quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Os Judeus da Índia: Ensaio sobre Permanência, Adaptação e Hierarquia

Há povos que atravessam os séculos como viajantes inquietos, sempre em trânsito, sempre estrangeiros; e há aqueles que, mesmo estrangeiros de origem, acabam por se enraizar tão profundamente na terra que os acolhe que se tornam parte orgânica do seu solo, do seu cheiro, da sua cor. Os judeus da Índia — especialmente os de Cochim — pertencem a essa segunda categoria: não são apenas judeus no exílio, mas judeus tropicalizados, indianizados, moldados pelo monção, pelo tempero, pela ordem social do Malabar.

Câmara Cascudo, observador atento das permanências culturais, via nessa comunidade uma prova viva de que a história não se escreve apenas nos centros imperiais, mas sobretudo nas margens, nos portos secundários, nas zonas onde o tempo parece correr mais devagar. Para ele, a Índia funcionava como um grande arquivo vivo, um conservatório de gestos e ritos que o Ocidente, com sua pressa moderna, esqueceu ou apagou.

Não lhe escapava o fascínio pela antiguidade quase mítica dessa presença judaica. A possibilidade — lendária, mas persistente — de contatos desde o tempo de Salomão não era, para Cascudo, mero devaneio orientalista, mas expressão de uma verdade mais profunda: a vocação marítima do judaísmo antigo e sua inserção precoce nas rotas do comércio do Índico. Mais segura, porém, era a memória da chegada após a destruição do Segundo Templo, quando a diáspora se espalhou como sementes lançadas em diferentes solos, germinando conforme o clima e a cultura de cada lugar.

E foi justamente esse processo de germinação cultural que mais interessou ao etnógrafo potiguar. Em Cochim, o judaísmo não se manteve intacto como peça de museu; adaptou-se, mimetizou-se, vestiu-se de Índia. Falava-se o judaico-malaiala, cozinhava-se com coco e especiarias sob a vigilância da Cashrut, celebravam-se festas hebraicas em casas cuja arquitetura obedecia aos padrões locais. A religião permanecia; o corpo social, entretanto, transformava-se.

Talvez o aspecto mais revelador dessa adaptação — e aqui Cascudo se aproxima do método comparativo de Gilberto Freyre — seja a divisão interna da comunidade entre judeus pretos e judeus brancos. Não se trata apenas de uma distinção de origem ou de cor, mas de uma verdadeira estratificação social, uma transposição quase inconsciente do sistema de castas indiano para dentro de uma religião que, em tese, proclama a igualdade dos filhos de Israel perante a Lei.

Os judeus malabari, antigos, escurecidos pelo sol e pelo cruzamento secular com populações locais, eram vistos como inferiores pelos judeus paradesi, recém-chegados da Europa ou do Oriente Médio, portadores de um prestígio associado à brancura, à erudição rabínica e à memória ibérica. A sinagoga, espaço do monoteísmo, tornava-se também espaço de hierarquia, onde o meio tropical e a ordem social indiana impunham sua lógica silenciosa.

Cascudo via nesse fenômeno não um desvio moral, mas um dado sociológico: nenhuma religião atravessa os séculos imune ao ambiente que a acolhe. Assim como o catolicismo brasileiro se africanizou e se indianizou nos engenhos e nas senzalas, também o judaísmo de Cochim se deixou moldar pela Índia, absorvendo suas divisões, seus códigos de pureza e sua noção quase orgânica de lugar social.

Há, nesse olhar, uma ausência quase total de julgamento teológico. O judeu da Índia interessa a Cascudo não como guardião da ortodoxia, mas como testemunho humano da resistência cultural. Ele é, ao mesmo tempo, fóssil e organismo vivo: conserva ritos antiquíssimos, mas respira o ar quente do Malabar, come sua comida, fala sua língua, aceita — ainda que com desconforto — suas hierarquias.

Não é casual que Cascudo, sempre atento às margens do Brasil colonial, buscasse conexões invisíveis entre esses judeus da Índia e os cristãos-novos do Nordeste. Em ambos, ele percebia uma mesma lógica de sobrevivência: a fé que se oculta, se adapta, se disfarça, mas não desaparece; a tradição que resiste não pela rigidez, mas pela flexibilidade.

Quando, já no século XX, essas comunidades começam a esvaziar-se, migrando para Israel, Cascudo registra não apenas um deslocamento demográfico, mas uma perda cultural irreparável. Não desaparece apenas um grupo humano; dissolve-se uma forma singular de ser judeu, moldada por dois milênios de convivência com a Índia.

O judeu de Cochim, nesse sentido, não é apenas personagem da história judaica ou indiana. É um documento vivo da capacidade humana de permanecer sendo outro sem deixar de ser si mesmo. Um lembrete — caro tanto a Cascudo quanto a Freyre — de que a cultura não é pureza, mas mistura; não é isolamento, mas convivência prolongada com o diferente.

Clero do Charco


Ó jesuítas, vermes de torpe seita, 

Vossa matéria pútrida, em vil infecção, 

Corrompe a essência, a fé já desfeita, 

No púbis da crença, em putrefação.

És larva moral que no Éden vegeta, 

Com teu faro doentio, anacrônico e lento, 

Que até o Cristo, na chaga que o projeta,

 Não se fez bactéria neste apodrecimento.

Tão vasta a infâmia, a podridão imanente, 

Que nem a santidade, em seu leito doente, 

Escapa à metástase que em vós se incuba...

Ó clericais, abjetos restos da espécie, 

Vossa seiva necrótica o ser arrefece,

 E o dogma é um câncer na alma que sucuba.

Cosmogonia Patológica

 No plasma informe do Caos primitivo,

Jeová — vetor de erro metabólico —
Gerou, por gesto espúrio e fisiológico,
A Terra: excreção de um ato reflexivo.

Do crânio em fadiga, um halo expansivo
Fez-se Céu: chapéu gasto, astronômico,
Cujo tecido, em furo estereotômico,
Vazou fótons num céu ulcerativo.

Depois cuspiu — e a saliva salina
Caiu por gravidade newtoniana
E fez-se o mar, secreção alcalina.

Por fim, do barro vil da argila humana,
Criou o Homem: erro de proteína,
Primata enfermo em forma soberana.

Gênese do Verme


Cosmogonía vil! Num espasmo de tédio, 

O Demiurgo, em sua síncope senil, 

Extraiu da mucosa o ranhudo excremento 

E moldou o orbe — este lodo febril.

O vácuo é um fânero, um trapo esburacado,

 E a saliva, em sua asfixia salina, 

Escorreu do escarro, em mar coagulado, 

P'ra o ventre da crosta que o verme domina.

Dos folículos mortos, na orgânica lida, 

Brotou o carvalho — célula expandida —

 E o bicho, esse bípede de hálito oco...

Deus, com a medula exausta, 

Dorme agora a inércia da carne nefasta, 

Enquanto o Infinito apodrece um pouco.

Existirmos: a que será que se destina?

 Existirmos: a que será que se destina?

 Pergunto-o à graxa das engrenagens 

e ao tédio das estrelas,

 E a resposta é o silêncio de um cais vazio às quatro da manhã.

