Muros de fogo
Muros de fogo galopam
pelo capinzal de ouro.
A tarde, ferida de luz,
bebe a água sagrada do tesouro.
Línguas de brasa lambendo
o silêncio do besouro.
Morre o campo, nasce a noite,
com chifres de um negro touro.
Canção tropical sem estilo algum
Seios de maracujá,
na rede do meio-dia.
Ardem, arde o corpo dele,
com febre de ventania.
Arde o corpo dela agora,
em polpa de agonia.
Semente negra no peito,
que a noite fria vigia.
Mulher negra
Mulher negra, vento e mar,
corpo negro de cavalo.
Luz que açoita a crina d'água,
sem rédeas para domá-lo.
Galopa a espuma no ventre,
solta no mar do seu estalo.
Em cada pata uma onda,
em cada anca um abalo.
A delicadeza da cor e a brutalidade da lâmina
Essa espada rosa, grande,
dura de rosa e de vento.
Da linhagem de Musashi,
bebe o sol do pensamento.
Rosa de ferro antigo,
no punho do sofrimento.
Corta a sombra do guerreiro,
parando o tempo no assento.
Missa escura
Seios de maracujá,
na missa escura do corpo.
Ouro e sementes rezam,
o terço de um sonho morto.
Belos em sua agonia,
no altar do desconforto.
Bebem a sombra da igreja,
buscando no mar um porto.
Ritual poético
Isso é uma nádega:
descendo e subindo.
Não, não é não:
é um coração abrindo.
Em sua malha redonda,
o mel vai se repetindo.
O pulso de uma lua,
que o desejo vai fundindo.
Paisagem do vento
No vento sexual do leste,
galopam garras de luz.
Moinhos de sexo descem,
onde o celeste seduz.
Giram as pás da luxúria,
que o horizonte conduz.
Moendo o trigo da noite,
na sombra que se traduz.
A forma geométrica do fruto
Seios tão formosos, Elisa,
em sua redonda luz.
Quanto a formosura do limão,
que o galho da tarde conduz.
Tens o amargo do orvalho,
na polpa que nos seduz.
Cúspide de aroma frio,
onde o desejo se faz cruz.
Engrenagem agridoce
Mulher centaura de barro,
galopa o ciclo da laranja.
O gomo do sol se parte,
na crina que o vento arranja.
Sua garupa é de casca,
onde a doçura se esbanja.
Morre a flor de laranjeira,
na tarde que a vida franja.
Borboletas no casulo
Borboletas no casulo,
dos beijos que nos prendem.
Nosso altar de poeta,
onde as velas se acendem.
Nosso amor eterno,
que as sombras não compreendem.
Asas de pó e de morte,
que ao infinito se estendem.
Canção boba de um sentimental adamantinense
Máquinas do corpo,
engrenagens de agonia.
Porque choram meus olhos,
de luar frio e sangria?
Azeite de prata escorre,
na engrenagem vazia.
Onde o metal soluça,
o que a alma não diria.
Encerramento geográfico
Adamantina, meu túmulo,
geometria de sal.
Minha cidade de lodo,
meu berço de cristal.
Onde a terra me espera,
com sua pá de metal.
Enterrando o meu nome,
no campo do laranjal.
O Corpo no Ar
De onde vem esse corpo nu
E moreno, sob a luz do sul?
Dançando, dançando no ar,
Sereno como o balanço do mar.
Latino, latina, puro fogo,
De mel divino e um doce jogo.
Corpo cheio de amanhecer,
Que faz a vida enfim valer.
Pomar de Desejo
Seios de maracujá,
Maduros melões no olhar.
Quero chupar a doçura,
Dessa fruta sem medida.
Na mesa da vida, o sabor,
De um corpo feito de cor.
Natureza que se oferece,
Onde a fome enfim esquece.
A visão andaluziana
Quem é aquela formosa andaluz,
Que vem nua, banhada de luz?
Traz limões de fogo na mão,
Ardendo em pura tentação.
É a virgem das sete espadas,
Em carnes vivas e consagradas.
Com seus duros seios castanhos,
Alheia aos olhos de estranhos.
O Banquete
Duas travestis e uma mulher,
A vida é o que a carne quer.
O banquete que era de dois,
Numa só se tornou depois.
Luxúria que invade as janelas,
Entre sombras e luzes belas.
Beleza que enfim assisti,
No silêncio que guardo aqui.
O Encontro na Água
Ela sempre quis conhecer,
A travesti que viu nascer.
Morena, pequena e então,
Na piscina, a revelação.
Experimentaram-se ali,
Na doçura eterna que vi.
Doce corpo, doce amor,
Sem pecado e sem pudor.
O Desejo e o Tempo
Vi seu corpo e quis tocá-lo,
Num silêncio de quem vai amá-lo.
Morri de desejos por ti,
Na agonia de tudo o que vi.
Ó juventude desperdiçada,
Nessa noite longa e calada.
O que se perdeu pelo chão,
Não volta mais ao coração.
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