LIVRO DE CANÇÕES
PRIMEIRA PARTE - a melancolia das cores
O VELHO SAPO DO RIO
O velho sapo do rio
canta sob a lua
fria.
Tem a pele de azeitona
e a alma cheia de
feridas.
(Ai,
que o rio leva a água,
ai,
que a água leva a vida!)
Em seus olhos de
ouro velho
há uma pena antiga,
de quando era um
príncipe verde
e a manhã lhe
sorria.
(O
vento chora nos juncos,
a
noite perdeu sua guia.)
Esqueceu sua canção
de amor
na correnteza
inimiga,
agora só reza ao
lodo
uma oração de
agonia.
(Sapo
de pedra e de sombra,
sapo
que o tempo castiga.)
A lua desenha na
água
uma cruz de prata
fina,
onde o velho sapo
espera
sua hora
derradeira.
(O
rio canta em silêncio,
a
morte chega ligeira.)
A ESTRADA DO
PEQUENO CORAÇÃO AFLITO
Pela estrada do
rio,
anda o meu coração
ferido.
Leva uma pena de
seda
e um segredo
perdido.
Ai, que o vento
chora nos juncos,
ai, que o rio leva
o olvido!
As oliveiras
prateadas
miram seu passo
baldio.
A lua, monja de
prata,
lhe dá um beijo
frio.
Coraçãozinho de
vidro,
que quebrou no
desafio.
Uma estrela
fugitiva
lhe roubou sua
cantiga.
Agora só canta a
dor
numa oração de
agonia.
Estrada de pó e
sombra,
estrada de
covardia.
A noite veste seu
manto
de luto e de
maresia.
Na beira do
precipício,
meu coração já não
vigia.
O caminho se perde
no escuro,
a morte chega
ligeira.
A Dança da Mariposa
Vermelha
Mariposa vermelha
raspadinha no jardim,
Pequeno rubi de
asas que tremeluz ao sol,
Teu voo é um sopro
de paixão, um beijo alado,
Um mistério que se
desenha no ar.
És um pingo de
sangue que se desprendeu do coração,
Uma canção
silenciosa que se eleva ao céu,
Uma labareda que
arde sem queimar,
Um segredo que a
natureza sussurra ao ouvido.
Tua beleza é
efêmera, como a própria vida,
Mas tua essência é
eterna, como o amor que te inspira,
És a alma que voa
livre, sem medo do amanhã,
A esperança que
renasce a cada amanhecer.
Mariposa vermelha
raspadinha no jardim,
Deixa-me voar
contigo, mesmo que seja em sonho,
E me ensina a
dançar com a leveza das tuas asas,
Para que eu possa
encontrar a liberdade que tanto anseio.
A Borboleta de
Língua Rosa no Jardim
Ela sorri igual
vaso de granito,
imóvel no frescor
do meio-dia,
enquanto o sol,
esse velho monge,
reza as horas sobre
a grama fria.
Borboleta de língua
rosa e incerta,
que busca o mel no
seio das estrelas caídas,
tuas asas são dois
pedaços de crepúsculo
costurados com o
fio das almas perdidas.
Onde vais, pequena
fada de veludo,
com esse riso
mineral e mudo?
O jardim é um livro
de orações abertas
onde o vento
escreve versos de veludo.
Tua língua é um
chicote de seda e sangue,
querendo lamber o
segredo da corola,
mas a flor, com seu
medo de ser amada,
fecha as pétalas e
o teu destino isola.
Oh, borboleta!
Arlequim do ar!
Teu sorriso de
pedra me faz chorar,
pois és, como eu,
um prisioneiro da luz,
morrendo de sede no
meio do mar.
A Borboleta de
Língua Azul
Dedicado a Elisa S.
Já foi a tarde
dentro dos touros, ó triste fogo,
e o horizonte é uma
ferida que não quer fechar.
O crepúsculo, esse
toureiro de sombra e ouro,
deixou seu estoque
de prata cravado no mar.
Surge então ela, a
de língua azul e fria,
bebedora de luzes e
de orvalhos amargos,
que voa sobre os
cornos da agonia
buscando o silêncio
nos jardins largos.
Ó borboleta de
safira e de luto!
Que segredo trazes
na ponta do mel?
Tua língua é um
raio de gelo diminuto
que lambe as
feridas que caem do céu.
Elisa, vê como ela
dança sobre o espinho,
ignorando o sangue
que o cravo verteu;
é uma alma que
perdeu o seu caminho
entre o que é terra
e o que já morreu.
Língua azul de
sonho, asa de lamento,
não busques a rosa,
que a rosa é cruel.
Dorme no vácuo,
longe do vento,
em teu pequeno
caixão de papel.
SEGUNDA PARTE
- melancolia quase infantil
A Menina e a Missa do
Dia
A lua brotou no céu
com ramos brancos de
jasmins.
Uma lua de prata
fria,
medo dos querubins.