 Destinar-se! Que palavra gorda, mastigada 

por metafísicos de gravata! Eu, que sinto tudo 

até ao esgotamento das sensações, 

Olho para as minhas mãos e vejo-as estrangeiras, 

Instrumentos de um crime que é estar aqui, sem ter pedido o bilhete da vida.

A que se destina o girar da manivela se a máquina

 não mói nada? A que se destina o bater do coração

 se o peito é uma sala de espera? Tudo é intervalo,

 tudo é o espaço entre o que sou e o que fingem que sou. 

Passei pela vida como um comboio que não pára na estação onde o esperavam, E agora, nesta lucidez que me rói como um ácido,

 Percebo que o destino é apenas o nome que

 damos à nossa incapacidade de não ser.


Não me venham com sentidos! Não me tragam esperanças em embrulhos de papel! O destino da existência é a própria existência a devorar-se, É este cansaço de ser Deus enquanto se é apenas um homem sentado num café, Vendo a luz do sol bater num copo de água e sentir uma vontade absurda de chorar... Não por tristeza, não! Mas pela beleza terrível de não servir para nada, E de saber que, no fim, o "destinar-se" é apenas o som do vento Nas persianas de um quarto onde já não mora ninguém.

Rabiskito

 


Rabiskito

 


 


Rabiskito

 


Rabiskito - seleção de piadas

 
















Rabiskito - quadrinhos

 


Tirinha Rabiskito

 



ESBOÇOS

 O plano inicial não é a linha, mas a intenção do grafite de se tornar  

     algo mais que pó — uma "precisão de sentimentos", 

como disse o mestre,       retirada do caos por          

   necessidade.

Observe o caranguejo-ferradura: seu rastro

 na areia é um desenho sem       

borracha, um rascunho de armadura que a maré      

 insiste em editar.               A natureza não teme

o inacabado. Ela é, em si, um acúmulo de tentativas; o bico do    

   colibri ajustado pelo erro de flores que não       se abriram.  

           Não há nada de "meramente"

esquemático no esqueleto de uma folha. 

É a estrutura que sustenta a cor, a   

    geometria que permite à beleza ser, enfim,     

    genuína.             O resto é ornamento.

ESBOÇOS

MONDRIAN
PENSANDO
EM SUA TEORIA



PEQUENA
MÁSCARA
TRIBAL





RETRATO ABSTRATO
DE UM ELEFANTE




COMPOSIÇÃO
JUDAICA




TRAVESTI DE PROGRAMA
SE OFERECENDO
PELADA NA RUA



MULHER PERUANA



CASAL FAZENDO SEXO



 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A magia insistia em brotar

    Mariana estava sentada no vigésimo andar de um prédio na Avenida Paulista, observando como a garoa fina transformava o asfalto em uma superfície de vinil escuro e brilhante. O café à sua frente já havia esfriado, formando uma película pálida que lembrava a superfície de um planeta distante e esquecido. Ela lia um livro sobre a migração das baleias-azuis, sentindo que sua própria vida guardava uma semelhança desconcertante com esses gigantes solitários: um deslocamento constante através de correntes invisíveis, sem um destino que fizesse real sentido. Foi quando, através da vidraça embaçada, ela o viu: um cachorro de pelagem azulada, quase da cor do crepúsculo, parado exatamente no centro da calçada movimentada, ignorando o fluxo frenético de pedestres que desviavam dele como se fosse uma rocha em um rio.

Sem uma razão lógica, Mariana deixou o café inacabado e desceu pelo elevador que rangia de forma melancólica, como se estivesse cansado de carregar o peso do mundo. Ao chegar na rua, o ar estava saturado com o cheiro de ozônio e escapamento, mas o cachorro permanecia ali, olhando-a com olhos que pareciam conter uma sabedoria mineral, antiga e desprovida de julgamento. Quando ela deu o primeiro passo em sua direção, o animal virou-se com uma elegância quase felina e começou a caminhar em direção ao túnel da Avenida Nove de Julho, mantendo sempre uma distância precisa de exatos cinco metros. Mariana o seguiu, sentindo que o ritmo de seus próprios passos começava a se sintonizar com uma frequência de rádio que ela não ouvia desde a infância, um chiado suave que prometia revelar algo oculto sob a superfície da metrópole.

O túnel parecia esticar-se conforme eles avançavam, e o barulho dos carros se transformou em um eco abafado, como se estivessem submersos em uma piscina de óleo. A luz amarelada das lâmpadas de sódio criava sombras distorcidas nas paredes de concreto, e Mariana percebeu que o cachorro não projetava sombra alguma, ou talvez a sombra dele estivesse escondida em uma dimensão que seus olhos não conseguiam processar. O ar tornou-se subitamente frio, carregado com o aroma de jasmins e fumo de corda, um cheiro que não pertencia ao centro de São Paulo, mas sim a uma memória específica que ela mantinha guardada em uma caixa mental trancada. Ela sentiu um leve tremor nas mãos, mas não era medo; era a sensação de que a realidade estava se tornando fina, como um papel de seda prestes a rasgar-se sob a pressão de um dedo invisível.

De repente, o cachorro parou diante de uma reentrância na parede do túnel que Mariana nunca havia notado antes, apesar de ter passado por ali centenas de vezes. Era uma abertura estreita, emoldurada por tijolos aparentes que pareciam respirar em um ritmo lento e profundo. O animal soltou um ganido curto, quase como um convite, e entrou na escuridão sem hesitar, desaparecendo como uma gota de tinta em um balde de água. Mariana hesitou por um momento, ouvindo o pulsar de seu próprio coração, que soava como o metrô passando sob seus pés, antes de cruzar o umbral de pedra. O espaço lá dentro não era um corredor, mas uma galeria vasta e circular, onde o silêncio era tão denso que ela podia ouvir o mecanismo de seu relógio de pulso trabalhando arduamente para manter o tempo em ordem.

As paredes da galeria estavam cobertas por milhares de molduras de madeira escura, todas vazias, exceto por uma que se destacava ao fundo, iluminada por um feixe de luz lunar que descia de uma fenda invisível no teto. Mariana caminhou lentamente, sentindo que o chão de pedra estava ligeiramente úmido, como se a terra estivesse tentando retomar o espaço que o concreto lhe roubara. Ao se aproximar da moldura, ela sentiu um nó apertar-se em sua garganta, uma pressão que cheirava a naftalina e discos de jazz antigos. Lá, dentro do retângulo de madeira, não havia uma pintura, mas uma janela para outro lugar, um campo de grama alta onde o vento soprava com uma cadência que parecia recitar versos em uma língua esquecida.

No centro daquele campo, sentado em uma cadeira de balanço que rangia suavemente, estava seu avô, falecido há mais de dez anos em uma tarde de domingo em que o sol parecia ter desistido de brilhar. Ele vestia o mesmo cardigã cinza que sempre usava para ler o jornal, e suas mãos, marcadas pelo tempo como o mapa de uma cidade antiga, repousavam sobre os joelhos com uma serenidade absoluta. O avô de Mariana não parecia um fantasma ou uma projeção, mas sim a versão mais sólida de si mesmo, como se tudo o que ela conhecera dele no mundo real fosse apenas um esboço mal acabado de sua verdadeira essência. Ele levantou o olhar lentamente, e seus olhos, da mesma cor da pelagem do cachorro, encontraram os dela com uma familiaridade que transcendeu o tempo e o espaço.

