Escrevi antigos versos,
chameios de poesias perdidas da China,
a China antiga que nunca conheci nem conhecerei
antes que os meus ossos envelheçam
e meu corpo vire o trapo da terra.
Foram traços de tinta tinta negra
em papel de arroz fantasma,
palavras pesadas como o bronze
dos sinos que não ouvi.
Invoquei o rio Yangtzé
sem ter tocado suas águas turvas,
e a sombra dos salgueiros
onde poetas bêbados de lua
choraram o exílio.
Mas o que sei eu da Dinastia Tang,
eu, homem do sul e do sal,
senão o eco que o tempo
traz em suas mãos gastas?
Cantei a seda que não tice,
o chá que não bebi nas xícaras de porcelana fina,
buscando uma pátria de palavras
que fosse mais real que a minha própria pele.
Pois a pele, eu sei, é breve.
Ela cede, ela se racha,
como a argila seca ao sol.
E enquanto escrevo
— este ofício terno e inútil —,
sinto o cansaço das vértebras,
o ranger sutil do esqueleto
que se prepara para o descanso.
Meus ossos envelhecem rápido,
antes que eu possa decifrar
os ideogramas do vento.
O corpo, este volume que me carrega,
vai se desfazendo,
perdendo sua forma orgulhosa,
tornando-se, enfim, o trapo da terra.
Mas os versos,
os versos que chamei de perdidos,
mesmo inventados,
mesmo sem raízes no solo da China,
são reais como esta mesa,
como esta caneta com que escrevo,
antes que a própria terra
me cubra com seu silêncio final.
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