ALGUMAS NOITES
Noite Cega
As sombrias vozes
de pássaros inúteis,
vão tecendo um labirinto
sobre o vento.
Noite de cal e sombra,
sem estrelas brancas,
onde o grito se torna
uma oliveira de prata negra.
Noite Imóvel
Pelas alamedas do desejo,
tua nádega de elevada negritude
é um arco de lua sitiada
por formigas de sono.
Marfim escuro que treme
sob o tato da sombra;
geométrica solidão onde o sangue
busca o seu norte de lírios.
Noite branca
Já sobem os guarda-chuvas
de estrelas humanas,
abertos sobre o silêncio da praça,
enquanto o touro de corpo nu
busca a aurora na garganta de prata.
Não quero ver a lua de pedra!
Que as estrelas humanas cubram o pranto,
pois o touro nu já não tem sombra,
apenas o gume de um sol que se apaga.
VOZES DO AMOR QUE SE FOI
A Visão na Areia
Seus olhos azulados são verdes,
como um pântano de guitarras mortas.
E a luz não sabe por onde entrar
nesta ferida de cal e de vento.
Lua, lua,
grita a praça em silêncio.
Negra, negra, negra,
corre a alma do touro pela sombra.
Canção do Vento Amargo
Mas há nesse suspiro
de duende,
verde, verde, verde,
um rio frio de seda.
O ar se quebra
em gemidos,
verde, verde, verde,
entre os juncos da agonia.
Desejo Amargo
Cavalinho de metal.
Fogo de chumbo
no teu corpo.
Luar na laranjeira.
Mel de abelhas
para o meu.
Ah, que dor de cal
entre o chumbo e o mel!
Cantiga da Ausência
Fuga do amor
pela escada do vento.
Coração, não chore,
que o dia é de seda...
Olha o horizonte:
o sol é um seio
amarelo, belo,
nutrindo o silêncio...!
CANÇÕES PURISTAS
em memória de jorge guillén
Cantiga do Cavaleiro Rígido
Sobre a ponte do rio,
teu chapéu duro
guarda o segredo
do meu murmúrio.
Porque te quero!
(Diz a água ao muro).
Porque te amo!
(Diz o ar escuro).
Porque te adoro!
Grita o meu sangue,
contra o silêncio
do teu chapéu duro.
Canção da Lua Cigana
No telhado de prata,
a velha lua
estende o seu manto
pela rua.
Tem boca de cobre
— brilho de brasa
para sorrir
para as ciganas—
que fogem de casa.
Ritmo de Mel e Areia
Amor,
traz teu corpo negro de Cuba.
Vem com o balanço das palmeiras
e o silêncio da cana-de-açúcar,
que o vento da Andaluzia
quer bordar tua cintura.
Canta comigo
o mel do espanhol molho branco.
Uma canção de cal e trigo,
um verso de lua e espanto.
Tua voz é um sulco de sombra
no brilho do meio-dia;
meu canto é um pranto de seda
que em teu peito se perdia.
Amor,
teu corpo negro de Cuba
e o mel de um molho branco.
A noite se torna verde
sobre os muros do barranco.
O Olhar Pleno
Morte, te nego.
O mundo é curva, é areia, é brio.
Neste ar que se levanta,
o tempo é um cristal vazio.
Porque quero olhar,
sem a mancha da dor no fundo,
com esse olhar sem súplica
que inventa de novo o mundo.
Sem o peso do suplício,
neste sol que se faz guia,
contemplo a forma exata:
minha amada judia.
Tudo é agora. O instante
não aceita tua medida.
Nego o teu vácuo, Morte,
pelo rigor da vida!
A Solidão das Escamas
Memória,
não és luz, mas o peso da terra sobre as pálpebras,
um rio seco onde os peixes são pedras de mágoa.
Neste abandono de raízes e de astros vencidos,
vou chorar minhas lágrimas de lagarto preto.
São gotas de sombra, densas como o sangue dos minerais,
caindo sobre as folhas que já não sabem o que é o vento.
Sou um corpo que se arrasta, uma pele de silêncio
que busca o calor de um sol que já se apagou.
Nesse jardim solitário,
onde as estátuas têm sede e as flores são gritos parados,
minha dor é uma escama fria sob o brilho da lua.
Choro o que se foi, enquanto a terra me devora devagar,
nesta comunhão de lodo, de escuro e de memória.
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