terça-feira, 24 de março de 2026

A Memória das Mãos e o Silêncio do Pensar

 A Memória das Mãos e o Silêncio do Pensar

Dizemos nós, ou talvez o digam os livros que ainda não foram escritos, que a beleza de escrever e pensar nestes séculos de aflições é coisa de quem teima em acender fósforos no meio da tempestade, não porque a luz vá durar muito tempo, mas porque o gesto de riscar a madeira contra o áspero da vida é, por si só, a única vitória possível, sabe-se lá se o pensamento não será, no fim de tudo, uma forma de resistência contra o esquecimento que nos rói os calcanhares, porque o homem, este bicho estranho e inquieto, descobriu que a dor dói menos se for vertida em tinta, e que as aflições, por mais que se acumulem em séculos e camadas de pó, perdem um pouco da sua força quando as prendemos com o laço de uma frase bem medida, ou até de uma frase desmedida, como esta, que vai andando sem vírgulas que a parem ou pontos que a sentenciem, pois o que importa verdadeiramente não é a perfeição do que se diz, mas a coragem de continuar a dizer, enquanto houver mãos que sintam o peso da caneta e olhos que saibam ler a beleza oculta no meio do caos, que é onde a luz costuma esconder-se para ver se alguém a procura.

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