e lâmina — pois reinar é ferir.
Os reis aprenderam com ela a dureza,
e os poetas, a língua do sacrifício.
Seu passo pesa como voto traído,
seu olho mede o preço da paz.

Do útero escuro nasce o filho,
luz breve na noite do clã.
Ela ergue o punho: o mundo exige sangue,
as bandeiras pedem um corpo.
Assim manda a história: matar
para que a roda continue.

Mas o rosto do menino se abre
como lago ao amanhecer.
Há nele o brilho dos cervos livres,
a calma que desarma exércitos.
A lâmina treme — o poder vacila —
o rito encontra o seu limite.

Então a deusa vê o futuro
não como trono, mas como campo.
Guarda o ferro na terra úmida,
beija a testa que ainda não conhece a guerra.
O povo murmura: nascer é revolta,
poupar é o mais alto governo.

E os carvalhos aprendem outro canto.



O Fogo sobre o Muro

Sobre o muro de pedra, onde o vento
Carrega o pó das lanças quebradas,
O rei ergueu o herdeiro —
Sangue do seu sangue,
Promessa do amanhã que não viria.

As trombetas calaram.
Israel viu.
O céu viu.
E o fogo, faminto como um deus antigo,
Subiu em espirais negras
Para escrever o nome do horror nas nuvens.

Não foi vitória o que nasceu das chamas,
Mas um grito que rachou o mundo.
A terra estremeceu sob pés inocentes,
E os anjos esconderam o rosto
Como velhos juízes cansados da história.

Então a indignação caiu como sombra,
Não só sobre Moabe,
Mas sobre todos os que olharam
E aprenderam que há limites
Que nem a guerra pode cruzar.

Os exércitos partiram em silêncio,
Levando consigo a memória do fogo,
Pois nenhum trono se sustém
Quando é cimentado com o sangue do filho.

Assim diz o tempo,
Assim repete a Escritura escondida no vento:
Os maus podem erguer altares de chamas,
Mas Deus escreve a justiça com cinza —
E sempre cobrará na terra
O preço do mal cometido.


As Correntes de Manassés

Nas salas secas do império,
onde o pó aprende o nome dos reis mortos,
Manassés caminhou em ferro,
os tornozelos cantando um salmo quebrado.

Assurbanípal não era Deus,
mas vestia o silêncio como se fosse eterno,
e o cativeiro tinha o gosto metálico
da memória que retorna tarde demais.

Entre muros estrangeiros
o rei aprendeu o peso do próprio nome,
aprendeu que os ídolos
não respondem quando a noite se fecha.

Ali, onde a oração não tinha templo,
ergueu-se a súplica —
não em ouro,
mas em lágrimas gastas.

O Deus Vivo de Israel
não falou com trovões,
mas com a paciência das raízes
rompendo a pedra.

E o homem que fora rei
tornou-se pó consciente,
e o pó chamou por Jeováh
com voz de exilado.

Então as correntes perderam o sentido,
o trono reaprendeu o nome do servo,
e Jerusalém respirou
como uma cidade acordando do erro.

Os ídolos caíram
não com estrondo,
mas com vergonha.

E o povo ouviu novamente
o som antigo:
não o ruído do poder,
mas o chamado do Senhor de Israel,
que humilha para erguer
e prende para libertar.



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