Sou essa coruja triste, sem asas, sem bossa,
A espreitar do alto o mundo que passa.
Uma nota dissonante, uma canção que se destroça,
Na noite sem fim, onde o tempo não traça.
Onde estão os violões, a cadência, o feitiço?
A areia branquinha, o mar a cantar?
Tudo é silêncio agora, um eterno compromisso,
Com a dor que se recusa a me abandonar.
Quem me dera um instante, um breve lampejo,
Da graça antiga que em mim já residiu.
Um sopro de vento, um doce desejo,
Do amor que um dia, sorrindo, fugiu.
Mas sigo assim, coruja sem rumo e sem sorte,
Prisioneira do medo, do escuro e do sal.
Esperando a manhã, desafiando a morte,
Neste palco vazio, onde o show já deu mal.
canção da praia
o mar
canções o céu
beijões navios
me levem pro brasil
pra onde os olhos meus
têm tanta sede de amar
e a alma me avisa
que é lá o meu lugar
tem dó de mim, vento,
leva essa mágoa embora
que o meu peito não aguenta
tanta saudade agora
eu sou poeta e passarinho
querendo voltar pro ninho
ao longe vejo a areia,
o sol queimando o chão
escuto um violão
numa tarde devagar
é lá que eu quero estar
pro resto da minha vida
num beijo sem ter fim
quero morrer,
sim,
mas morrer
de muitos amores
num corpo de mulher,
num verso que floresça,
numa paixão qualquer,
antes que o sol esqueça.
beber o mel do instante,
sentir o peito em brasa,
ser eterno amante,
fazer do mundo casa.
que a morte seja vinda
com cheiro de alecrim,
e a vida seja linda,
num beijo sem ter fim.
uma tarde na bahia
uma tarde na bahia
pra amar teu corpo negro
com toda a calma e a guia
de quem não tem mais medo
deixar o sol queimando
na curva do teu colo
o mar ir balançando
nós dois em nosso solo
sentir o mel do cansaço
num beijo de itapuã
fazer do mundo um braço
até nascer a manhã
morrer de puro desejo
na paz do teu carinho
ser todo o teu festejo
e nunca mais ser sozinho
um coração enferrujado
um coração enferrujado
e já ausente nesse tédio
de rosas e amores podres
sem nenhum remédio
entre os cálices vazios
e as cortinas de poeira
o vento sopra os estios
de uma vida inteira
não somos mais que sombras
em jardins de gesso e sal
onde o desejo se assombra
no vazio do ritual
as estátuas olham o nada
sob um céu de chumbo e giz
na tarde interrompida e errada
de quem nunca foi feliz
rostos de pinturas negras
rostos de pinturas negras,
negros belos, negras belas,
dispostos como bandeiras
em janelas e ruelas.
há uma ordem no mercado,
um equilíbrio de cor,
o óleo sobre o tablado,
o brilho de um rigor.
o mar é um mapa cinzento
que não sabe repetir
o exato movimento
de quem acaba de ir.
observo a linha do porto,
a tinta que o sol consome,
tudo é um plano torto
que mal recorda o nome.
poesia
poesia, tédio, mas é preciso escrever tudo,
com a minúcia de um mapa ou de um inseto,
o mundo exige o registro mudo
de cada ângulo, de cada objeto.
não o entusiasmo falso das plateias,
mas a paciência do que é genuíno;
extrair das formas as ideias,
sem o peso do fado ou do destino.
o pormenor do bico e da escama,
a resistência exata da estrutura,
pois o que o espírito reclama
é o rigor que a frase assegura.
mesmo o cansaço tem sua medida,
uma geometria de sombras no papel;
escreve-se para que a vida
não seja um deserto de mel.
pequenas canções passageiras
pequenas canções passageiras, prefiro a paisagem marinha,
onde a observação cuidadosa não encontra distração.
a precisão de uma linha
que define a contenção.
não o ritmo fácil que a mente logo esquece,
mas a geometria exata de uma onda
que, ao quebrar, oferece
a forma que a espuma ronda.
o detalhe de um molusco, a textura de um grão,
a paciência que a maré alta impõe à praia,
recusando a ficção
para que a realidade não saia.
o mar não compõe; ele apenas é,
uma estrutura de sal e de movimento,
mantendo a própria fé
em seu despretensioso advento.
um sol intenso e belo de corpo negro
sol, negra, que beleza tens tu,
no ouro que escorre pelo algodão,
o horizonte é um corpo nu,
pulsa o sangue no chão.
o crepúsculo é um canto antigo,
sussurro de pinho e de fumaça,
o céu é o teu único abrigo,
enquanto a colheita passa.
as sombras dançam no canavial,
na cor do fumo e do desejo,
um ritmo profundo e ancestral,
no calor de um longo beijo.
toda a terra é um barro escuro,
moldado pela luz que te consome,
um fruto maduro, puro,
que o próprio tempo come.
moluscos negros
moluscos negros, esse é o renascimento do harlem
nosso renascimento está aqui
eu te mostro o que é real
não é uma fantasia, é algo que você sente
no fundo da sua alma
o som do trompete
a vibração dos tambores
as vozes que cantam juntas
contando a nossa história
a nossa herança, a nossa força
é um chamado para a ação
para lutar pelo que é certo
e nunca desistir
moluscos negros, esse é o renascimento do harlem
a pele negra elemento da pureza
a pele negra, elemento da pureza,
no barro do georgia, sob a luz do sul,
revela a força e a beleza
do amanhecer que rasga o azul.
canaviais que cantam o seu nome,
num lamento doce, lento e ancestral,
a terra escura que nos consome,
num ritmo sagrado e natural.
a lua é um olho que nos vigia,
enquanto o fumo sobe no aral,
é a tua alma a melodia,
neste solo que é todo igual.
sombras dançam na colheita morna,
misticismo puro, chão e desejo,
a noite profunda se transforma,
no calor de um longo beijo.
eis tua beleza forte
negra, eis tua beleza forte,
nos abismos de seda e de agonia,
entre os astros que regem a sorte,
nesta lúgubre e vã litania.
há no teu corpo um brilho de opala,
o segredo das noites profundas,
um silêncio sagrado que fala,
em correntes de sombras fecundas.
alma etérea que o mundo despreza,
envolva-me em teu véu de mistério,
pois em ti toda a dor se batiza,
no altar de um eterno império.
forma excelsa, de negro veludo,
onde o espírito em febre se encerra,
és o grito absoluto e mudo,
além das misérias da terra.
visão
túmulos de vaga-lumes, para onde ela foi se ela não está aqui
o tempo corre, o vazio consome, o mistério permanece,
a resposta que procuro, a luz que sumiu, o amor que fenece,
na noite escura, no abismo que se abre, onde a alma padece.
ela, que era a estrela, a guia, o sol do meu dia,
se foi como o vento, a fumaça, a ilusão que se desfaz,
deixando apenas a dúvida, a angústia, a dor que não se apaz,
no labirinto da memória, onde o silêncio grita, onde a paz jaz.
por que a morte, o destino cruel, a separação sem fim?
por que a beleza fenece, a esperança morre, o amor se acaba?
no palco da vida, a tragédia se desenrola, o mistério nos envolve,
e o homem, como um boneco, segue o roteiro, a dança que a sorte devolve.
mas talvez, em outro plano, outra dimensão, o reencontro aconteça,
talvez a luz de Capitu, de Virgília, de Natividade ainda brilhe,
talvez o túmulo de vaga-lumes seja apenas a porta para outra vida,
onde a resposta se revela, onde a alma se eleva, onde o amor se aninha.

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