Chamar este mundo de belo é um vício do olhar, não um mérito do objeto. A admiração pela existência, quando não nasce da ignorância, brota da necessidade de anestesia. O homem louva o mundo como quem elogia a cela que o abriga: não por bondade da prisão, mas por medo do vazio que há além das grades. Assim, a noção de um “belo mundo” não é uma conclusão filosófica, mas um reflexo rudimentar da mente que precisa crer para não sucumbir.
Este mundo, ao menos aquele que se oferece à consciência humana, não carrega os traços de uma obra justa. Não há nele a harmonia que se espera de um princípio bondoso, mas a coerência cruel de uma engrenagem que se alimenta da dor. Tudo o que vive é empurrado à existência sem consentimento, sustentado pela carência e devolvido ao nada pela morte. A fome, a sede, o desejo e a miséria não são exceções: são a regra. O sofrimento não é um acidente da vida, mas seu método.
Se houvesse um artífice, ele não se pareceria com um pai amoroso, mas com um demônio entediado, que encontra prazer estético na repetição infinita da agonia. A morte, quando chega, não vem como redenção, mas como epílogo indiferente — ora lenta e dolorosa, ora abrupta, como se o universo jogasse dados com o destino dos seres. A ironia cósmica substitui qualquer noção de justiça.
Quanto aos homens, pouco há a dizer, pois raramente encontrei um. O que conheci foram funções sociais, máscaras coletivas, autômatos morais moldados por convenções. O “ser humano” é uma abstração tão imaginária quanto as nações que ele ergue. O que existe, de fato, é a sociedade — esse monstro sem rosto que produz não homens, mas instrumentos: uns para atormentar, outros para serem atormentados. A divisão é simples e brutal, e talvez por isso tão lógica: o mundo reparte-se entre demônios ativos e almas passivas.
A religião surge, então, não como verdade, mas como necessidade fisiológica da dor. Não é revelação divina, mas produção humana. O homem cria seus deuses à imagem de sua angústia, e não o contrário. Ainda assim, a religião é indispensável à manutenção do teatro: ela funciona como narcótico, como ópio metafísico capaz de conceder ao sofredor uma noite de sono. Promete sentido onde há apenas repetição, promete justiça onde há apenas força. É o passatempo dos pobres — e, por vezes, o luxo espiritual dos ricos — todos unidos pela mesma necessidade de ilusão.
Diz-se que Deus criou o mundo como paraíso e que os homens o transformaram em inferno. Essa narrativa é confortável demais. Mais plausível é admitir que o mundo já nasce infernal, e que o homem apenas o administra com zelo crescente. Onde quer que a sociedade se instale, ela converte o espaço em chiqueiro — não por maldade consciente, mas por obediência cega à Vontade que a move. E que injustiça seria comparar os suínos a essa criação humana: aqueles vivem conforme sua natureza; o homem, ao contrário, orgulha-se da sua degradação organizada.
Tudo o que vemos é aparência, e toda aparência é expressão de uma Vontade sem controle, cega, incessante, insaciável. Não somos senhores dessa força; somos seus cavalos, chicoteados por impulsos invisíveis, acreditando ainda possuir rédeas. E talvez a maior crueldade desse sistema não seja a dor em si, mas a consciência dela — esse lúcido fardo que nos permite compreender o horror sem jamais escapar dele.
Assim, viver é participar de uma peça trágica encenada por ninguém e para ninguém. O palco é o mundo, o roteiro é o sofrimento, e o aplauso final nunca vem. A esperança, quando aparece, não passa de um intervalo entre duas dores. E ainda assim, seguimos — não por vontade própria, mas porque a Vontade assim exige.
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