O Rito do Olhar
Na geometria exata da noite, onde o tempo
se despe de suas vestes de pó e de espera,
procuro a cifra de um rosto que se perde
entre o que é sombra e o que é quimera.
Não é o brilho frio o que me detém o passo,
mas esse contorno de abismo e de cansaço:
acabo vendo na lua a tua boca aberta
para os beijos mundanos nossos, colheita certa
de uma fome que não se cala nem com a luz.
É um oratório de carne, um altar de argila,
onde a transcendência no sangue se destila.
Teu riso é o eclipse que a razão seduz,
e o céu, esse manto de silêncios soberanos,
curva-se ante o peso dos nossos atos humanos.
Clarão Mundano
O céu é um deserto de vidro e de frio,
onde a memória do corpo se faz laguna.
Nesse silêncio que o meu olhar desune,
acabo vendo na lua a tua boca aberta
para os beijos mundanos nossos,
única chama viva em meio aos uivos serenos da noite.
O Metal da Noite
—para Garcia Lorca—
Há uma bruma nas noites espanholas antigas,
onde o tempo é moeda que o escuro consome.
Entre o silêncio do ouro e o rastro do nome,
acabo vendo na lua a tua boca aberta
para os beijos mundanos nossos,
único tesouro vivo sob o peso dos séculos.
Inventário da Herança
Sousandrade chama de canção, o bardo,
o que Pedro Kilkerry nomeia ritmo de mar.
Há uma névoa e solar arcanjos em Murilo Mendes,
vultos de bruma nas noites espanholas antigas.
Onde o tempo é moeda e ouro, herança morta,
acabo vendo na lua a tua boca aberta
para os beijos mundanos nossos,
único verbo que o silêncio não consome.
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