domingo, 22 de março de 2026

PEQUENAS CANÇÕES PASSAGEIRAS

 




o canavial do corpo
o canavial do corpo, gesto de corte
é a precisão matemática da foice
que desenha na pele a geometria
de uma resistência que não silencia.

a observação é arma;
o detalhe da fibra que se arma
contra o peso do sol e do aço,
medindo o mundo em cada passo.

não há nada de vago nesta dor,
apenas o rigor do observador
que vê na cicatriz a crônica
de uma estrutura quase harmônica.

o gume separa a seiva da palha,
numa escrita que nunca falha
em descrever, com fria clareza,
a dureza que jaz sob a beleza.

Sou essa coruja triste

 Sou essa coruja triste, sem asas, sem bossa,

A espreitar do alto o mundo que passa.

Uma nota dissonante, uma canção que se destroça,

Na noite sem fim, onde o tempo não traça.


Onde estão os violões, a cadência, o feitiço?

A areia branquinha, o mar a cantar?

Tudo é silêncio agora, um eterno compromisso,

Com a dor que se recusa a me abandonar.


Quem me dera um instante, um breve lampejo,

Da graça antiga que em mim já residiu.

Um sopro de vento, um doce desejo,

Do amor que um dia, sorrindo, fugiu.


Mas sigo assim, coruja sem rumo e sem sorte,

Prisioneira do medo, do escuro e do sal.

Esperando a manhã, desafiando a morte,

Neste palco vazio, onde o show já deu mal.



canção da praia

o mar

canções o céu

beijões navios

me levem pro brasil

pra onde os olhos meus

têm tanta sede de amar

e a alma me avisa

que é lá o meu lugar

tem dó de mim, vento,

leva essa mágoa embora

que o meu peito não aguenta

tanta saudade agora

eu sou poeta e passarinho

querendo voltar pro ninho

ao longe vejo a areia,

o sol queimando o chão

escuto um violão

numa tarde devagar

é lá que eu quero estar

pro resto da minha vida




num beijo sem ter fim

quero morrer,

sim,

  mas morrer

de muitos amores


num corpo de mulher,

num verso que floresça,

numa paixão qualquer,

antes que o sol esqueça.


beber o mel do instante,

sentir o peito em brasa,

ser eterno amante,

fazer do mundo casa.


que a morte seja vinda

com cheiro de alecrim,

e a vida seja linda,

num beijo sem ter fim.



uma tarde na bahia

uma tarde na bahia

pra amar teu corpo negro

com toda a calma e a guia

de quem não tem mais medo


deixar o sol queimando

na curva do teu colo

o mar ir balançando

nós dois em nosso solo


sentir o mel do cansaço

num beijo de itapuã

fazer do mundo um braço

até nascer a manhã


morrer de puro desejo

na paz do teu carinho

ser todo o teu festejo

e nunca mais ser sozinho



um coração enferrujado

um coração enferrujado

e já ausente nesse tédio

de rosas e amores podres

sem nenhum remédio

entre os cálices vazios

e as cortinas de poeira

o vento sopra os estios

de uma vida inteira

não somos mais que sombras

em jardins de gesso e sal

onde o desejo se assombra

no vazio do ritual

as estátuas olham o nada

sob um céu de chumbo e giz

na tarde interrompida e errada

de quem nunca foi feliz



rostos de pinturas negras

rostos de pinturas negras,

negros belos, negras belas,

dispostos como bandeiras

em janelas e ruelas.


há uma ordem no mercado,

um equilíbrio de cor,

o óleo sobre o tablado,

o brilho de um rigor.


o mar é um mapa cinzento

que não sabe repetir

o exato movimento

de quem acaba de ir.


observo a linha do porto,

a tinta que o sol consome,

tudo é um plano torto

que mal recorda o nome.



poesia

poesia, tédio, mas é preciso escrever tudo,

com a minúcia de um mapa ou de um inseto,

o mundo exige o registro mudo

de cada ângulo, de cada objeto.


não o entusiasmo falso das plateias,

mas a paciência do que é genuíno;

extrair das formas as ideias,

sem o peso do fado ou do destino.


