segunda-feira, 23 de março de 2026

Canções Puristas

 


ALGUMAS NOITES

Noite Cega

As sombrias vozes

de pássaros inúteis,

vão tecendo um labirinto

sobre o vento.


Noite de cal e sombra,

sem estrelas brancas,

onde o grito se torna

uma oliveira de prata negra.


Noite Imóvel

Pelas alamedas do desejo,

tua nádega de elevada negritude

é um arco de lua sitiada

por formigas de sono.


Marfim escuro que treme

sob o tato da sombra;

geométrica solidão onde o sangue

busca o seu norte de lírios.



Noite branca

Já sobem os guarda-chuvas 

                   de estrelas humanas,

abertos sobre o silêncio da praça,

enquanto o touro de corpo nu

busca a aurora na garganta  de prata.


Não quero ver a lua de pedra!

Que as estrelas humanas cubram o pranto,

pois o touro nu já não tem sombra,

apenas o gume de um sol que se apaga.




VOZES DO AMOR QUE SE FOI

A Visão na Areia

Seus olhos azulados são verdes,

como um pântano de guitarras mortas.

E a luz não sabe por onde entrar

nesta ferida de cal e de vento.


Lua, lua,

grita a praça em silêncio.

Negra, negra, negra,

corre a alma do touro pela sombra.



Canção do Vento Amargo

Mas há nesse suspiro

de duende,

verde, verde, verde,

um rio frio de seda.


O ar se quebra

em gemidos,

verde, verde, verde,

entre os juncos da agonia.



Desejo Amargo

Cavalinho de metal.

Fogo de chumbo

no teu corpo.


Luar na laranjeira.

Mel de abelhas

para o meu.


Ah, que dor de cal

entre o chumbo e o mel!



Cantiga da Ausência

Fuga do amor

pela escada do vento.

Coração, não chore,

que o dia é de seda...


Olha o horizonte:

o sol é um seio

amarelo, belo,

nutrindo o silêncio...!



CANÇÕES PURISTAS

 em memória de jorge guillén 


Cantiga do Cavaleiro Rígido

Sobre a ponte do rio,

teu chapéu duro

guarda o segredo

do meu murmúrio.


Porque te quero!

(Diz a água ao muro).

Porque te amo!

(Diz o ar escuro).


Porque te adoro!

Grita o meu sangue,

contra o silêncio

do teu chapéu duro.



Canção da Lua Cigana

No telhado de prata,

                       a velha lua

estende o seu manto

pela rua.


Tem boca de cobre

— brilho de brasa 

para sorrir

para as ciganas—

que fogem de casa.



Ritmo de Mel e Areia

Amor,

traz teu corpo negro de Cuba.


Vem com o balanço das palmeiras

e o silêncio da cana-de-açúcar,

que o vento da Andaluzia

quer bordar tua cintura.


Canta comigo

o mel do espanhol molho branco.

Uma canção de cal e trigo,

um verso de lua e espanto.


Tua voz é um sulco de sombra

no brilho do meio-dia;

meu canto é um pranto de seda

que em teu peito se perdia.


Amor,

teu corpo negro de Cuba

e o mel de um molho branco.

A noite se torna verde

sobre os muros do barranco.



O Olhar Pleno

Morte, te nego.

O mundo é curva, é areia, é brio.

Neste ar que se levanta,

o tempo é um cristal vazio.


Porque quero olhar,

sem a mancha da dor no fundo,

com esse olhar sem súplica

que inventa de novo o mundo.


Sem o peso do suplício,

neste sol que se faz guia,

contemplo a forma exata:

minha amada judia.


Tudo é agora. O instante

não aceita tua medida.

Nego o teu vácuo, Morte,

pelo rigor da vida!


A Solidão das Escamas

Memória,

não és luz, mas o peso da terra sobre as pálpebras,

um rio seco onde os peixes são pedras de mágoa.

Neste abandono de raízes e de astros vencidos,

vou chorar minhas lágrimas de lagarto preto.


São gotas de sombra, densas como o sangue dos minerais,

caindo sobre as folhas que já não sabem o que é o vento.

Sou um corpo que se arrasta, uma pele de silêncio

que busca o calor de um sol que já se apagou.


Nesse jardim solitário,

onde as estátuas têm sede e as flores são gritos parados,

minha dor é uma escama fria sob o brilho da lua.

Choro o que se foi, enquanto a terra me devora devagar,

nesta comunhão de lodo, de escuro e de memória.

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