segunda-feira, 23 de março de 2026

LIVRO DE CANÇÕES



 

 




LIVRO DE CANÇÕES

 

PRIMEIRA PARTE - a melancolia das cores

 

O VELHO SAPO DO RIO

O velho sapo do rio

canta sob a lua fria.

Tem a pele de azeitona

e a alma cheia de feridas.

 

(Ai, que o rio leva a água,

ai, que a água leva a vida!)

 

Em seus olhos de ouro velho

há uma pena antiga,

de quando era um príncipe verde

e a manhã lhe sorria.

 

(O vento chora nos juncos,

a noite perdeu sua guia.)

 

Esqueceu sua canção de amor

na correnteza inimiga,

agora só reza ao lodo

uma oração de agonia.

 

(Sapo de pedra e de sombra,

sapo que o tempo castiga.)

 

A lua desenha na água

uma cruz de prata fina,

onde o velho sapo espera

sua hora derradeira.

 

(O rio canta em silêncio,

a morte chega ligeira.)

 

 

A ESTRADA DO PEQUENO CORAÇÃO AFLITO

Pela estrada do rio,

anda o meu coração ferido.

Leva uma pena de seda

e um segredo perdido.

 

Ai, que o vento chora nos juncos,

ai, que o rio leva o olvido!

 

As oliveiras prateadas

miram seu passo baldio.

A lua, monja de prata,

lhe dá um beijo frio.

 

Coraçãozinho de vidro,

que quebrou no desafio.

 

Uma estrela fugitiva

lhe roubou sua cantiga.

Agora só canta a dor

numa oração de agonia.

 

Estrada de pó e sombra,

estrada de covardia.

 

A noite veste seu manto

de luto e de maresia.

Na beira do precipício,

meu coração já não vigia.

 

O caminho se perde no escuro,

a morte chega ligeira.

 

 

A Dança da Mariposa Vermelha

Mariposa vermelha raspadinha no jardim,

Pequeno rubi de asas que tremeluz ao sol,

Teu voo é um sopro de paixão, um beijo alado,

Um mistério que se desenha no ar.

 

És um pingo de sangue que se desprendeu do coração,

Uma canção silenciosa que se eleva ao céu,

Uma labareda que arde sem queimar,

Um segredo que a natureza sussurra ao ouvido.

 

Tua beleza é efêmera, como a própria vida,

Mas tua essência é eterna, como o amor que te inspira,

És a alma que voa livre, sem medo do amanhã,

A esperança que renasce a cada amanhecer.

 

Mariposa vermelha raspadinha no jardim,

Deixa-me voar contigo, mesmo que seja em sonho,

E me ensina a dançar com a leveza das tuas asas,

Para que eu possa encontrar a liberdade que tanto anseio.

 

 

A Borboleta de Língua Rosa no Jardim

Ela sorri igual vaso de granito,

imóvel no frescor do meio-dia,

enquanto o sol, esse velho monge,

reza as horas sobre a grama fria.

 

Borboleta de língua rosa e incerta,

que busca o mel no seio das estrelas caídas,

tuas asas são dois pedaços de crepúsculo

costurados com o fio das almas perdidas.

 

Onde vais, pequena fada de veludo,

com esse riso mineral e mudo?

O jardim é um livro de orações abertas

onde o vento escreve versos de veludo.

 

Tua língua é um chicote de seda e sangue,

querendo lamber o segredo da corola,

mas a flor, com seu medo de ser amada,

fecha as pétalas e o teu destino isola.

 

Oh, borboleta! Arlequim do ar!

Teu sorriso de pedra me faz chorar,

pois és, como eu, um prisioneiro da luz,

morrendo de sede no meio do mar.

 

 

A Borboleta de Língua Azul

Dedicado a Elisa S.

 

Já foi a tarde dentro dos touros, ó triste fogo,

e o horizonte é uma ferida que não quer fechar.

O crepúsculo, esse toureiro de sombra e ouro,

deixou seu estoque de prata cravado no mar.

 

Surge então ela, a de língua azul e fria,

bebedora de luzes e de orvalhos amargos,

que voa sobre os cornos da agonia

buscando o silêncio nos jardins largos.

 

Ó borboleta de safira e de luto!

Que segredo trazes na ponta do mel?

Tua língua é um raio de gelo diminuto

que lambe as feridas que caem do céu.

 

Elisa, vê como ela dança sobre o espinho,

ignorando o sangue que o cravo verteu;

é uma alma que perdeu o seu caminho

entre o que é terra e o que já morreu.

 

Língua azul de sonho, asa de lamento,

não busques a rosa, que a rosa é cruel.

Dorme no vácuo, longe do vento,

em teu pequeno caixão de papel.

 

 

 

SEGUNDA PARTE - melancolia quase infantil

 

A Menina e a Missa do Dia

A lua brotou no céu

com ramos brancos de jasmins.

Uma lua de prata fria,

medo dos querubins.

