quarta-feira, 25 de março de 2026

O Altar de Vidro...

 O Altar de Vidro

Um feitiço de tintas

mancha a tarde de canela;

o sol busca, nas sombras,

o rosto de uma donzela.


Sobre as Madalenas eternas,

o tempo deixa de ser;

no sol das laranjas ocultas,

o brilho quer se esconder.



A Lição do Meio-Dia

Um riacho de amores

passa por debaixo da mesa;

o professor de filosofia ensina

a gramática da incerteza.


Diz de coisas do sol, sal,

e dessas pedras belas:

que o saber é um cavalo morto

diante das estrelas.


Vou abusar do seu sonho,

sem medo do despertar;

com as mãos cheias de musgo

e o silêncio de luar.



A Pomar de Vênus

Nada está perdido,

nem o grito, nem o cio;

sob a luz do equador

bebe a sede do rio.


Nessas frutas ninfomaníacas

que o Brasil faz explodir,

o açúcar é uma faca

pronta para nos abrir.


Cantam polpas de veludo

e caroços de marfim;

o mundo se entrega todo

neste banquete sem fim.




O Oráculo do Pomar

A inglesa fruta disse:

— Nothing is lost.

E o vento, que é um alfaiate,

lhe deu um botão de geada.


Três vezes, a lua treme,

três vultos passam no muro;

três tigres tristes bebem

o leite do escuro.


Diz o eco na varanda:

— Nothing is lost.

Mas os tigres perdem as listras

no frio de cada poste.



A Cantiga do Abismo

O fundo do mar, eu digo,

tem cavalos de papel;

galopam ondas de vidro

sob um imenso chapéu.

Eu vi, entre as algas mudas,

as crinas de um carrossel;

eu vi as guitarras desse céu

dedilhadas pelo mel.

Seis cordas de nuvem fria

vibram na palma da mão;

o peixe vira harmonia,

o vento, uma oração.

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