Fala o tempo —
num sussurro de ferrugem
raspando as bordas do mundo.
Tantas eras cabem numa lasca de luz,
tantos mortos respiram
na dobra das horas.
Fala o tempo,
mas sua voz é um vento cego
que tateia os rostos,
arrancando deles o que foi lembrado
e o que nunca chegou a existir.
Então cala-se —
como um sino enterrado,
como uma palavra que não ousou nascer.
E nesse silêncio duro
caminho sobre a crosta das décadas,
procurando o eco que ficou preso
no fundo da pedra.
Fala o tempo,
mas não para mim:
fala para os que virão,
para os que ainda não têm nome,
para os que ouvirão no pó
o estalo súbito
de uma história renascendo.
E quando cala-se,
entendo enfim:
seu silêncio é a respiração do mundo,
uma pausa mineral
onde o futuro incuba suas asas.
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