o pormenor do bico e da escama,

a resistência exata da estrutura,

pois o que o espírito reclama

é o rigor que a frase assegura.


mesmo o cansaço tem sua medida,

uma geometria de sombras no papel;

escreve-se para que a vida

não seja um deserto de mel.



pequenas canções passageiras

pequenas canções passageiras, prefiro a paisagem marinha,

onde a observação cuidadosa não encontra distração.

a precisão de uma linha

que define a contenção.


não o ritmo fácil que a mente logo esquece,

mas a geometria exata de uma onda

que, ao quebrar, oferece

a forma que a espuma ronda.


o detalhe de um molusco, a textura de um grão,

a paciência que a maré alta impõe à praia,

recusando a ficção

para que a realidade não saia.


o mar não compõe; ele apenas é,

uma estrutura de sal e de movimento,

mantendo a própria fé

em seu despretensioso advento.



um sol intenso e belo de corpo negro

sol, negra, que beleza tens tu,

no ouro que escorre pelo algodão,

o horizonte é um corpo nu,

pulsa o sangue no chão.


o crepúsculo é um canto antigo,

sussurro de pinho e de fumaça,

o céu é o teu único abrigo,

enquanto a colheita passa.


as sombras dançam no canavial,

na cor do fumo e do desejo,

um ritmo profundo e ancestral,

no calor de um longo beijo.


toda a terra é um barro escuro,

moldado pela luz que te consome,

um fruto maduro, puro,

que o próprio tempo come.




moluscos negros

moluscos negros, esse é o renascimento do harlem

nosso renascimento está aqui

eu te mostro o que é real

não é uma fantasia, é algo que você sente

no fundo da sua alma


o som do trompete

a vibração dos tambores

as vozes que cantam juntas

contando a nossa história


a nossa herança, a nossa força

é um chamado para a ação

para lutar pelo que é certo

e nunca desistir

moluscos negros, esse é o renascimento do harlem



a pele negra elemento da pureza

a pele negra, elemento da pureza,

no barro do georgia, sob a luz do sul,

revela a força e a beleza

do amanhecer que rasga o azul.


canaviais que cantam o seu nome,

num lamento doce, lento e ancestral,

a terra escura que nos consome,

num ritmo sagrado e natural.


a lua é um olho que nos vigia,

enquanto o fumo sobe no aral,

é a tua alma a melodia,

neste solo que é todo igual.


sombras dançam na colheita morna,

misticismo puro, chão e desejo,

a noite profunda se transforma,

no calor de um longo beijo.



eis tua beleza forte

negra, eis tua beleza forte,

nos abismos de seda e de agonia,

entre os astros que regem a sorte,

nesta lúgubre e vã litania.


há no teu corpo um brilho de opala,

o segredo das noites profundas,

um silêncio sagrado que fala,

em correntes de sombras fecundas.


alma etérea que o mundo despreza,

envolva-me em teu véu de mistério,

pois em ti toda a dor se batiza,

no altar de um eterno império.


forma excelsa, de negro veludo,

onde o espírito em febre se encerra,

és o grito absoluto e mudo,

além das misérias da terra.



visão

túmulos de vaga-lumes, para onde ela foi se ela não está aqui

o tempo corre, o vazio consome, o mistério permanece,

a resposta que procuro, a luz que sumiu, o amor que fenece,

na noite escura, no abismo que se abre, onde a alma padece.


ela, que era a estrela, a guia, o sol do meu dia,

se foi como o vento, a fumaça, a ilusão que se desfaz,

deixando apenas a dúvida, a angústia, a dor que não se apaz,

no labirinto da memória, onde o silêncio grita, onde a paz jaz.


por que a morte, o destino cruel, a separação sem fim?

por que a beleza fenece, a esperança morre, o amor se acaba?

no palco da vida, a tragédia se desenrola, o mistério nos envolve,

e o homem, como um boneco, segue o roteiro, a dança que a sorte devolve.


mas talvez, em outro plano, outra dimensão, o reencontro aconteça,

talvez a luz de Capitu, de Virgília, de Natividade ainda brilhe,

talvez o túmulo de vaga-lumes seja apenas a porta para outra vida,

onde a resposta se revela, onde a alma se eleva, onde o amor se aninha.

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