quarta-feira, 25 de março de 2026

Doce cançção* do silênccio*

Doce cançção* do silênccio

No abismo

do agora


...restam...


olhos verdes

da imensidão

dos dias antigos


e o naufrágio

é doce.


*decidi escrever essa palavra com duas çç-cc para a liberdade da criação.




Universo

O mar

naufrágio

dos dias

***

esperança

de estrelas

de mel

***


Revelação

Um nome


dentro

de todos

os nomes:


manhã

repentina




Metamorfose ou lapidação necessária

Vi o mar

verde escuro


pelos teus

olhos

de menina


amarga

mulher

lobo



Intimidade

Fazendo

ocultas


...safadezas

ocultas...


a lua

branca


surge

na casa.



O Equilíbrio da Ausência

Não me queixarei ao vento

Do sal do teu corpo de mar,

Pois o mar não se guarda, nem se detém,

E a sua amargura é a forma de um reino

Onde a liberdade é a única lei.


Tampouco direi palavras de luto

Pelo açúcar dos teus beijos de lua

Que se foram, como se vai a maré:

Exatos no seu tempo,

Límpidos na sua fuga.


Ficarei aqui, entre as colunas do dia,

Habitando a nudez de uma casa aberta.

Porque nada se perde quando o que se deu

Foi a própria luz, o próprio instante,

E a memória é agora uma praia deserta,

Onde o silêncio é inteiro e o rastro é constante.




Monumento

Como se fosse

esculpida

em pedra


ela

me diz:


amor


adeus



O sagrado e o profano

Brevidade

dos sinos


do amor


no sexo


a densidade

da neblina


de um cu.



A Ordem do Encontro

Pela noite fora esculpimos

A clareza dos nossos gemidos:

Geometria de corpos, absoluta e nua,

Onde o ontem se faz luz

E o tempo se detém,

Exacto e sem medida.



A Fundação

No escuro, o mel exato:

Gozos profundos como raízes.

Erguemos sobre o matagal

A construção de um corpo —

Ontem foi apenas a semente

Neste cafézal de sombra e de rastro.



Clarão

Lambi

ela

toda


até a lua

gemeu


prateada

de suor


e alegria!



O Rito

A espada raspada no umbral:

Grito de ferro à porta dela.

No mar, as flores gemem

A espuma do seu gozo

— E o dia é uma ferida aberta e bela.



A Herança

Esqueci-te na solidão ancestral.

Ficaste ali, corpo de lua,

Entre colunas de silêncio e de sal.

Onde as flores estão nuas

E a memória é a penumbra total.



O Mandamento

Senta-te na luz que te consome.

Poeta, a tua nudez é a tua casa.

Busca no teu corpo a razão de ser:

Puro rigor, sem artifício nem rastro,

Onde a vida se escreve, exata e rasa.


o autor
Gabriel de Athayde é poeta, desenhista e jornalista.
 É formado em desenho industrial 
pelo Senai!
Atualmente reside em São Paulo, capital!



Nenhum comentário:

Postar um comentário