Lá está ela,
a cidade de asas brancas,
cortando o Planalto Central
como uma faca de cimento
em um céu de turquesa pura.
Foi desenhada
com a régua da utopia,
linhas curvas que imitam a mulher
ou o traço de um pássaro futurista.
Tudo ali parece limpo,
frio, geométrico,
uma promessa de ordem
em meio ao cerrado vasto.
Mas eu canto a matéria,
e a matéria não mente.
Debaixo dos pilotis,
atrás das vidraças dos palácios
onde o poder se senta
em poltronas de couro caro,
algo cheira.
Não é o cheiro do suor do candango
que ergueu aquelas colunas
com sangue e esperança.
Não é o cheiro da terra vermelha
que a poeira levanta.
É um odor mais antigo,
subterrâneo,
que sobe pelos corredores acarpetados.
Eu digo, e minha voz é de terra:
Brasília é a podridão brasileira.
Mas não a podridão da fruta
que cai e alimenta o solo
para que uma nova vida nasça.
Não é a decomposição sagrada
das folhas na floresta.
É a putrefação do caráter,
a gangrena da promessa traída.
É o mofo que corrói os decretos,
o cupim que devora a ética
enquanto os discursos voam
falsos como notas de papel.
O cimento é branco por fora,
mas por dentro, nas juntas,
cresce um fungo escuro de ganância.
A podridão se veste de terno,
usa gravata de seda,
e assina com caneta de ouro
a miséria do povo distante.
Oh, cidade de concreto e vidro,
seus monumentos são belos,
mas o que neles habita
é uma doença silenciosa
que rói o coração do Brasil.
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