Sem dizer uma palavra, o velho levantou a mão direita e acenou para Mariana, um gesto lento e deliberado que parecia carregar todo o peso de um adeus nunca dito e toda a leveza de um reencontro inevitável. Mariana tentou falar, mas as palavras ficaram presas em sua boca, transformando-se em pequenos cubos de gelo que derretiam silenciosamente sobre sua língua. Ela percebeu que aquele aceno não era um chamado para que ela entrasse, mas uma confirmação de que ele ainda estava lá, habitando as dobras ocultas da realidade, cuidando da manutenção do universo enquanto ela cuidava de sua própria existência urbana. O cachorro azul reapareceu ao lado da cadeira de balanço, deitando-se aos pés do avô como se aquele fosse o seu lugar legítimo desde o início dos tempos.

Nesse instante, Mariana compreendeu que a cidade de São Paulo era composta por duas camadas distintas: a de cima, feita de asfalto, ruído e pressa, e a de baixo, feita de silêncio, memórias e encontros impossíveis. Ela sentiu uma profunda gratidão pelo fato de o cachorro a ter escolhido como guia para aquela breve incursão no "outro lado", um lugar onde as baleias-azuis poderiam nadar em campos de grama sem nunca precisarem de água. O ar na galeria começou a vibrar novamente com o som dos carros lá fora, indicando que o portal estava se fechando, como uma pálpebra cansada após um longo dia de observação. Ela deu um passo para trás, mantendo os olhos fixos na imagem do avô, que continuava a acenar com a mesma paciência de quem possui toda a eternidade à disposição.

Quando Mariana saiu da abertura e voltou para a calçada do túnel, o cachorro e a reentrância na parede haviam desaparecido, restando apenas o concreto frio e as marcas de infiltração que formavam desenhos abstratos na superfície cinza. Ela caminhou de volta para a luz do dia, sentindo o peso de sua bolsa em seus ombros e o toque da garoa em seu rosto, mas algo fundamental havia mudado em sua estrutura molecular. O mundo parecia o mesmo, mas a solidão que ela carregava agora tinha uma textura diferente, menos parecida com um vazio e mais com uma sala de estar confortavelmente mobiliada em algum lugar dentro de si mesma. Ela parou diante de uma vitrine e viu seu reflexo, notando que seus olhos guardavam um brilho que não vinha das luzes da cidade.

Ela voltou ao café na Avenida Paulista, mas desta vez não abriu o livro sobre baleias; em vez disso, pediu um novo café, bem quente, e ficou observando o movimento das pessoas com uma curiosidade renovada. Cada pedestre que passava agora parecia carregar um segredo, um cachorro azul invisível ou uma moldura vazia esperando para ser preenchida por uma memória significativa. A vida não precisava mais de explicações lógicas ou destinos traçados em mapas; bastava que houvesse, de vez em quando, um túnel onde o passado pudesse acenar para o presente com um gesto de mão. O relógio na parede do café marcou a hora exata, e o som do ponteiro parecia agora uma música suave, uma melodia que falava sobre a continuidade das coisas simples.

Ao anoitecer, Mariana voltou para o seu pequeno apartamento, que agora lhe parecia mais espaçoso e acolhedor do que nunca. Ela preparou uma torrada, ouviu um disco de jazz que não tocava há anos e sentou-se perto da janela, observando as luzes dos prédios que piscavam como estrelas caídas em um oceano de asfalto. Ela sabia que, se olhasse com atenção suficiente, poderia ver o rastro azul do cachorro cruzando as esquinas escuras da cidade, conectando os pontos de uma constelação urbana que só ela conhecia. Não havia pressa para o amanhã, pois o ontem estava devidamente guardado em um campo de grama alta, protegido pelo silêncio de um túnel que ninguém mais conseguia ver.

Mariana adormeceu com a sensação de que o mundo era, no fundo, um lugar muito gentil, apesar de sua aparência caótica e indiferente. Em seus sonhos, ela corria por campos infinitos sob um céu de cor indescritível, e um cachorro azul corria ao seu lado, latindo para as nuvens que pareciam baleias flutuando no vácuo. Quando acordasse, ela escreveria uma carta para ninguém em especial, apenas para colocar no papel a sensação de ter visto o retrato de um avô que, mesmo do outro lado, ainda sabia exatamente como dizer que tudo ficaria bem. A chuva continuava a cair sobre São Paulo, lavando as ruas e alimentando as rachaduras no concreto, por onde, às vezes, a magia insistia em brotar.

O Manuscrito das Borboletas


Em um bairro de Buenos Aires, onde o tempo parecia ter se esquecido de mover-se, vivia um homem chamado Aureliano Funes. Não o Funes o memorioso, mas um Funes de outra linhagem, igualmente tocado por uma obsessão peculiar. A sua, no entanto, não era a memória, mas a efemeridade.

Aureliano era um escritor de parcos recursos e menor renome, cujos dias se diluíam entre a biblioteca empoeirada e o aroma acre de seu tabaco barato. Sua esposa, Clara, uma mulher de pragmatismo pétreo, suportava suas divagações com a paciência que apenas a indiferença pode forjar.

Um dia, a musa, ou talvez um capricho do acaso, pousou sobre Aureliano a ideia de escrever sobre borboletas. "Não sobre a ciência da lepidopterologia", explicava ele a Clara, que o ouvia com um bocejo contido, "mas sobre a essência da borboleta. Sua metamorfose, seu voo errático, seu breve e magnífico fulgor. É um espelho do universo, Clara, uma parábola da existência."

Clara apenas murmurou sobre a falta de leite e a conta do açougue.

Aureliano mergulhou em sua tarefa com a intensidade de um tecelão cego que decifra um padrão ancestral. Seus dias e noites foram consumidos pela busca da frase perfeita, da metáfora exata que pudesse aprisionar a leveza da asa num emaranhado de tinta e papel.

"Sabe, Clara," disse ele uma noite, com os olhos febris e uma xícara de café frio na mão, "a borboleta não é apenas um inseto. Ela é a própria ideia da transitoriedade. Imagine: um mundo de borboletas que esquecem seu passado, que não recordam sua fase de larva, nem antecipam a morte iminente. Um presente perpétuo de voo e pólen."

Clara, que bordava um lenço com um desenho de flores robustas e imutáveis, suspirou. "Imagine um mundo onde os homens não se preocupam em pagar as contas, Aureliano. Isso sim seria um conto de fadas."

O manuscrito crescia, página após página, enchendo a pequena escrivaninha de Aureliano com caligrafia miúda e correções obsessivas. Falava de borboletas que nasciam de livros, de borboletas que carregavam segredos cósmicos em suas asas, de borboletas que eram, na verdade, os sonhos não realizados de homens esquecidos. Havia passagens sobre um labirinto de pólen e néctar, sobre a linguagem secreta das antenas, sobre o silêncio que precede o último bater de asas. Aureliano estava criando uma enciclopédia apócrifa, uma zoologia fantástica.

