Para o doce e amabilíssimo Glauco Matoso, que sempre se correspondeu comigo tão gentilmente, dedico e consagro esse conto para todo sempre!
A campainha tocou. Três vezes, rítmicas, quase como um hai-kai de metal contra o ar
abafado do apartamento, onde o pó dos livros parecia conspirar com a penumbra.
Borgus, o velho autor calejado por metáforas exauridas e sonetos que já não
rimavam com o mundo, soltou a caneta. O tinteiro parecia um olho preto,
estático, observando-o.
Levantou-se. A porta abriu-se e, com ela, entrou um
frescor que não pertencia à tarde de verão. O visitante era um rapaz. Belo, de
uma beleza fria, marmórea, envolto em um preto tão absoluto que parecia
absorver a pouca luz do corredor. Em uma das mãos, uma foice longa, polida,
cuja lâmina não refletia o cômodo, mas sim uma noite sem estrelas.
— Vim buscar-te, Borgus — disse o rapaz. A voz era
suave, sem inflexões, como uma frase lida em voz alta por um cego.
Borgus sentiu o estômago contrair-se. Não de medo, mas
de uma urgência súbita, quase burocrática.
— Tão cedo? — balbuciou o velho poetastro. — Há tanto
que reler, tanto que descartar. Eu precisava... eu preciso de tempo. Para
pensar na última frase, sabe? Uma conclusão minimamente digna.
Tentou sorrir, um sorriso amarelo, de sebos e gavetas
esquecidas.
O rapaz não respondeu ao sorriso. Ele olhou para a
estante, onde as obras completas de Borgus mofavam em capas de couro.
— Seus poemas — disse a Morte, com a mesma indiferença.
— Eu os li. São fracos. Falta-lhes a corrupção do corpo. São tudo mente, nada
de carne. Não gosto deles.
Borgus sentiu a pontada da rejeição, mais dolorosa que
a perspectiva do fim. A Morte não gostava da sua obra.
— Se me permite — disse Borgus, a voz agora tremendo de
uma antecipação que o rapaz não podia prever. — Antes que a lâmina desça. Antes
do ponto final. Eu peço um único prazer. Um único desejo carnal antes da
abstração total.
O rapaz arqueou uma sobrancelha, o primeiro vestígio de
expressão em seu rosto de estátua.
— Diga.
Borgus olhou para baixo. Para os pés da Morte. Pés
calçados em sandálias de couro negro, firmes, perfeitos.
— Eu quero... — sussurrou Borgus, a língua passando
pelos lábios secos. — Eu quero chupar-lhe os dedos dos pés.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. A foice pareceu
vibrar levemente. Borgus esperava a risada, o escárnio, ou o golpe final. Mas o
rapaz, em sua indiferença suprema, apenas olhou para os próprios pés e depois
para o velho.
— Isso lhe dá prazer? — perguntou, a voz sem
julgamento, apenas curiosidade anatômica.
— Mais que qualquer rima — confessou Borgus, evocando
em pensamento o fantasma de Glauco, sorrindo de sua própria perversão. — É onde
a alma tangencia a terra, nos pés, no chulé, no suor. É o fetiche da humilhação
e da adoração cega.
A Morte, com um dar de ombros que parecia uma montanha
desmoronando, sentou-se em uma poltrona gasta. Cruzou as pernas e estendeu o pé
direito para Borgus.
Borgus ajoelhou-se. O chão rangia sob seu peso. Ele
aproximou o rosto do pé do rapaz. O cheiro não era de decomposição, como
imaginara, mas de terra molhada, de raiz exposta, de couro novo. Um cheiro de
princípio, não de fim.
Com uma reverência que nenhum editor jamais recebera,
Borgus começou. Primeiro, os lábios roçaram o calcanhar, firme e frio. Depois,
a língua, traçando o contorno dos dedos perfeitos. O rapaz mantinha os olhos
abertos, observando a cena como quem assiste ao crescimento de um fungo.
Borgus não teve pressa. Ele lambeu, chupou, mordiscou
cada dedo com uma devoção que nunca tivera por musa alguma. Ele sentia a
textura da pele, a curva das unhas, a leve humidade que começava a se formar.
Ele gozava com o cheiro, com o gosto de poeira e eternidade que emanava daquele
pé.
A Morte, no entanto, não permaneceu impassível.
Lentamente, a respiração do rapaz tornou-se pesada, rítmica. Seus olhos, antes
vazios, dilataram-se. A indiferença deu lugar a uma surpresa orgânica. Ele
agarrou os braços da poltrona. A foice balançou perigosamente.
E então, aconteceu. Com um gemido que soou como o
ranger de uma porta de catacumba se abrindo, o rapaz teve um orgasmo. Um jato
de esperma, branco e denso, espalhou-se pela face de Borgus, misturando-se com
as lágrimas de prazer e a saliva que cobria o pé da Morte.
Borgus, com o rosto lambuzado e o olhar turvo de
êxtase, levantou a cabeça. O rapaz estava ofegante, a beleza fria agora
ruborizada. Ele olhou para Borgus, depois para o próprio esperma na face do
velho.
Um sorriso lento, quase humano, formou-se nos lábios da
Morte.
— Você tem talento — disse ele, a voz agora com uma
vibração que não existia antes. — Mais talento que em seus poemas banais.
Borgus esperava o golpe. Ele estava pronto.
— Escute bem, Borgus — continuou o rapaz, recuperando a
compostura, embora seus olhos ainda brilhassem com o resquício do prazer. — Eu
lhe darei mais tempo. Mais anos para tentar escrever algo que preste.
O coração de Borgus saltou no peito.
— Mas com uma condição — o rapaz baixou a voz,
tornando-a séria e exigente. — Você deve prometer. Em todas as minhas visitas.
Sempre que a campainha tocar rítmica, três vezes. Você deve estar pronto.
Ajoelhado. Sem fardas, sem musas, sem metáforas. Apenas sua língua e meus pés.
E mais do que isso: você deve lamber a sola, os calcanhares, entre os dedos.
Tudo. Em estilo Glauco Mattoso. Promete?
Borgus, o velho autor, o poeta da alma agora refém do
corpo, olhou para os pés da Morte, ainda húmidos, e depois para o rapaz. Ele
não precisava pensar. Ele não precisava de tempo.
— Prometo — disse Borgus, a voz firme e límpida, com a
certeza de quem acabara de encontrar sua verdadeira vocação. — Com prazer.
O rapaz sorriu novamente, um sorriso que parecia uma
promessa e um aviso. Pegou sua foice e, com um movimento que não deslocou o ar,
desapareceu. A campainha não tocou para sua saída. O apartamento voltou ao
silêncio. Borgus, sozinho, pegou sua caneta e, com a esperma da Morte ainda
secando em sua face, começou a escrever seu primeiro soneto verdadeiramente
vivo. Um soneto sobre pés.
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