terça-feira, 24 de março de 2026

O Coro dos Outros

 O Vazio de Ser

Não sou ninguém, para que sê-lo?

O ser é um peso, o nada é um pelo.


O que eu seria se fosse alguém?

Apenas o rastro que a sombra tem.


Passa a vida sem me encontrar,

Sou o silêncio que aprendeu a falar.


Para que a máscara de um rosto meu?

Se o próprio sonho já me esqueceu.



O Gole do Abismo

Sentimental e triste, sim, sou isso,

Desta vida fútil, sou o chouriço.


E acabo de por a Coca-Cola,

Pescoço abaixo, enquanto a hora enrola.


O gás que sobe é um pensamento,

Um breve alívio no meu tormento.


Bebo o xarope do mundo moderno,

Sentindo o frio de um vazio eterno.


O Traje do Sentir

Me chamaram de melancólico,

Nesse tom vago e simbólico.

Sei lá que isso possa ser,


Além de um modo de sofrer.

Eu que ando de chapéu e preto,

Guardo o meu próprio segredo.

A cor de fora é o que se vê,

O que eu sou, ninguém lê.



O Coro dos Outros

Canções do que sou, nem quero ouvi-las,

Prefiro o escuro de não senti-las.


Vão pro inferno quem de mim falou,

Pois ninguém sabe por onde eu vou.


O que dizem é fumo e poeira,

Uma mentira de vida inteira.


Fico comigo, no meu cansaço,

Fechando a porta de cada passo.



O Corpo Obstáculo

Se eu não tivesse medo juro que me mataria,

Pois a alma se cansa da monotonia.


Mas tenho essa carne fraca e sem vigor,

Que treme diante da sombra do horror.


E sou cheio de azia, esse mal banal,

Que torna o meu drama algo quase cômico.


O universo é vasto, mas o meu tormento

É um refluxo amargo em cada momento.



A Bênção do Fingidor

Deus me abençoou com as mentiras,

Nas cordas falsas de tantas liras.


Mas sei lá quem sou, nesta confusão,

Sou apenas o eco de uma negação.


Se minto, é para poder me sentir,

Pois a verdade é um modo de partir.


Habito em faces que não são minhas,

Escritas em tortas e vãs entrelinhas.



A Sinceridade do Sentir

Ah, beijei travesti, e amei travecos,

Longe do mundo e seus bonecos.


Fiz sim, isso, sem nenhum medo,

Pois não sou feito de nenhum segredo.


Pois sou de certo homem sincero,

E vivo a vida do modo que quero.


O amor é vago, a carne é plural,

No meu destino que não é igual.



O Vulto da Pergunta

Houve a pergunta no silêncio escuro,

Como um segredo que não está seguro.


Se eu gostava de bonecas, foi dito,

Num tom de voz que parece um rito.


Mas quem perguntou sumiu nos muros,

Deixando os meus passos mais inseguros.


Ficou o vácuo de quem não responde,

E a sombra do ser que agora se esconde.

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