sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Brasil e África: abraço de irmãos

 

para sedar senghor, o mestre da negritude! 


Brasil e África não se abraçam
por gesto,
mas por osso.

O mesmo sal na pele,
o mesmo sol que racha
a cana,
o milho,
o homem.

Entre um e outro
o mar não separa:
transporta.

Levou braços,
levou nomes,
levou deuses
em porões sem ar.

O Brasil aprendeu a andar
com o pé africano,
a falar
com a boca africana,
a rezar
com o medo africano.

A África ficou
com a ausência:
corpos faltando,
vozes cortadas,
história interrompida.

Não basta memória.
Memória é pouco
quando vira museu.

É preciso trabalho comum:
trocar ciência,
trocar pão,
trocar futuro.

Que o Atlântico deixe de ser rota
e vire mesa.
Que o comércio não repita o açoite.
Que a ajuda não seja ordem.

Brasil e África:
abraço de irmãos
que só se completa
quando ambos ficam de pé.

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