Doce cançção* do silênccio
No abismo
do agora
...restam...
olhos verdes
da imensidão
dos dias antigos
e o naufrágio
é doce.
*decidi escrever essa palavra com duas çç-cc para a liberdade da criação.
Universo
O mar
naufrágio
dos dias
***
esperança
vã
de estrelas
de mel
***
Revelação
Um nome
dentro
de todos
os nomes:
manhã
repentina
Metamorfose ou lapidação necessária
Vi o mar
verde escuro
pelos teus
olhos
de menina
amarga
mulher
lobo
Intimidade
Fazendo
ocultas
...safadezas
ocultas...
a lua
branca
surge
na casa.
O Equilíbrio da Ausência
Não me queixarei ao vento
Do sal do teu corpo de mar,
Pois o mar não se guarda, nem se detém,
E a sua amargura é a forma de um reino
Onde a liberdade é a única lei.
Tampouco direi palavras de luto
Pelo açúcar dos teus beijos de lua
Que se foram, como se vai a maré:
Exatos no seu tempo,
Límpidos na sua fuga.
Ficarei aqui, entre as colunas do dia,
Habitando a nudez de uma casa aberta.
Porque nada se perde quando o que se deu
Foi a própria luz, o próprio instante,
E a memória é agora uma praia deserta,
Onde o silêncio é inteiro e o rastro é constante.
Monumento
Como se fosse
esculpida
em pedra
ela
me diz:
amor
adeus
O sagrado e o profano
Brevidade
dos sinos
do amor
no sexo
a densidade
da neblina
de um cu.
A Ordem do Encontro
Pela noite fora esculpimos
A clareza dos nossos gemidos:
Geometria de corpos, absoluta e nua,
Onde o ontem se faz luz
E o tempo se detém,
Exacto e sem medida.
A Fundação
No escuro, o mel exato:
Gozos profundos como raízes.
Erguemos sobre o matagal
A construção de um corpo —
Ontem foi apenas a semente
Neste cafézal de sombra e de rastro.
Clarão
Lambi
ela
toda
até a lua
gemeu
prateada
de suor
e alegria!
O Rito
A espada raspada no umbral:
Grito de ferro à porta dela.
No mar, as flores gemem
A espuma do seu gozo
— E o dia é uma ferida aberta e bela.
A Herança
Esqueci-te na solidão ancestral.
Ficaste ali, corpo de lua,
Entre colunas de silêncio e de sal.
Onde as flores estão nuas
E a memória é a penumbra total.
O Mandamento
Senta-te na luz que te consome.
Poeta, a tua nudez é a tua casa.
Busca no teu corpo a razão de ser:
Puro rigor, sem artifício nem rastro,
Onde a vida se escreve, exata e rasa.
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