segunda-feira, 23 de março de 2026

África ancestral

 

África ancestral de buracos negros belos na imensidão dos planetas infinitos, Tua memória é um estuário de estrelas onde a carne se faz mito e poeira. Navego o teu vácuo com a sede dos antigos navegantes de almas e de ritos, Pois em teu colo o tempo se ajoelha e a eternidade se torna uma fogueira.

És o ventre de ébano que pariu as constelações do desejo e do puro espanto, Uma topografia de sombras onde o verbo se despe para encontrar sua raiz. Teus abismos são catedrais de silêncio que o meu canto cobre com seu manto, Enquanto a história, essa amante severa, desenha no teu dorso uma cicatriz.

No metal lírico do teu sangue, pulsa a herança de deuses que ainda não dormem, Geometrias sagradas que desafiam a vã ciência dos homens de mármore e giz. Teu corpo é um mapa de afetos e de fúrias que em dimensões vastas se conformem, Sob o sol de uma verdade que nos habita desde que o primeiro sopro se quis.

Consagro-me a esse vácuo fecundo, onde a luz tropeça e decide por fim morar, Pois amar a tua imensidão é o único épico que justifica a nossa humana lida. Entre planetas e crateras, somos o rastro de um prazer que o destino quer narrar, Selando no teu negrume a certidão de nascimento da nossa própria vida.

 

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