O Último Escrito
O céu desabara em água. A cidade, um borrão cinzento de asfalto e concreto, parecia querer dissolver-se. Rubem, em seu escritório apertado e enfumaçado, batia as teclas de sua máquina de escrever com fúria. A chuva, uma trilha sonora monótona e incessante, parecia alimentar sua inspiração. Ele escrevia sobre um homem que, após a leitura de Kafka, decidira pôr fim à própria vida. Sem razão aparente. Sem drama. Apenas um gesto final, um ponto final.
O homem do conto, um burocrata de meia-idade, levara uma vida pacata e sem grandes sobressaltos. Kafka lhe abrira as portas para um mundo de absurdo e desespero. E, de repente, a vida, antes segura e previsível, tornara-se insuportável. Rubem, imerso na narrativa, sentia o peso da angústia do personagem. O homem do conto não sofria, não amava, não odiava. Apenas existia. E a existência, em si, tornara-se um fardo insuportável.
Ao terminar o conto,
Rubem releu-o com atenção. A linguagem era seca, direta, brutal. O suicídio,
descrito com uma frieza assustadora. Um calafrio percorreu sua espinha. O que
ele criara? Um convite à morte? Um manual para os desesperados? O medo, uma
cobra silenciosa, rastejou por seu corpo. Ele via, em sua mente, jovens frágeis
e solitários, lendo suas palavras e encontrando nelas a justificativa para sua
própria tragédia.
Com um gesto impulsivo,
Rubem arrancou a folha da máquina e a rasgou em mil pedaços. O som do papel
rasgando foi abafado pelo barulho da chuva. Ele sentira um alívio momentâneo,
como se tivesse destruído um monstro. Mas a dúvida, uma sombra persistente, não
o abandonara.
Dias depois, a chuva
cessara, mas a angústia de Rubem continuava. Ele se pegava, em momentos de
solidão, divagando sobre o conto destruído. Será que ele fizera o certo? Terá o
direito de censurar sua própria arte? E se o conto, em sua crueza, tivesse o
poder de despertar, não para a morte, mas para a vida? E se a literatura, em
sua essência, fosse justamente isso: um espelho que nos confronta com nossos
medos mais profundos, com nossas verdades mais dolorosas?
Rubem, no entanto, não
conseguia chegar a uma conclusão. O dilema, como um labirinto sem fim, o
consumia. A arte, a vida, a morte... Tudo se misturava em uma dança caótica e
incompreensível. E Rubem, perdido em seus pensamentos, continuava a escrever,
na esperança de, quem sabe um dia, encontrar as respostas que tanto buscava.
A chuva já parou,
As ruas, agora molhadas,
O conto rasgado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário