O Altar de Vidro
Um feitiço de tintas
mancha a tarde de canela;
o sol busca, nas sombras,
o rosto de uma donzela.
Sobre as Madalenas eternas,
o tempo deixa de ser;
no sol das laranjas ocultas,
o brilho quer se esconder.
A Lição do Meio-Dia
Um riacho de amores
passa por debaixo da mesa;
o professor de filosofia ensina
a gramática da incerteza.
Diz de coisas do sol, sal,
e dessas pedras belas:
que o saber é um cavalo morto
diante das estrelas.
Vou abusar do seu sonho,
sem medo do despertar;
com as mãos cheias de musgo
e o silêncio de luar.
A Pomar de Vênus
Nada está perdido,
nem o grito, nem o cio;
sob a luz do equador
bebe a sede do rio.
Nessas frutas ninfomaníacas
que o Brasil faz explodir,
o açúcar é uma faca
pronta para nos abrir.
Cantam polpas de veludo
e caroços de marfim;
o mundo se entrega todo
neste banquete sem fim.
O Oráculo do Pomar
A inglesa fruta disse:
— Nothing is lost.
E o vento, que é um alfaiate,
lhe deu um botão de geada.
Três vezes, a lua treme,
três vultos passam no muro;
três tigres tristes bebem
o leite do escuro.
Diz o eco na varanda:
— Nothing is lost.
Mas os tigres perdem as listras
no frio de cada poste.
A Cantiga do Abismo
O fundo do mar, eu digo,
tem cavalos de papel;
galopam ondas de vidro
sob um imenso chapéu.
Eu vi, entre as algas mudas,
as crinas de um carrossel;
eu vi as guitarras desse céu
dedilhadas pelo mel.
Seis cordas de nuvem fria
vibram na palma da mão;
o peixe vira harmonia,
o vento, uma oração.
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