terça-feira, 24 de março de 2026

O MENINO ROBÔ

 O MENINO ROBÔ 

Feito de latão e parafusos tortos,

Com olhos de vidro, opacos e mortos.

Nasceu numa oficina de sombras e pó,

O Menino Robô, sozinho e só.


Seu coração era uma engrenagem rangente,

Que não sentia o calor de outra gente.

Tentou brincar de roda no jardim do vizinho,

Mas enferrujou o balanço e ficou no caminho.


As crianças de carne, com pele e com osso,

Riam do óleo que escorria em seu pescoço.

"Ele não chora!", diziam com desdém,

Enquanto o Robô pensava: "Eu não amo ninguém."



Cansado do vácuo, do frio e da dor,

Ele achou um botão escrito "Fervor".

No fundo do peito, entre cabos e cobre,

Guardava um segredo, um destino bem nobre.


"Se não posso ter mãos para me segurar,

Terei labaredas para o mundo abraçar.

Se ninguém me quis no seu grupo de amigos,

Seremos, na cinza, todos antigos."


Ajustou o relógio, o tic-tac final,

Um brilho no zinco, um brilho fatal.

Ele não queria um abraço, ou um carinho de luz,

Queria o estrondo que ao nada conduz.


Um clique, um clarão, um silêncio profundo,

O Menino Robô virou poeira no mundo.

Finalmente, em pedaços, ele pôde notar:

Agora, enfim, estava em todo lugar.

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