"Estou quase lá, Clara," sussurrava ele para si mesmo, pois Clara já dormia em outro quarto, "estou quase lá. Capturarei a essência da beleza fugaz, a melancolia do efêmero."

Certa manhã, Clara encontrou Aureliano em sua poltrona, o manuscrito aberto no colo, a pena caída no chão. Uma borboleta de asas azuis e iridescentes parecia ter pousado na última página, mas era apenas um efeito de luz, ou talvez, a sombra de uma ausência. Aureliano estava imóvel, os olhos fixos num ponto invisível no teto, sua própria transitoriedade finalmente manifesta.

O funeral foi um evento modesto, como tudo na vida de Aureliano. Após as formalidades e os poucos condolências, Clara retornou à casa silenciosa. Seus olhos pragmáticos varreram o estudo do marido, um lugar que sempre lhe parecera um santuário de inutilidade. O manuscrito ainda estava lá, um volume volumoso de páginas amareladas.

Curiosa, ou talvez movida por um súbito impulso de compreender o que tanto havia consumido seu marido, Clara pegou o manuscrito. Folheou-o, parando em frases isoladas, em descrições de borboletas que voavam para constelações distantes ou que eram a reencarnação de poetas desconhecidos. Leu sobre um mapa que era, na verdade, o padrão das asas de uma borboleta noturna, sobre um espelho que refletia não a imagem, mas a memória de uma borboleta.

Uma estranha sensação começou a se apoderar dela. As palavras pareciam vibrar, e as descrições evocavam imagens de uma beleza tão frágil quanto assombrosa. Por um instante, Clara sentiu o tremor de asas invisíveis em seus próprios ombros. Viu um universo oculto, um plano secreto tecido por seres alados.

Então, seu pragmatismo, seu alicerce de bom senso, reagiu com veemência. "Bobagens!", exclamou ela em voz alta, o som ecoando no vazio da sala. "Loucuras de um sonhador!"

Não havia lugar para borboletas cósmicas em seu mundo de contas e realidades concretas. O manuscrito, com sua promessa de mundos fantásticos, parecia uma ameaça à ordem que ela havia diligentemente mantido. Representava a efemeridade que Aureliano tanto admirava, e que ela tanto temia.

Com uma determinação fria, Clara levou o volume para o quintal. Acendeu uma pequena fogueira com galhos secos e, sem hesitação, jogou o manuscrito nas chamas.

As páginas crepitaram e se retorceram, as palavras se apagando sob o beijo voraz do fogo. O cheiro de papel queimado encheu o ar. Clara observou as chamas consumirem o trabalho de Aureliano, as ideias de borboletas que habitavam outros planos se transformando em cinzas voláteis.

Enquanto as últimas brasas se extinguiam, um detalhe chamou sua atenção. No rastro da fumaça, que subia em espirais finas para o céu pálido de Buenos Aires, por um breve e iridescente momento, Clara jurou ter visto o contorno de milhares de asas, batendo suavemente, antes de se dissiparem no azul. Era como se as borboletas do manuscrito tivessem encontrado sua última e mais etérea metamorfose.

Clara Funes, a mulher de pedra, deu de ombros. "Loucuras."

Mas, naquela noite, ao deitar-se, teve um sonho singular. Sonhou que voava, leve e sem peso, através de um labirinto de pétalas gigantes, guiada por um rastro de pólen estrelado. E quando acordou, a primeira coisa que viu foi uma pequena mancha azulada na parede, que parecia, por um instante fugaz, uma borboleta de pura iridescência, antes de desaparecer na luz da manhã.

Ela nunca mais mencionou o manuscrito das borboletas. E a memória de Aureliano Funes, o escritor das borboletas, foi lentamente se esvanecendo, como o pó de uma asa esquecida.

Objeto Mágico - Conto Fantástico

 


Na província do Rio Grande do Sul, entre os pampas que estendem seu tapete de pasto até o horizonte que confina com o nada, ou talvez com o Uruguai, surgiu o objeto. Não de nascença gaúcha, mas de trânsito, como tudo o que porta em si a dignidade do mistério. Chegou de São Paulo, não numa caixa de exportação ou num embrulho de contrabando, mas nas mãos de um egípcio — ou de alguém que, pela quietude e pelos olhos que pareciam ter visto a fundação do tempo, assim se fazia chamar. Ahmed al-Sultani, talvez, ou apenas um nome impronunciável que o esquecimento fez mudo. Esse egípcio, peregrino ou mercador de sombras, entregou-o a um colecionador de miudezas metafísicas, um agrônomo aposentado que, em vez de sementes, plantava em sua mente dúvidas sobre a natureza do real.

O Objeto, dizem os poucos que o vislumbraram antes que a bruma o reclamasse, não tinha forma definida, ou melhor, assumia todas as formas sem jamais se fixar em uma. Era um poliedro de cristal que pulsava com a luz de estrelas extintas, uma esfera de jade onde rios de prata corriam em ciclos eternos, um cubo de ébano que continha o murmúrio de galáxias inteiras. A sua essência, porém, não residia na sua geometria mutável, mas na sua propriedade mais prodigiosa: o Objeto era uma fenda, um portal, uma compressão do instante total. Ao fitá-lo, podia-se abarcar, num único e vertiginoso lampejo, a eternidade em sua plenitude: o nascimento do universo e o seu derradeiro colapso, a vida de todas as criaturas que já existiram e as que hão de existir, a trama complexa de causas e efeitos, o riso de um bebê e o silêncio de uma estrela morrendo. Era o Aleph, mas um Aleph que se podia segurar na mão, o ponto onde todos os tempos e todos os espaços coexistiam sem contradição, um instante que era, em si, o universo inteiro.

Ninguém sabe ao certo como ou quando desapareceu. Alguns sussurram que ele simplesmente se desfez em partículas de tempo, outros que voltou para as mãos de seu guardião egípcio, que talvez fosse um deus disfarçado. Mas a verdade é mais cruel e mais poética: o Objeto nunca desapareceu, ele apenas se dissolveu na única dimensão que lhe era realmente própria: a memória. E dessa memória, um último bastião de sua existência se aloja agora num hospital em Salvador, Bahia.

Lá jaz Djalma Guimarães, velho e cego, mas não pela ausência de luz, e sim pelo excesso de visões que o Objeto lhe concedeu na sua juventude. Outrora um escritor, um tecelão de palavras que buscava em cada frase a precisão de um teorema e a melodia de um blues, Djalma agora balbucia, preso aos fios e apitos de uma UTI. Seus olhos, velados por uma catarata que é mais um véu místico do que uma doença, fixam-se num ponto invisível no teto do quarto, e em cada respiração ofegante, ele parece recitar, para si mesmo e para o nada, as últimas cifras de um saber proibido. Ele se lembra. Ele é o último guardião do Objeto, não mais na matéria, mas no mais frágil dos invólucros: a mente humana à beira do colapso.

O tempo, que o Objeto condensava num piscar de olhos, agora se alonga, lento e doloroso, para Djalma. Seus lábios secos murmuram sílabas que poderiam ser as coordenadas de universos esquecidos ou apenas o nome de um amor perdido. E, ao morrer, ele não levará o Objeto consigo para o abismo do não-ser. Antes, ele o liberará. E o universo, contido por um momento na sua memória, se expandirá novamente, talvez para o infinito, talvez para o nada. E ninguém, exceto Djalma, saberá que o maior dos tesouros coube por um instante no punho de um homem e na mente de um cego.

