segunda-feira, 23 de março de 2026

Na imensidão

Na imensidão do teu corpo obsidiano puro do ébano de metal lírico e sol, Navego as frotas do desejo sob o comando de uma linhagem de antigos reis. Teus músculos são as colunas de um templo erguido ao cansaço e ao esplendor, Onde a história se faz sangue e a palavra se deita para adormecer nos teus vãos. Invento a tua pele como quem descobre uma península de seda e fúria negra, Pois em ti o tempo não transcorre, ele se acumula em camadas de puro âmbar. És a matéria bruta que o verbo persegue com a sede dos grandes navegantes, Um atlas de sombras onde cada poro é uma estrela que o meu tato incendeia.

Teu ventre é o deserto de onde brotam as miragens de uma paixão sedimentada, Um silêncio de veludo que desafia a vã tagarelice dos homens comuns e vãos. Tocar-te é um exercício de arqueologia, desenterrando os deuses do meu prazer, Nessa topografia de ébano que brilha como a lâmina de uma espada ao amanhecer. Não busco a brevidade do encontro, mas a eternidade de um abraço de mármore, A herança que deixaremos escrita no lençol, como um testamento de carne viva. A luz tropeça na tua escuridão e ali decide habitar, cativa da tua geometria, Pois és o metal que canta quando o meu sopro te habita na calada da memória.

Nesse encontro de oceanos, somos a náusea e o triunfo dos descobridores, Engolfados pela solenidade de um rito que não admite a pressa dos profanos. Teu corpo é a minha pátria, o chão de terra escura onde planto os meus sonhos, E colho frutos de um erotismo sagrado, ungido pelo azeite de mil civilizações. A poesia se ajoelha diante da tua anatomia, essa catedral de sombra e de luz, Onde o mistério da vida se resolve no simples movimento das tuas mãos lentas. Somos os guardiões de um segredo que apenas os amantes e os poetas conhecem, O pacto de sangue selado entre a solidez do teu tronco e a fluidez do meu ser.

Ao fim da jornada, resta o rastro de metal e sol que a tua presença emite, Uma cartografia de afetos que resistirá ao pó e ao esquecimento dos séculos. Dormiremos sobre os escombros da nossa própria volúpia, exaustos e divinos, Como se o mundo tivesse começado e terminado nos limites da nossa pele. O teu ébano é o meu espelho, onde vejo a face de uma humanidade que anseia, E na tua obsidiana, encontro a clareza necessária para suportar a própria luz. Consagro cada verso a essa tua imensidão, altar de um sacrifício de beleza, Pois amar-te é o único épico que realmente merece ser narrado até o silêncio.

 

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