quarta-feira, 25 de março de 2026

O Rito do Olhar

 



O Rito do Olhar

Na geometria exata da noite, onde o tempo

se despe de suas vestes de pó e de espera,

procuro a cifra de um rosto que se perde

entre o que é sombra e o que é quimera.


Não é o brilho frio o que me detém o passo,

mas esse contorno de abismo e de cansaço:

acabo vendo na lua a tua boca aberta

para os beijos mundanos nossos, colheita certa

de uma fome que não se cala nem com a luz.


É um oratório de carne, um altar de argila,

onde a transcendência no sangue se destila.

Teu riso é o eclipse que a razão seduz,

e o céu, esse manto de silêncios soberanos,

curva-se ante o peso dos nossos atos humanos.



Clarão Mundano

O céu é um deserto de vidro e de frio,

onde a memória do corpo se faz laguna.

Nesse silêncio que o meu olhar desune,


acabo vendo na lua a tua boca aberta

para os beijos mundanos nossos,

única chama viva em meio aos uivos serenos da noite.



O Metal da Noite

—para Garcia Lorca—

Há uma bruma nas noites espanholas antigas,

onde o tempo é moeda que o escuro consome.

Entre o silêncio do ouro e o rastro do nome,


acabo vendo na lua a tua boca aberta

para os beijos mundanos nossos,

único tesouro vivo sob o peso dos séculos.



Inventário da Herança

Sousandrade chama de canção, o bardo,

o que Pedro Kilkerry nomeia ritmo de mar.

Há uma névoa e solar arcanjos em Murilo Mendes,


vultos de bruma nas noites espanholas antigas.

Onde o tempo é moeda e ouro, herança morta,

acabo vendo na lua a tua boca aberta


para os beijos mundanos nossos,

único verbo que o silêncio não consome.

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