Toda cultura humana é, no fundo, uma luta contra o esquecimento. Os povos passam, os impérios se dissolvem, as línguas morrem; mas certos gestos mínimos — a forma de comer, de chorar os mortos, de lavar as mãos — sobrevivem com uma obstinação que parece desafiar a própria história. É nesse nível quase microscópico da vida cotidiana que Câmara Cascudo identificou a presença judaica no Brasil: não como ruína monumental, mas como hábito silencioso.
O judeu, para Cascudo, não é apenas um indivíduo histórico, mas um vaso de tradições, um receptáculo vivo no qual o tempo deposita seus sedimentos sem jamais conseguir dissolvê-los por completo. Essa resistência não nasce da força física, nem do poder político — quase sempre ausentes —, mas de algo mais profundo: a submissão obstinada da vida prática a uma ordem simbólica anterior ao indivíduo. Conhecimento, rito e memória formam, nesse povo, uma unidade rara.
O que sobrevive não é a doutrina explícita, mas o costume. Não é o templo, mas a mesa. No sertão nordestino, longe de Jerusalém e ainda mais longe de qualquer sinagoga, Cascudo percebeu práticas que não se explicam pelo catolicismo romano nem pelo mundo indígena: a aversão persistente à carne de porco, o cuidado ritual no abate das aves, o gesto de lavar as mãos antes da refeição como se o corpo precisasse, antes de comer, justificar-se perante uma lei invisível. São restos — mas restos vivos.
A morte, que revela sempre o fundo metafísico de um povo, também denuncia essa herança. Cobrir espelhos, derramar a água parada da casa, modificar o espaço doméstico após o falecimento de alguém — tais atos não obedecem à razão, mas à necessidade ancestral de ordenar o caos que a morte introduz. São gestos inúteis do ponto de vista prático, e exatamente por isso reveladores de uma metafísica inconsciente. Onde há rito sem explicação, há tradição profunda.
Cascudo viu no sertão o que a Europa perdeu: o isolamento como conservador cultural. Enquanto as cidades se transformam e se esquecem, o interior guarda. Assim como a Índia preservou judeus que o Ocidente apagou, o sertão nordestino funcionou como um congelador histórico, onde o cristão-novo pôde sobreviver sem precisar lembrar conscientemente quem era. A perseguição destruiu a identidade explícita, mas fortaleceu o hábito. O judeu tornou-se brasileiro — mas o brasileiro reteve algo do judeu.
Essa é, talvez, a mais amarga ironia da história: o que a Inquisição tentou erradicar pela violência sobreviveu na forma mais discreta possível, infiltrado no cotidiano daqueles que já não sabiam a origem do que faziam. A vontade — essa força cega que Schopenhauer via como motor do mundo — continuou operando, mesmo quando a consciência foi apagada.
Na diáspora, seja na Índia, na África ou no Brasil, o judeu revela uma aptidão singular: adapta-se sem dissolver-se. Muda a roupa, a língua, o tempero da comida, mas preserva a espinha dorsal de sua visão de mundo. Isso não é virtude moral nem defeito ético; é uma estratégia de sobrevivência inscrita no caráter. O meio molda o homem, mas não o anula completamente.
Cascudo, diferentemente de muitos intelectuais de seu tempo, compreendeu isso sem ressentimento. Sua admiração pelo judeu não é sentimental, mas intelectual. Ele vê nesse povo o triunfo da cultura sobre a força, do livro sobre a espada, da memória sobre o esquecimento. Onde outros viam estrangeirismo, ele via raiz. Onde viam ameaça, ele via fundamento.
No Brasil, país jovem e ansioso por identidade, essa herança judaica subterrânea é particularmente reveladora. Ela nos lembra que não somos produto de uma única origem, mas de camadas sobrepostas de medo, adaptação e silêncio. O judeu não aparece como personagem central da história brasileira, mas como um princípio organizador invisível, atuando na ética do trabalho, na relação com o alimento, no modo de lidar com a perda e com o sofrimento.
Talvez por isso estudar o judeu, para Cascudo, fosse uma forma de estudar o próprio brasileiro. Pois aquilo que persiste sem nomear-se é sempre mais poderoso do que o que se proclama. A cultura não se impõe; infiltra-se. E o judaísmo, nesse sentido, não foi um corpo estranho no Brasil, mas uma de suas nervuras mais antigas e silenciosas.
A história esquece os vencidos; os costumes, não. E é nos costumes que o judeu — como forma, não apenas como povo — continua vivendo entre nós.
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