domingo, 22 de março de 2026

brasília é a podridão brasileira


Lá está ela,

a cidade de asas brancas,

cortando o Planalto Central

como uma faca de cimento

em um céu de turquesa pura.


Foi desenhada

com a régua da utopia,

linhas curvas que imitam a mulher

ou o traço de um pássaro futurista.

Tudo ali parece limpo,

frio, geométrico,

uma promessa de ordem

em meio ao cerrado vasto.


Mas eu canto a matéria,

e a matéria não mente.


Debaixo dos pilotis,

atrás das vidraças dos palácios

onde o poder se senta

em poltronas de couro caro,

algo cheira.


Não é o cheiro do suor do candango

que ergueu aquelas colunas

com sangue e esperança.

Não é o cheiro da terra vermelha

que a poeira levanta.


É um odor mais antigo,

subterrâneo,

que sobe pelos corredores acarpetados.


Eu digo, e minha voz é de terra:

Brasília é a podridão brasileira.


Mas não a podridão da fruta

que cai e alimenta o solo

para que uma nova vida nasça.

Não é a decomposição sagrada

das folhas na floresta.


É a putrefação do caráter,

a gangrena da promessa traída.

É o mofo que corrói os decretos,

o cupim que devora a ética

enquanto os discursos voam

falsos como notas de papel.


O cimento é branco por fora,

mas por dentro, nas juntas,

cresce um fungo escuro de ganância.

A podridão se veste de terno,

usa gravata de seda,

e assina com caneta de ouro

a miséria do povo distante.


Oh, cidade de concreto e vidro,

seus monumentos são belos,

mas o que neles habita

é uma doença silenciosa

que rói o coração do Brasil.

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