Mapa de Vidro e Asfalto
Ave do paraíso, me diz, sem pressa nem espanto:
A vida não pode ser banal, ainda que o tédio insista.
Entre o dever e o desejo,
perco-me no mesmo canto,
Enquanto o tempo, esse mudo, risca meu nome da lista.
O mapa das memórias e dos afetos vem e vão,
Traçado em giz sobre o cinza de um muro qualquer.
Doce São Paulo do meu
coração, em tua vasta solidão,
Ensina-me a ser pedra, antes que eu deixe de ser.
A Ética do Descompasso
Enveredando na deselegância, o corpo se atrasa,
O gesto murcha antes mesmo
de virar abraço.
O deselegante universo vedado dos amores se abre,
Feito uma porta velha que range em meio ao cansaço.
Não há rima rica que salve
o que é torto por natureza,
Nem mapa que explique o tropeço no meio do caminho.
A alma, essa gauche, contempla
a própria incerteza,
E descobre que o amor é, enfim, um bicho sozinho.
O Altar dos Abismos
A dama de tromba sorridente e bela,
no beco escuro do
coração habita.
Carrega a herança antiga,
dos dias
onde o silêncio do mito se faz grito.
O Espólio da Solidão
O velho da bengala de ouro abandonado,
ele diz, até pelo vento é esquecido.
Nesta tarde de sol que nada resgata,
o luxo é apenas um metal sem sentido.
O Monumento das Sombras
Mulher de tromba, corpo nu e negro,
escultura viva no altar do silêncio.
Corpo de noite nas esquinas do tempo,
exibe a herança de uma antiga glória.
Ave do Paraíso
A ave do paraíso pousou no meu quintal,
tão colorida que o mundo, de repente, ficou cinza.
Mas ela não canta óperas, nem busca o imortal:
só quer saber se a semente da tarde ainda vinga.
Dizem que veio de longe, de um mapa de sonho...
Ora, o paraíso é aqui, onde o tempo não tem pressa!
Ela me olha com um jeito sério, quase risonho,
e voa antes que eu tente entender sua promessa.
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