A Liturgia
Quem sabe
tenhas negado a suprema beleza de sorver a flecha carnal, esse dardo que
atravessa a sucessão dos séculos para ancorar-se no centro da nossa finitude.
Por essa recusa, o que te resta é apenas uma aresta barata, um aço desprovido
da nobreza do metal, que conferiu aos teus olhos azuis a excelência de um
espanhol ancestral, cujas pupilas ainda guardam o pó das planícies de Castela e
o rigor das armaduras oxidadas pelo tempo. Habita em ti o barroco angustiante
da morte, uma estética de sombras onde a alma se retorce para alcançar um Deus.
É esse o
sentimento essencial: o de reclamar a mulher fêmea, aquela que se oferece em
carícias desnecessárias e transbordantes, enquanto o teu fado te empurra para
os beijos de uma mulher aranha, tecendo uma teia de abstinências, sem o sabor
do açúcar nem o desespero do sal. Negaste a opulência do toque para te perderes
em labirintos de uma assepsia que o coração desconhece.
Tua vida
tornou-se, talvez, a porta solene para esse encontro angustiante com mortas
krishnamurtianas, figuras que flutuam em uma espiritualidade desnatada,
desprovidas da urgência do sangue que outrora banhou as nossas estirpes. É o
destino insosso daqueles que temem o suor e a saliva, preferindo o vácuo de uma
iluminação que não queima as mãos.
Ficaste à
margem do épico, prisioneiro de uma linhagem que esqueceu como se devora a
vida. Carregas o peso dessa herança como um manto de chumbo, enquanto a
verdadeira história — aquela escrita com o fluido das paixões e o rigor da
carne — transcorre do lado de fora das tuas pálpebras cerradas, onde o mundo
ainda clama por um pouco de pão, de sexo e de glória.
Nenhum comentário:
Postar um comentário