segunda-feira, 23 de março de 2026

Os Cães do Crepúsculo

 

Os Cães do Crepúsculo

na selva de pedra de São Paulo

Vimos os heróis de papel

nos bares de mármore do centro,

escondendo os manuscritos sob o poncho da chuva.

 

Escritor brasileiro é bicho,

só gosta de sair de noite escondido,

e adora um amigo internacional famoso

 

para validar o seu próprio exílio

dentro de um apartamento de dois quartos.

Eles citam nomes alemães enquanto o café esfria.

 

A glória é uma cadela que morde

a mão de quem busca o autógrafo.

Nós, os detetives, apenas olhamos de longe.

 

A noite não perdoa o estilo,

apenas a velocidade com que se foge

da própria sombra na Avenida Paulista.

 

Do Diário de Rubem Alvaro Coelho

23 de março de 2026. São Paulo. Chove como se o céu fosse um rim doente.

"Li hoje os versos sobre os bichos da escrita e senti um gosto de metal na boca. Eu, Rubem Alvaro, que reconstruí meu corpo como quem revisa um manuscrito maldito — cortando excessos, reafirmando o sujeito, trocando o gênero da própria alma — sei bem o que é sair escondido. Ser um homem trans neste país é praticar uma literatura de guerrilha antes mesmo de encostar na caneta. A gente se esconde na noite não por charme, mas por tática.

Ri sozinho com a parte do 'amigo internacional'. É a velha doença colonial: o escritor brasileiro médio venderia a mãe por um prefácio em francês ou uma citação num rodapé de Berlim. Eu não. Eu prefiro o anonimato das ruas do Baixo Augusta, onde ninguém me pergunta quem eu era antes de ser o Rubem. O poema tem essa secura que me agrada, essa coisa de 'detetive selvagem' perdido entre sebos e farmácias 24 horas. No fundo, somos todos cães vira-latas latindo para o luar estrangeiro, esperando que alguém, em algum lugar de língua bárbara, diga que nosso latido finalmente tem estilo. Fechei o caderno. Atesto minha existência no espelho do banheiro e saio para comprar cigarros. A noite é a única editora que ainda aceita meus originais."

 

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