quarta-feira, 25 de março de 2026

O Sal do Outro Lado da Pista - pequeno conto sentimental

 O Sal do Outro Lado da Pista

   Em Campinas, o sol não se põe; ele simplesmente se cansa de brilhar sobre o asfalto da rodovia e se esconde atrás dos silos industriais. Murielo caminhava pelo corredor de serviço do shopping, um labirinto de concreto que cheirava a detergente barato e óleo queimado. Ali, entre as paredes descascadas, ele ainda era um homem. Mas, assim que atravessava a porta metálica para o setor das mesas, ele se tornava uma sombra de boné.

— Anda, Murielo! O número 42 não tem o dia todo! — gritava o gerente, um rapaz de vinte anos cuja autoridade emanava apenas do brilho excessivo do gel no cabelo.

A clientela do shopping de periferia era a mais cruel, pois era a que mais precisava exercer o poder que não possuía lá fora. Olhavam para as mãos de Murielo como se fossem extensões da bandeja de plástico. Uma mulher, equilibrando sacolas de liquidação, reclamou do sal nas batatas com um desprezo que sugeria que ele havia envenenado sua linhagem. Murielo pedia desculpas com uma voz que vinha de um lugar muito fundo, um lugar onde ele guardava os restos de sua dignidade, como quem guarda moedas antigas que já não valem nada.

Seu único desejo era o silêncio. Ele sonhava com o travesseiro em sua casa no Campo Belo, o som do ventilador de teto fazendo sua oração mecânica, e a paz de não ser visto por ninguém.

Mas, ao abrir a porta de casa, o silêncio era uma mercadoria inexistente.

Yzabibi estava pronta. Ela usava um vestido de cores elétricas e os lábios pintados de um carmim que parecia gritar contra as paredes sem reboco da sala. Ela não queria o descanso; ela queria o reflexo.

— Murielo, o pessoal vai para o centro! Vamos sair, preciso de um sapato novo, vi um na vitrine que é a minha cara. Vamos, não fica aí com essa cara de peixe morto! — disse ela, já pegando a bolsa.

— Yzabibi, eu limpei o chão de mil pessoas hoje. Só quero tirar o cheiro de fritura da pele — ele sussurrou, sentando-se no sofá com o peso de um século.

— Você quer ficar enterrado aqui? Eu quero viver, Murielo! Quero que as pessoas vejam que eu existo, que a gente tem direito de estar lá também, comprando, andando, sendo alguém!

Eles brigavam não com palavras, mas com mundos opostos. Para Murielo, a paz era o anonimato, a retirada estratégica da guerra do consumo. Para Yzabibi, a existência só era confirmada pelo olhar dos outros, pelo brilho das vitrines que prometiam uma identidade que o dia de trabalho lhe roubava.

   Naquela noite, enquanto ela batia a porta e saía para a rua iluminada por postes precários, Murielo ficou sentado no escuro. Ele sentia o cheiro de sal nas mãos e pensava que, às vezes, a maior distância do mundo não era entre continentes, mas entre duas pessoas sentadas no mesmo sofá, em uma cidade que nunca aprendera a perdoar quem está cansado.

 

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