segunda-feira, 23 de março de 2026

Canto do Cálice de Obsidiana

 Canto do Cálice de Obsidiana

Tragam o vinho negro

do corpo dela,

donzela de trombas


e eu vou tomá-la

por meu amor

sob o signo do touro.



Nota ad annotandum

“O vinho negro não é o mero suco da uva, mas o melas oinos de Homero, o sangue da terra que os dóricos chamavam de mysterion. A 'donzela de trombas' (cf. as terracotas de Cnossos, nível III) não é uma aberração teratológica, mas o arquétipo da Potnia Theron — a senhora das feras. O som da tromba é o nómos da caçada cósmica. Quando o corpo se torna o cálice, a 'tomada' por amor não é posse burguesa, mas a metanoia neoplatônica: o sujeito sendo devorado pelo objeto. Ver também Cavalcanti, Donna mi Prega, sobre a natureza do acidente que se torna substância no ato da visão. A precisão da imagem é tudo o que resta contra a usura do espírito.”

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