 

A menina acorda cedo

com seu vestido de linho,

levando as mãos cheias

de medo e de passarinho.

 

Na igreja, o incenso canta

uma canção de fumaça,

e o padre, velho e cego,

reza a dor que não passa.

 

A menina fecha os olhos,

vê anjos de papelão

voando sobre o altar

com asas de oração.

 

Mas a missa é um rio escuro

onde os peixes não querem nadar,

e o coração da menina

começa a estremecer e chorar.

 

Ó lua de jasmins brancos!

Guarda o riso da menina,

antes que a missa acabe

e a vida lhe dê a ruína.

 

 

Oração para o Céu Azul

Ave, céu azul do Deus divino e eternizado eterno,

cúpula de cristal onde o vento se ajoelha para rezar.

Tu és o manto de seda que cobre o inverno

e o espelho onde o sol se esquece de brilhar.

 

Ó azul! Puríssimo sangue das manhãs,

bebo tua calma com meus olhos de sal.

Tu que guardas as vozes das velhas irmãs

e o eco perdido de um sino de cristal.

 

Lava minha alma, azul, com tua luz de frio,

tira de mim esta sombra que me quer devorar.

Sou como um barco de papel perdido no rio,

buscando em teu porto um lugar para descansar.

 

Por que te calas, ó céu, se te chamo de pai?

Por que guardas as estrelas em teus bolsos de cetim?

Enquanto a tarde, como uma rosa ferida, cai,

e o silêncio planta espinhos dentro de mim.

 

Ave, azul do Deus que não tem rosto nem voz,

abre tuas portas de nuvem e deixa-me entrar.

Pois a vida é um lobo que corre veloz atrás de nós,

e só em teu colo de luz eu poderei repousar.

 

 

O Velho Jumento na Estrada

Porque chora esse pequeno e velho jumento

parado ali na minha frente de pedras?

Com seus olhos que são duas luas gastas

pelo pó dos caminhos e pelas trevas.

 

Tem o lombo curvado como uma ponte

onde passaram todos os pecados do dia,

e suas orelhas, longas como cansaços,

escutam o que a terra, em silêncio, dizia.

 

Ó jumento de lã e de melancolia!

Irmão das formigas e das fontes frias,

quem roubou o ouro do teu pasto eterno

e te deu esta sede de mil agonias?

 

Teu pranto não tem voz, é um rio de sombra,

um sulco de prata na face de argila;

pareces um santo de gesso quebrado

que a tarde, em seu luto, por fim aniquila.

 

Tu vês o que eu vejo? O Deus das montanhas

com pés de orvalho e mãos de granito?

Ou sentes apenas o peso das pedras

que guardam o eco do teu grito aflito?

 

Pequeno jumento, filósofo manso,

não chores mais baixo que o vento no galho.

A noite te trará um manto de estrelas

e um balde de sonhos cheios de orvalho.

 

O Sertão de Adamantina

Minha cidade amada, Adamantina,

amante dos nomes és tu nesse Sertão

de fogo digno de suassunas,

onde o sol é um touro de ouro e solidão.

 

Teu nome brilha como um diamante frio

na palma da mão de um deus de argila,

enquanto a poeira, essa virgem de luto,

dança descalça e em silêncio vacila.

 

Ó terra de pedras que rezam baixinho!

Teus caminhos são veias de sangue e de sal,

onde o lagarto, esse bispo de escamas,

prega o evangelho do bem e do mal.

 

Onde estão as águas de teus olhos secos?

Onde se esconde a lua, essa noiva de cal?

Adamantina, tu és uma torre de sede

erguida no centro de um reino fatal.

 

Vem a noite com seus grilos de prata

costurar o manto do teu chão ferido,

e o vento, esse velho pastor de estrelas,

chora por um sonho que foi esquecido.

 

Cidade de fogo, de luz e de espinho,

teu nome é um grito que o céu não escuta,

mas em tuas pedras eu vejo o caminho

da alma que vence a morte na luta.

 

 

 

A Árvore

Raízes antigas, és amiga minha,

carcereira de estrelas e de orvalho friorento.

Tu bebes o sangue preto da terra

enquanto cantas com a boca do vento.

 

Ó torre de esmeralda e de cantos perdidos!

Em teus braços de pau, o dia se enforca,

e a lua, essa cigana de prata e de luto,

vem pentear os cabelos na tua copa torta.

 

Quantas almas de pássaros e de crianças

dormem no teu peito de casca ferida?

És o confessionário dos verdes segredos

e a âncora de seda da minha própria vida.

 

Eu queria ser, como tu, um santo de seiva,

parado no tempo, sem medo de andar,

com os pés afundados no beijo da lama

e a cabeça de sonhos querendo voar.

 

Mas sou apenas um rio de sombras que passa,

um grito sem eco na tarde que cai,

enquanto tu ficas, ó árvore amiga,

olhando o caminho por onde o sol vai.

 


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