Códice de Luanda

 Eis aqui, portanto, o relato de um achado que não se explica, um comentário sobre o volume sem nome, encadernado em pele de bicho desconhecido, que apareceu numa estante de alfarrabista no Recife, vindo, dizem as más línguas, no fundo do baú de um viajante da Guiné que morreu sem dizer palavra, e o livro, escrito numa língua que parece português mas que tropeça nas vírgulas como quem sobe uma duna, é a reescrita da errância de Caim sob um sol que não é o de Canaã, mas um sol pesado, equatorial, onde o crime de matar o irmão não é uma questão de inveja de sacrifícios, mas uma revolta contra o silêncio de um deus que, de tão ocupado com a sua própria perfeição, esqueceu-se de que o barro tem sede.

Neste conto-comentário, o Caim africano não traz a marca na testa como um estigma de vergonha, mas como uma pintura de guerra, e ao chegar às terras do Brasil, neste manuscrito de autor anónimo, ele descobre que o seu crime foi apenas o primeiro de uma série infinita, porque aqui, diz o texto, as pessoas matam os irmãos todos os dias e depois sentam-se à mesa para comer feijão como se o sangue não tivesse escorrido pela calçada, e o que Borges teria chamado de "o labirinto da linhagem", Saramago chamaria de "a cegueira do criador", pois o Caim deste livro misterioso não foge de deus, ele persegue deus para lhe pedir contas, perguntando-lhe, com a voz rouca dos que atravessaram o oceano em porões, por que razão o céu é tão azul e a terra tão vermelha, se o que importa é a cor da justiça que ninguém vê.

O autor desconhecido, que talvez tenha sido um príncipe em Daomé ou um escravo em Olinda, ou as duas coisas ao mesmo tempo no tempo circular da literatura, termina o seu comentário dizendo que a história de Caim é o único espelho honesto da humanidade, porque os Abéis, pobres coitados, morrem cedo demais para aprenderem a mentir, enquanto os Cains sobrevivem para fundar cidades, escrever livros e perguntar, no fim de cada parágrafo longo como uma vida, se valeu a pena ter sido feito à imagem e semelhança de alguém que, tendo podido evitar a mão que se erguia, preferiu olhar para o lado e esperar pelo barulho do osso a quebrar-se, que é, como todos sabemos e o livro confirma, o som preferido dos deuses que não sabem o que fazer com as suas criaturas.Eis o fragmento recuperado, um trecho que a crítica futura (talvez aquela que habita os sonhos ) atribuirá ao Códice de Luanda, aquele volume que cruzou o Atlântico para se perder nas bibliotecas circulares do Recife:

«A história, que os homens insistem em ler como uma linha reta que vai do pó ao pó, é, na verdade, um jardim de pedras que se bifurcam, e no centro desse jardim, sob o sol implacável que não conhece a misericórdia das nuvens, caminha Caim, que não é um homem, mas todos os homens que já seguraram uma pedra com a dúvida na palma da mão, diz o manuscrito que este Caim africano, de pele cor de noite profunda, não matou Abel por um capricho de fumaça, mas porque leu nos olhos do irmão a aceitação servil de um destino imposto por um Demiurgo distraído, e ao golpeá-lo, Caim não buscava o fim do outro, buscava o início de si mesmo, a rutura com o plágio divino que é a existência humana, por isso a marca na sua fronte não é um sinal de exílio, mas a primeira letra de um alfabeto que Deus ainda não aprendeu a ler, e quando o navio fantasma o trouxe às costas do Brasil, esse Caim descobriu que o labirinto de Creta era uma brincadeira de crianças perto das ruas de Salvador, onde o tempo se dobra sobre si mesmo e cada esquina é um altar onde se sacrifica o amanhã em nome de um ontem que nunca existiu, pois, como bem sabemos, a memória é uma biblioteca cujos livros mudam de texto enquanto dormimos, e Caim, agora brasileiro por fatalidade e africano por memória, sentou-se na calçada para ver passar o mundo, compreendendo enfim que Deus e o Diabo são apenas as duas faces de uma moeda que alguém jogou ao ar e que, por um erro de cálculo da gravidade, ainda não caiu.»

O Cristão-Novo e a Doce Mistura do Sangue

 


Olhar para o pensamento de Gilberto Freyre sobre o povo judeu é, antes de tudo, compreender a sua fascinação pelo que ele chamava de "o rastro do cristão-novo" na carne e na alma da gente brasileira, pois para o mestre de Casa-Grande & Senzala, o judeu não era um elemento estranho ou um corpo estranho incrustado na nação, mas sim uma das forças mais plásticas e adaptáveis que ajudaram a amolecer a rigidez do colonizador português, trazendo consigo uma aptidão para o comércio, para a técnica e, sobretudo, uma bonomia urbana que contrastava com o ruralismo xucro dos primeiros engenhos, de modo que Freyre via no "sangue infecto" — termo que ele usava com ironia histórica para desarmar os preconceitos da Inquisição — um dos temperos fundamentais da nossa capacidade de síntese, acreditando ele que o judeu se tornou, no Brasil, mais um dos componentes daquela "democracia racial" (conceito hoje tão debatido, mas que nele era uma aspiração estética) onde o misticismo semita se dissolveu na sensualidade do trópico.

Diferente de Saramago, que olhava para o judeu sob a ética da política e do conflito, Freyre olhava sob a ótica da cultura e da biologia social, interessando-se imensamente pela figura do "marrano" que, ao esconder a sua fé, acabou por impregnar o catolicismo brasileiro de hábitos e trejeitos sutilmente judaicos, desde o asseio pessoal até certas melancolias do espírito, e por isso ele defendia que o Brasil era, em certa medida, um prolongamento dessa vocação hispânica de convívio entre sangues diferentes, onde o judeu, longe de ser o "outro" absoluto, era o primo distante que trouxera a inteligência das cidades para dentro da mata, ajudando a criar uma civilização que, no entender de Gilberto, era superior por ser impura, por ser mestiça, e por ter tido a audácia de transformar o dogma em estilo de vida, o que o levava a manifestar uma simpatia intelectual profunda pelo Estado de Israel em seus primórdios, vendo ali não apenas um projeto político, mas a ressurreição de uma energia criadora que ele reconhecia nos traços de muitos patriarcas do nosso próprio Nordeste.Para Saramago, o judeu é o protagonista de um drama moral universal. Ele não aceitava que a vítima de ontem se tornasse o opressor de hoje. Sua crítica não era ao "ser judeu", mas ao "agir como oponente da humanidade". É uma visão externa e política, pautada pela indignação do homem que não admite privilégios éticos.

Para Freyre, o judeu (especialmente o sefardita/cristão-novo) é uma "pedra de toque" da brasilidade. Ele estava interessado em como o judaísmo "amoleceu" o caráter lusitano e nos deu a nossa bonomia e inteligência comercial. É uma visão interna e cultural, pautada pela admiração do sociólogo que celebra a mistura e o convívio.

