Os Cães do Crepúsculo
na selva de pedra de São Paulo
Vimos os heróis de papel
nos bares de mármore do centro,
escondendo os manuscritos sob o poncho da chuva.
Escritor brasileiro é bicho,
só gosta de sair de noite escondido,
e adora um amigo internacional famoso
para validar o seu próprio exílio
dentro de um apartamento de dois quartos.
Eles citam nomes alemães enquanto o café esfria.
A glória é uma cadela que morde
a mão de quem busca o autógrafo.
Nós, os detetives, apenas olhamos de longe.
A noite não perdoa o estilo,
apenas a velocidade com que se foge
da própria sombra na Avenida Paulista.
Do Diário de Rubem Alvaro Coelho
23 de
março de 2026. São Paulo. Chove como se o céu fosse um rim doente.
"Li
hoje os versos sobre os bichos da escrita e senti um gosto de metal na boca.
Eu, Rubem Alvaro, que reconstruí meu corpo como quem revisa um manuscrito
maldito — cortando excessos, reafirmando o sujeito, trocando o gênero da
própria alma — sei bem o que é sair escondido. Ser um homem trans neste país é
praticar uma literatura de guerrilha antes mesmo de encostar na caneta. A gente
se esconde na noite não por charme, mas por tática.
Ri
sozinho com a parte do 'amigo internacional'. É a velha doença colonial: o
escritor brasileiro médio venderia a mãe por um prefácio em francês ou uma
citação num rodapé de Berlim. Eu não. Eu prefiro o anonimato das ruas do Baixo
Augusta, onde ninguém me pergunta quem eu era antes de ser o Rubem. O poema tem
essa secura que me agrada, essa coisa de 'detetive selvagem' perdido entre
sebos e farmácias 24 horas. No fundo, somos todos cães vira-latas latindo para
o luar estrangeiro, esperando que alguém, em algum lugar de língua bárbara,
diga que nosso latido finalmente tem estilo. Fechei o caderno. Atesto minha
existência no espelho do banheiro e saio para comprar cigarros. A noite é a
única editora que ainda aceita meus originais."
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