A menina acorda cedo
com seu vestido de
linho,
levando as mãos
cheias
de medo e de
passarinho.
Na igreja, o incenso
canta
uma canção de fumaça,
e o padre, velho e
cego,
reza a dor que não
passa.
A menina fecha os
olhos,
vê anjos de papelão
voando sobre o altar
com asas de oração.
Mas a missa é um rio
escuro
onde os peixes não
querem nadar,
e o coração da menina
começa a estremecer e
chorar.
Ó lua de jasmins
brancos!
Guarda o riso da
menina,
antes que a missa
acabe
e a vida lhe dê a
ruína.
Oração para o Céu
Azul
Ave, céu azul do Deus
divino e eternizado eterno,
cúpula de cristal
onde o vento se ajoelha para rezar.
Tu és o manto de seda
que cobre o inverno
e o espelho onde o
sol se esquece de brilhar.
Ó azul! Puríssimo
sangue das manhãs,
bebo tua calma com
meus olhos de sal.
Tu que guardas as
vozes das velhas irmãs
e o eco perdido de um
sino de cristal.
Lava minha alma,
azul, com tua luz de frio,
tira de mim esta
sombra que me quer devorar.
Sou como um barco de
papel perdido no rio,
buscando em teu porto
um lugar para descansar.
Por que te calas, ó
céu, se te chamo de pai?
Por que guardas as
estrelas em teus bolsos de cetim?
Enquanto a tarde, como
uma rosa ferida, cai,
e o silêncio planta
espinhos dentro de mim.
Ave, azul do Deus que
não tem rosto nem voz,
abre tuas portas de
nuvem e deixa-me entrar.
Pois a vida é um lobo
que corre veloz atrás de nós,
e só em teu colo de
luz eu poderei repousar.
O Velho Jumento na
Estrada
Porque chora esse
pequeno e velho jumento
parado ali na minha
frente de pedras?
Com seus olhos que
são duas luas gastas
pelo pó dos caminhos
e pelas trevas.
Tem o lombo curvado
como uma ponte
onde passaram todos
os pecados do dia,
e suas orelhas,
longas como cansaços,
escutam o que a
terra, em silêncio, dizia.
Ó jumento de lã e de
melancolia!
Irmão das formigas e
das fontes frias,
quem roubou o ouro do
teu pasto eterno
e te deu esta sede de
mil agonias?
Teu pranto não tem
voz, é um rio de sombra,
um sulco de prata na
face de argila;
pareces um santo de
gesso quebrado
que a tarde, em seu
luto, por fim aniquila.
Tu vês o que eu vejo?
O Deus das montanhas
com pés de orvalho e
mãos de granito?
Ou sentes apenas o
peso das pedras
que guardam o eco do
teu grito aflito?
Pequeno jumento,
filósofo manso,
não chores mais baixo
que o vento no galho.
A noite te trará um
manto de estrelas
e um balde de sonhos
cheios de orvalho.
O Sertão de
Adamantina
Minha cidade amada,
Adamantina,
amante dos nomes és
tu nesse Sertão
de fogo digno de
suassunas,
onde o sol é um touro
de ouro e solidão.
Teu nome brilha como
um diamante frio
na palma da mão de um
deus de argila,
enquanto a poeira,
essa virgem de luto,
dança descalça e em
silêncio vacila.
Ó terra de pedras que
rezam baixinho!
Teus caminhos são
veias de sangue e de sal,
onde o lagarto, esse
bispo de escamas,
prega o evangelho do
bem e do mal.
Onde estão as águas
de teus olhos secos?
Onde se esconde a lua,
essa noiva de cal?
Adamantina, tu és uma
torre de sede
erguida no centro de
um reino fatal.
Vem a noite com seus
grilos de prata
costurar o manto do
teu chão ferido,
e o vento, esse velho
pastor de estrelas,
chora por um sonho
que foi esquecido.
Cidade de fogo, de
luz e de espinho,
teu nome é um grito
que o céu não escuta,
mas em tuas pedras eu
vejo o caminho
da alma que vence a
morte na luta.
A Árvore
Raízes antigas, és
amiga minha,
carcereira de
estrelas e de orvalho friorento.
Tu bebes o sangue
preto da terra
enquanto cantas com a
boca do vento.
Ó torre de esmeralda
e de cantos perdidos!
Em teus braços de
pau, o dia se enforca,
e a lua, essa cigana
de prata e de luto,
vem pentear os
cabelos na tua copa torta.
Quantas almas de
pássaros e de crianças
dormem no teu peito
de casca ferida?
És o confessionário
dos verdes segredos
e a âncora de seda da
minha própria vida.
Eu queria ser, como
tu, um santo de seiva,
parado no tempo, sem
medo de andar,
com os pés afundados
no beijo da lama
e a cabeça de sonhos
querendo voar.
Mas sou apenas um rio
de sombras que passa,
um grito sem eco na
tarde que cai,
enquanto tu ficas, ó
árvore amiga,
olhando o caminho por
onde o sol vai.
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