O Sal do Outro Lado da Pista
Em
Campinas, o sol não se põe; ele simplesmente se cansa de brilhar sobre o
asfalto da rodovia e se esconde atrás dos silos industriais. Murielo caminhava
pelo corredor de serviço do shopping, um labirinto de concreto que cheirava a
detergente barato e óleo queimado. Ali, entre as paredes descascadas, ele ainda
era um homem. Mas, assim que atravessava a porta metálica para o setor das
mesas, ele se tornava uma sombra de boné.
— Anda,
Murielo! O número 42 não tem o dia todo! — gritava o gerente, um rapaz de vinte
anos cuja autoridade emanava apenas do brilho excessivo do gel no cabelo.
A
clientela do shopping de periferia era a mais cruel, pois era a que mais
precisava exercer o poder que não possuía lá fora. Olhavam para as mãos de
Murielo como se fossem extensões da bandeja de plástico. Uma mulher,
equilibrando sacolas de liquidação, reclamou do sal nas batatas com um desprezo
que sugeria que ele havia envenenado sua linhagem. Murielo pedia desculpas com
uma voz que vinha de um lugar muito fundo, um lugar onde ele guardava os restos
de sua dignidade, como quem guarda moedas antigas que já não valem nada.
Seu único
desejo era o silêncio. Ele sonhava com o travesseiro em sua casa no Campo Belo,
o som do ventilador de teto fazendo sua oração mecânica, e a paz de não ser
visto por ninguém.
Mas, ao
abrir a porta de casa, o silêncio era uma mercadoria inexistente.
Yzabibi estava pronta. Ela usava um
vestido de cores elétricas e os lábios pintados de um carmim que parecia gritar
contra as paredes sem reboco da sala. Ela não queria o descanso; ela queria o
reflexo.
—
Murielo, o pessoal vai para o centro! Vamos sair, preciso de um sapato novo, vi
um na vitrine que é a minha cara. Vamos, não fica aí com essa cara de peixe
morto! — disse ela, já pegando a bolsa.
—
Yzabibi, eu limpei o chão de mil pessoas hoje. Só quero tirar o cheiro de
fritura da pele — ele sussurrou, sentando-se no sofá com o peso de um século.
— Você
quer ficar enterrado aqui? Eu quero viver, Murielo! Quero que as pessoas vejam
que eu existo, que a gente tem direito de estar lá também, comprando, andando,
sendo alguém!
Eles
brigavam não com palavras, mas com mundos opostos. Para Murielo, a paz era o
anonimato, a retirada estratégica da guerra do consumo. Para Yzabibi, a
existência só era confirmada pelo olhar dos outros, pelo brilho das vitrines
que prometiam uma identidade que o dia de trabalho lhe roubava.
Naquela
noite, enquanto ela batia a porta e saía para a rua iluminada por postes
precários, Murielo ficou sentado no escuro. Ele sentia o cheiro de sal nas mãos
e pensava que, às vezes, a maior distância do mundo não era entre continentes,
mas entre duas pessoas sentadas no mesmo sofá, em uma cidade que nunca
aprendera a perdoar quem está cansado.
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