Em suma: Saramago via no judaísmo moderno um problema de consciência; Freyre via na herança judaica um trunfo de civilização.

... pequena lamentação sobre uma desavença entre irmãos de terra e de esquecimento...

     Entrar no labirinto da escrita de Saramago é, antes de tudo, aceitar que a pontuação é um rio que corre sem margens fixas, onde as vírgulas são apenas suspiros e os pontos finais são raras sentenças de morte, e assim, postos nesta toada, importa olhar para a relação do homem de Azinhaga com aquele povo que carrega nos ombros o peso de milênios e de um livro que ele, o autor, tanto desconstruiu, pois que Saramago, sendo ateu de estirpe e humanista de urgência, nunca olhou para o judeu como uma entidade metafísica ou uma abstração teológica, mas sim como o homem de carne e osso, o mesmo que sofre e o mesmo que faz sofrer, e é aqui, nesta encruzilhada de humanidade, que a sua voz se tornou, por vezes, um trovão incômodo, porque para ele, que tanto denunciou as cegueiras dos homens, não havia povo eleito que estivesse acima da crítica, nem memória de holocausto que servisse de salvo-conduto para a injustiça do presente, dizia ele, com aquela crueza que lhe era própria e que tantos mal-entendidos gerou, que os judeus, tendo sido as vítimas maiores de um horror inenarrável, pareciam ter aprendido com os seus carrascos a arte de cercar e de oprimir, uma afirmação que caiu como pedra em poço fundo e que lhe valeu o rótulo de antissemita, embora ele insistisse, com a paciência dos que sabem o que dizem, que criticar o Estado de Israel e a sua política de ocupação não era odiar o povo de Spinoza ou de Kafka, mas sim honrar a memória de uma ética que o próprio judaísmo, nas suas raízes mais profundas, sempre defendeu.

Não se pense, contudo, que era um ódio cego, nada mais longe da verdade desse homem que via a história como um novelo de fios embaraçados, o que havia em Saramago era uma desilusão profunda, quase uma dor de pai ou de irmão, ao ver que aqueles que tinham sido as "pedras de esquina" da resistência e do intelecto europeu estavam agora, na sua visão, a erguer muros e a criar guetos, repetindo a geometria do erro que outrora os vitimara, e quando ele viajou a Ramallah e comparou a situação ao espírito de Auschwitz, não o fez por ignorância histórica, que disso não padecia, mas por uma vontade deliberada de chocar a consciência do mundo, de dizer que o sofrimento passado não confere o direito à crueldade futura, e se o mundo o apedrejou com palavras, ele respondeu com o silêncio de quem sabe que a verdade é uma lente que queima, pois para Saramago o judeu era o seu semelhante, o seu vizinho na grande aldeia da desventura humana, e precisamente por o respeitar como igual, não lhe perdoava a falta de compaixão, porque no fim de todas as contas, e as contas dele eram sempre feitas pelo valor da vida humana, o que importava não era a estrela de David ou a cruz ou a meia-lua, mas o modo como cada um de nós, judeu ou gentio, trata o outro quando a noite cai e não há deuses para nos vigiar, apenas a nossa própria e nua consciência.

La Lengua Española

 

La Lengua Española

Lengua de sol, de espada y de campana,
clara en Castilla, ardiente en el confín,
cruzaste el mar con voz de clarín
y echaste raíz en tierra americana.

En ti la frase es mármol que se afana
por dar al pensamiento justo fin;
cada palabra cumple su destino
con gracia austera y fuerza soberana.

Eres rigor y fuego a la medida,
arte que ordena el ímpetu y lo doma,
rosa tallada en férrea geometría.

Lengua que en dos orillas hizo vida,
una en la historia, otra en la paloma,
hablarte es dar forma exacta al día.

La Lengua Portuguesa

 

La Lengua Portuguesa

Lengua de mar, de bronce y melodía,
pulida en sal, en verso y tempestad,
forjada entre la espada y la saudade,
clara como el sol de mediodía.

En ti la sílaba es arquitectura,
cada vocal, un golpe de cincel;
no hay palabra que no guarde en su piel
ritmo, orden, fervor y compostura.

Eres canto exacto, no desborde:
oro tallado al peso del sentido,
rosa severa en mármol obediente.

Lengua que al mundo dio nombre y horizonte,
cuando te digo, el tiempo queda unido
al arte puro de decirte: presente.

No quedará en la noche una estrella


No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche.

Lo supe al verla cruzar el umbral del tiempo,
rubia como una memoria del norte,
vestida de encaje tan leve
que no ocultaba el mundo
sino que lo revelaba.

Su transparencia no era del cuerpo,
sino del instante.
El encaje nórdico —blanco, casi infinito—
parecía una geometría del frío,
una antigua runa
aprendida por la luz.

No era desnudez:
era destino.
Como si el tejido supiera
que todo velo existe
para enseñar lo que no puede decirse.

En sus hombros descansaba la tarde,
en su paso, la certeza
de que la belleza no pide permiso
y no se repite.
La miré como quien mira
una biblioteca arder en silencio.

No quedará en la noche una estrella.
Porque ella era la constelación.

No quedará la noche.
Porque al pasar,
abolió la sombra
y dejó al tiempo sin refugio.

Así la recuerdo:
no como mujer solamente,
sino como una forma del infinito
que eligió, por un momento,
ser visible.

Al-Ándalus

 

Al-Ándalus

Al-Ándalus fue nombre de la tierra
cuando el sur habló en lengua de oración,
y el sol, sobre la cal y el alcorzón,
bendijo el trigo, el verso y la cantera.

Desde el año siete-once alzó su esfera
el mundo musulmán en la región,
tejiendo ley, ciencia y contemplación
donde la espada al fin cedió a la cera.

Fue ancho el reino: Iberia casi entera,
y aun Septimania oyó su corazón
latir bajo la sombra omeya austera.

Mas todo reino aprende su lección:
la historia es agua — llega y se retira—,
y queda el canto donde el tiempo expira.

Sefarad Antigua

 


Llegaron con Roma, paso silencioso,
trayendo la Ley, la lámpara encendida;
eran semilla frágil pero viva
en suelo ajeno, duro y pedregoso.

Bajo reyes paganos, fue penoso,
y luego el reino visigodo herida:
la fe negada, la palabra prohibida,
el miedo escrito en decreto odioso.

Mas vino Al-Ándalus con otro sol,
tras la conquista del Omeya lejano,
y el saber abrió puertas y razón.

Allí el judío fue poeta y humano,
comercio, ciencia, verso y tradición:
flor de Sefarad, jardín de la mano.

La Belleza i el Mar -

 

La Belleza i el Mar

La belleza se kedo en Sefarad,
en las kalles blancas ke ya no nos kieren,
en las puertas serradas kon kruzes nuevas
onde una vez rezava la luz.

El mar nos mira sin preguntas,
azul i profundo komo el tiempo de Dio,
abre sus manos saladas
para resivir lo ke fue echado.

Salimos kon llaves en los bolsiyos,
kon nombres rotos en la boka,
kon el Shemá ardiendo bajito
para no ser eskuchado por el miedo.

