sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O CAPITALISMO FINAL: O DEUS DO DESESPERO

 O CAPITALISMO FINAL: O DEUS DO DESESPERO


O capitalismo, em sua fase terminal, revela-se não apenas como um modo de produção, mas como a mais sutil e onipresente das religiões. Ele não nasce da secularização – como acreditara Weber, para quem a ética protestante deu forma à disciplina econômica – mas emerge como um culto autônomo, um deus absoluto que devora seus adoradores. Aqui, não há dogmas escritos, nem evangelhos; o que existe é a liturgia incessante da mercadoria, o ritual cotidiano da troca, a adoração muda do lucro. O capitalismo final é o Deus do Desespero: não promete salvação, apenas a continuidade infinita de sua própria fome.

É preciso ver nesta forma histórica um fenômeno essencialmente religioso. Não se trata de metáfora, mas de constatação material: tudo no capitalismo é culto, tudo remete ao altar silencioso onde se sacrifica a vida humana em nome de uma acumulação que jamais se completa. O utilitarismo aparece, assim, como teologia disfarçada, uma fé que proclama que o valor de todas as coisas – da natureza, do trabalho, da alma – só pode ser medido em cifras e calculado em rendimentos. O capital converte relações humanas em fórmulas, transforma necessidades em oportunidades de exploração e chama de virtude o que é, na realidade, uma política sistemática de desolação.

A prática capitalista – investimentos, especulações, operações financeiras, manobras bolsistas – constitui um culto tão rígido quanto qualquer ritual arcaico. Como os antigos pagãos, seus fiéis não buscam transcendência, mas eficácia imediata. O capitalismo é o paganismo moderno, o retorno de um panteão invisível em que cada ação cotidiana é uma oferenda aos mercados. E esses mercados, fetichizados, tornam-se oráculos que decidem o destino de povos inteiros.

A segunda característica desse Deus do Desespero é a duração perpétua de seu culto. Não há dias profanos, não existe descanso: todo momento é convertido em tempo de adoração. O trabalhador, exaurido, é convocado a manter-se produtivo mesmo quando dorme, contribuindo com seus dados, sua atenção, seu consumo. O desempregado, por sua vez, carrega a culpa religiosa dos “improdutivos”, como pecadores expulsos do templo da utilidade. A festa capitalista, que deveria ser o intervalo do trabalho, converte-se em mais uma ocasião de gasto, de endividamento, de sacrifício. É um culto “sem trégua e sem piedade”, no qual o adorador vive na extrema tensão de quem jamais é suficiente.

O capitalismo final é o desdobramento máximo dessa lógica: a transformação total do mundo em mercadoria e a transformação total do ser humano em desespero. Seu milagre é a produção contínua de escassez em meio à abundância. Sua profecia é o apocalipse ecológico que anuncia, mas nunca admite. Sua ética é a concorrência universal, que exige que cada indivíduo torne-se sacerdote e vítima, dominador e dominado, algoz e sacrificado.

Neste cenário, o Deus do Desespero reina absoluto. Ele não precisa prometer o paraíso: basta-lhe garantir que o inferno continue funcionando. E, enquanto isso perdura, homens e mulheres – exaustos, fragmentados, culpados – seguem prostrados diante do altar da mercadoria, esperando que algum dia a última moeda caia, e com ela, talvez, a própria ilusão sagrada que sustenta o templo do capital.

Somente quando o culto cessar, quando for possível desvelar a estrutura religiosa do capital em sua nudez, poderá surgir um mundo não consagrado à acumulação infinita, mas à emancipação humana. Até lá, o capitalismo continuará sendo o Deus do Desespero: onipresente, implacável e faminto.

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