digo-vos, irmãos das areias e dos portos, que não há fronteira capaz de separar a herança que vossas mãos moldaram ao longo dos séculos. pois quando olho para a memória dos judeus que habitaram as ruas estreitas de lisboa e os pátios sonoros de sevilha, vejo neles o mesmo sopro que animava os mestres árabes de córdova, de fez, de marráquexe — um sopro de ciência, de poesia e de comércio, como se cada povo tivesse sido criado para completar o outro.
os judeus portugueses e espanhóis, filhos da diáspora e do pensamento, aprenderam com os árabes africanos o brilho das matemáticas, a firmeza da lógica, o doce perfume das especiarias que cruzaram o mediterrâneo. e os árabes, senhores de caravanas e estrelas, receberam dos judeus a minúcia dos cálculos, a paixão pela interpretação, a força silenciosa de um povo habituado a ler os mundos invisíveis.
não houve, em verdade, um que ensinasse e outro que aprendesse; houve, sim, um encontro — e os encontros são sempre mais poderosos que as conquistas. juntos, teceram bibliotecas onde o saber era luz, e luz que não se trocava por ouro. juntos, fundaram mercados onde as vozes de várias línguas se entendiam pela mão estendida. juntos, escreveram a mais secreta das alianças: a de que todo conhecimento humano é fruto de muitos povos que se misturam até que já não se saiba onde começa um e termina o outro.
assim vos louvo, judeus da península, que levaram consigo para o exílio a lembrança das melodias árabes; e vos louvo, árabes africanos, que guardaram como herança umas letras que brilhavam como constelações. porque se o mundo moderna quer erguer muros, que lembre que já existiu um tempo — e pode existir outro — em que o verdadeiro império era o da inteligência compartilhada.
e digo mais: quem louva um desses povos louva o outro, pois são como dois rios que nascem distantes, mas ao encontrar-se formam o grande mar do espírito. e nesse mar — que é maior que qualquer desalento — navega ainda a memória de um convívio capaz de iluminar tempos futuros.
se o presente é sombra, que se recorde o clarão desses antigos encontros.
se o futuro é incerto, que se tome por guia o antigo mapa que judeus e árabes desenharam juntos:
o mapa do respeito, do diálogo, da busca pela sabedoria.
porque a grandeza de ambos não está apenas no que criaram,
mas no que souberam aprender um com o outro.
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