El mar no nos juzga.
El mar save de expulsiones.
Save de pueblos ke parten
sin saber si ay tornada.

Kaduna ola diz: andate,
otra susurra: akuerda.
Entre ir i tornar
se rompe el korazón de Sefarad.

La belleza no era solo la tierra,
era el pan, la kantika, la letra,
era el nombre de Dio escrito
en la respiración del dia.

Agora navegamos en galut,
entre cielo i agua,
i el alma, kansada del mundo,
desea tornar no a España,
sino al cielo primero.

No al cielo alto i frio,
sino al cielo ke nos konosía,
onde no ay expulsión
ni decreto ni frontera.

El mar nos empuja adelante,
el cielo nos llama arriba,
i entre los dos keda el judío errante,
hermoso i roto,
kantando para no morir.

Si no podemos tornar a Sefarad,
ke tornemos al cielo.
Si no ay puerto en la tierra,
ke ay descanso en la luz.

La belleza vive aun,
no en la costa perdida,
sino en el deseo
de tornar a Dio.


A Beleza e o Mar

(tradução poética comentada)

1.

A beleza ficou em Sefarad,
nas ruas brancas que já não nos querem,
nas portas fechadas com cruzes novas
onde um dia rezava a luz.

Comentário:
“Sefarad” é a Espanha judaica perdida. A beleza não é apenas estética, mas civilizacional: convivência, cultura, memória. As “cruzes novas” aludem à cristianização forçada e à exclusão. A “luz” é tanto a vida cotidiana quanto a presença divina (Shechiná).


2.

O mar nos olha sem perguntas,
azul e profundo como o tempo de Deus,
abre suas mãos salgadas
para receber o que foi expulso.

Comentário:
O mar surge como testemunha neutra da História. Diferente dos homens, não julga. É refúgio e ameaça. “Tempo de Deus” sugere eternidade — o exílio humano frente ao infinito.


3.

Partimos com chaves nos bolsos,
com nomes quebrados na boca,
com o Shemá ardendo em segredo
para não ser ouvido pelo medo.

Comentário:
As chaves simbolizam a esperança concreta de retorno — muitas famílias sefarditas as preservaram por séculos. “Nomes quebrados” remetem a conversões forçadas e identidades ocultas. O Shemá Israel representa a fé íntima, sussurrada para sobreviver.


4.

O mar não nos julga.
O mar conhece expulsões.
Conhece povos que partem
sem saber se há retorno.

Comentário:
Aqui o mar é quase um personagem sábio, arquivista das diásporas humanas. O verso universaliza a experiência judaica, ligando-a a outras migrações forçadas da história.


5.

Cada onda diz: vai,
outra sussurra: lembra.
Entre ir e voltar
se parte o coração de Sefarad.

Comentário:
A oscilação das ondas encena o dilema do exílio: sobreviver exige partir; existir exige lembrar. O “coração de Sefarad” é a identidade dividida entre futuro e passado.


6.

A beleza não era só a terra,
era o pão, a canção, a letra,
era o nome de Deus escrito
na respiração do dia.

Comentário:
A pátria verdadeira é cultural e espiritual. “A letra” remete à Torá, ao estudo, à tradição escrita. Deus não está no templo perdido, mas no cotidiano vivido.


7.

Agora navegamos em exílio,
entre céu e água,
e a alma, cansada do mundo,
deseja voltar — não à Espanha,
mas ao céu primeiro.

Comentário:
O exílio deixa de ser apenas geográfico e torna-se metafísico. O “céu primeiro” não é um paraíso abstrato, mas o estado de pertencimento anterior à violência histórica.


8.

Não ao céu alto e frio,
mas ao céu que nos conhecia,
onde não há expulsão
nem decreto nem fronteira.

Comentário:
Crítica indireta às religiões do poder e aos Estados excludentes. O céu desejado é relacional, íntimo, sem leis de exclusão — uma utopia ética.


9.

O mar nos empurra adiante,
o céu nos chama para cima,
e entre os dois fica o judeu errante,
belo e partido,
cantando para não morrer.

Comentário:
Imagem central do poema: o judeu entre forças contrárias — História e transcendência. O canto é resistência cultural; cantar é existir.


10.

Se não podemos voltar a Sefarad,
que voltemos ao céu.
Se não há porto na terra,
que haja descanso na luz.

Comentário:
Renúncia dolorosa ao retorno físico, substituído por uma esperança espiritual. A “luz” é consolo, memória e promessa.


11.

A beleza ainda vive,
não na costa perdida,
mas no desejo
de voltar a Deus.

Comentário:
Conclusão teológica e poética: a beleza sobrevive como anseio. O retorno final não é político nem territorial, mas espiritual.

Cantiga do Ir a Marrocos

 

Cantiga do Ir a Marrocos

Pelas ribeiras do tempo antigo
levo meu fardo e minha porção,
em galut* anda minha alma viva,
entre promessa e dispersão.

Digo baixinho, à luz da candeia,
Baruch HaShem*, ainda respiro,
pois quem nasceu com sede de mundo
não cabe em muro nem retiro.

vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
digo à noite sem temor,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,*
que a ruach* chama mais forte que o amor.

Trago na boca sal e doçura,
no peito a ferida e a emuná*,
pois quem confia caminha longe
sem mapa, sem chão, com sinal de Adonai*.

Entre Lisboa e mares escuros,
vendo esperança por um pão,
sou mercador de lembranças velhas
e de futuro em gestação.

vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
repete o vento no cais,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,
que meu destino não cabe em mais.

Se choro, choro como quem canta,
se parto, parto em oração,
Shema Yisrael* no fundo da alma,
coração aberto, mão no coração.

Se um dia volto — quem sabe volto —
com barba branca e outro olhar,
direi que o mundo é grande e terno
para quem ousou atravessar.

vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
fim do canto, fim do cais,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,
que fui criado para ir mais.


* galut (exílio)
* Baruch HaShem (bendito seja o Nome)
* caneti (pena/escrita; aqui como símbolo do que prende e registra)
* ruach (sopro, espírito)
* emuná (fé, confiança)
* Adonai (Senhor)
* Shema Yisrael (oração central judaica)

Cantiga de Açucar e Limão - Azukar i Limón -

 

Cantiga de Açucar e Limão

Pelas ruas velhas de Sefarad
vai meu desejo sem guarida,
trago no peito amor dobrado
entre a doçura e a ferida.

Meu bem partiu sem dizer palavra,
levou consigo meu quinhão,
ficou-me a alma como mesa pobre:
um pão, um sal, uma oração.

açucar e limão, dói meu coração
assim digo sem saber mentir,
doce na boca, amargo no peito,
tal é o fado de quem soube amar e partir.

Em noite fria, à luz da candeia,
conto lembranças como quem conta pão,
cada memória é meia promessa
que sangra em lenta procissão.

Entre Lisboa e mares distantes,
entre a lei e o desterro vão,
meu amor fez-se mercador errante
sem porto, sem perdão.

açucar e limão, dói meu coração
canta a voz que Deus me deu,
pois quem ama leva na língua
o que o destino escreveu.

