segunda-feira, 23 de março de 2026

A Liturgia

 

A Liturgia

Quem sabe tenhas negado a suprema beleza de sorver a flecha carnal, esse dardo que atravessa a sucessão dos séculos para ancorar-se no centro da nossa finitude. Por essa recusa, o que te resta é apenas uma aresta barata, um aço desprovido da nobreza do metal, que conferiu aos teus olhos azuis a excelência de um espanhol ancestral, cujas pupilas ainda guardam o pó das planícies de Castela e o rigor das armaduras oxidadas pelo tempo. Habita em ti o barroco angustiante da morte, uma estética de sombras onde a alma se retorce para alcançar um Deus.

É esse o sentimento essencial: o de reclamar a mulher fêmea, aquela que se oferece em carícias desnecessárias e transbordantes, enquanto o teu fado te empurra para os beijos de uma mulher aranha, tecendo uma teia de abstinências, sem o sabor do açúcar nem o desespero do sal. Negaste a opulência do toque para te perderes em labirintos de uma assepsia que o coração desconhece.

Tua vida tornou-se, talvez, a porta solene para esse encontro angustiante com mortas krishnamurtianas, figuras que flutuam em uma espiritualidade desnatada, desprovidas da urgência do sangue que outrora banhou as nossas estirpes. É o destino insosso daqueles que temem o suor e a saliva, preferindo o vácuo de uma iluminação que não queima as mãos.

Ficaste à margem do épico, prisioneiro de uma linhagem que esqueceu como se devora a vida. Carregas o peso dessa herança como um manto de chumbo, enquanto a verdadeira história — aquela escrita com o fluido das paixões e o rigor da carne — transcorre do lado de fora das tuas pálpebras cerradas, onde o mundo ainda clama por um pouco de pão, de sexo e de glória.

 

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