O Chá da Ilusão
Grave e solene, a turba se concentra,
Sob o brilho de um lustre de cristal;
A vaidade, em casaca, ali adentra,
Buscando a glória, esse engodo imortal.
O bule verte o chá, límpido e mudo,
Enquanto o verbo adorna a polidez;
Discute-se o nada, o pouco e o tudo,
Na fímbria de uma estéril lucidez.
Ó pomba das letras, que em voo mofino,
Julgas tocar o azul do firmamento,
Presa ao rito de um chá vespertino...
Não vês, na paz deste salão risonho,
Que a imortalidade é só um momento,
E o fardão... a mortalha de um sonho?
O Cemitério dos Vivos
Lá estão eles, os "doutos" da cidade,
Empanturrados de tédio e de torrada,
Vendendo a peso de ouro a falsidade,
Enquanto o povo morre na calçada!
Pomba de gesso! De asa engomada!
Que ignora o subúrbio e o cortiço,
Tua elite de farda, enclausurada,
Faz da cultura um pálido serviço.
Bebam seu chá! Mastiguem sua glória!
Enquanto eu sigo, só, na minha mágoa,
Fora dos anais desta falsa história.
Pois minha pena, de sangue e de lama,
Não busca o brilho que se apaga na água,
Mas a verdade de quem sofre e clama!
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