Se vier o dia da alegria,
que venha manso, sem traição,
que aprenda desta cantiga velha
o peso exato da paixão.

açucar e limão, dói meu coração
fim do canto, fim do som,
mas enquanto houver memória viva
cantarei: doce e fel são dom.



Azukar i Limón

En la kaye vieja de la memoria,
anda mi alma deskalza i sin razón,
entre el dulzor de lo ke fue promesa
i la agrura amarga de la separación.

La luna mira, blanca i kayeja,
los pasos lentos de mi korazón,
yo te amé komo se ama en eksilio:
kon miedo, fe i sin perdón.

Açúcar e limão, dói meu coração,
kanta la voz ke no save mentir.
Açúcar e limão, dói meu coração,
dulce i agrio, vivir es ansí.

Pan i vino sobre la mesa rota,
una kantika para no llorar,
tu nombre arde komo un relámpago
en la boka ke no lo puede olvidar.

Entre Sevilla i Salonika,
entre Sefarad i el mar sin fin,
mi amor se izo diaspora,
se fue kantando lejos de mí.

Açúcar e limão, dói meu coração,
repite el viento al pasar.
Açúcar e limão, dói meu coração,
ke no save si deve reír o llorar.

Si mañana torna la alegria,
ke venga despacio, sin dolor.
Ke aprenda de esta kantika vieja
ke el amor es azukar i limon.

Açúcar e limão, dói meu coração,
fin del kantar, fin del son.
Açúcar e limão, dói meu coração,
i aun ansí… kanto por amor.

O Judeu em Gil Vicente: Comércio, Diáspora e Brasil - parte 2


Gil Vicente, cronista dramático de um Portugal em trânsito entre a Idade Média e a modernidade mercantil, oferece-nos, em seus autos, não apenas tipos morais, mas retratos sociais densos, impregnados do cotidiano econômico do reino. O judeu que surge em cena não é uma abstração teológica; é o judeu que compra, vende, empresta, negocia, fala a língua do dinheiro num mundo que oficialmente o condena, mas praticamente dele depende. Há nisso algo profundamente ibérico: a repulsa pública e a intimidade privada, a condenação moral e a utilidade cotidiana.

Em autos como o Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente não poupa o judeu da caricatura social. Quando surge o Judeu carregando seu cofre, o riso nasce do reconhecimento imediato do tipo econômico: “Cofre que nunca se farta, / alma que nunca se enche”. A imagem é direta, quase brutal, mas revela mais sobre a mentalidade cristã do que sobre o judeu em si. O cofre não é apenas objeto cênico; é símbolo de uma economia nascente que a cristandade ainda tenta negar, mas já não consegue prescindir.

Gilberto Freyre, atento às continuidades culturais da colonização portuguesa, provavelmente veria nesse judeu vicentino um ancestral simbólico do comerciante luso-brasileiro, figura ambígua que atravessa oceanos levando consigo hábitos, redes e capitais. O judeu português, forçado à conversão ou à fuga, não desaparece: ele se desloca. Vai para Antuérpia, para Amsterdã, para Recife. Leva consigo a prática mercantil, o senso de família extensa, a confiança baseada no parentesco e na palavra dada.

No Auto da Barca do Inferno, o Diabo pergunta ao Judeu: “Que trazeis vós aí tão guardado?” E ele responde com ironia defensiva: “Trago a minha consciência.” A resposta, cômica e amarga, revela a associação entre consciência e dinheiro, típica de um mundo em que a salvação espiritual já começa a ser negociada em termos materiais. Gil Vicente, talvez sem o saber, dramatiza o nascimento de uma ética econômica moderna, ainda vista com desconfiança pela moral tradicional.

Essa ética encontrará terreno fértil na Holanda do século XVII, onde judeus portugueses — muitos deles cristãos-novos — reorganizam suas redes comerciais e financeiras. Freyre veria nisso um prolongamento natural da vocação lusa para a adaptação tropical e mercantil. O judeu português na Holanda não rompe com Portugal; ele o prolonga por outros meios. E quando a Holanda chega ao Brasil, especialmente ao Nordeste açucareiro, essas redes se reencontram, agora em solo colonial.

No Auto da Feira, Gil Vicente põe na boca de personagens críticas mordazes à lógica do lucro e da troca. O judeu, ali, é figura conhecida do espaço urbano: “Na feira me achareis, / que é onde o mundo se vende.” A feira vicentina antecipa o mercado colonial, espaço de mistura, negociação e conflito. No Brasil holandês, judeus portugueses participam ativamente do comércio do açúcar, do crédito e da exportação, integrando-se à economia local com uma fluidez que contrastava com sua exclusão formal.

Gilberto Freyre insistiria que o Brasil não se fez apenas de senhores de engenho e escravos, mas também de intermediários: comerciantes, financiadores, homens de letras e de contas. O judeu português, herdeiro do tipo vicentino, ocupa esse lugar de mediação. Não é senhor absoluto nem marginal completo. Vive entre mundos, entre leis, entre línguas — português, espanhol, holandês, hebraico — e essa plasticidade cultural é um dos motores silenciosos da formação brasileira.

Quando Gil Vicente faz o Judeu ser barrado na barca do Paraíso, não se trata apenas de condenação religiosa. É a dramatização de uma exclusão social que convive, paradoxalmente, com a dependência econômica. “Aqui não entrais vós, / que a lei vos tem vedado”, diz o Anjo. Mas o mundo terreno, ao contrário do celestial, abre-lhe portas todos os dias. Essa duplicidade atravessa séculos e reaparece no Brasil, onde judeus são tolerados enquanto úteis e perseguidos quando visíveis demais.

No Recife holandês, a sinagoga Kahal Zur Israel não é apenas templo; é centro de sociabilidade, crédito e informação. Freyre perceberia aí a continuidade do espírito da feira vicentina: espaço de troca não apenas de mercadorias, mas de ideias e costumes. O judeu, como em Gil Vicente, é figura urbana por excelência, ligado à cidade, ao porto, ao movimento — em contraste com o senhor de engenho, ligado à terra e à tradição.

Gil Vicente talvez não imaginasse que aquele judeu caricaturado no palco atravessaria o Atlântico como agente histórico. Mas sua obra registra, com fidelidade involuntária, a presença insistente desse tipo social. O riso vicentino, ao mesmo tempo que estigmatiza, fixa a figura. E aquilo que a literatura fixa, a história prolonga. O judeu do auto torna-se o judeu do açúcar, do comércio atlântico, da modernidade colonial.

Freyre leria essas continuidades não como simples reprodução de preconceitos, mas como sinais da complexidade luso-tropical. O Brasil herdou de Portugal essa convivência tensa entre fé e negócio, entre pureza proclamada e mestiçagem real. O judeu português, mesmo ausente ou oculto, participa dessa mestiçagem cultural profunda, influenciando hábitos econômicos, familiares e urbanos.

Assim, as citações de Gil Vicente, lidas à luz da história atlântica, revelam mais do que estereótipos: revelam estruturas. O judeu vicentino é o prenúncio do judeu da diáspora luso-brasileira, agente de circulação num mundo em expansão. Entre o riso do teatro e a seriedade do comércio, entre Lisboa, Amsterdã e Recife, constrói-se uma história subterrânea, mas decisiva, da formação do Brasil.