Era uma tarde clara,
uma tarde de cebolas e sol,
quando o som seco de metal
feriu o ar da minha casa.
Bateu a minha porta a angústia antiga,
não vinha vestida de sombras,
mas de um cinza cotidiano,
como um casaco velho
que o tempo esqueceu de carregar.
Entrou,
sem pedir licença,
sentou-se à minha mesa de madeira,
bebeu do meu vinho
e deixou o copo frio.
Olhei para suas mãos de névoa
e para os meus sapatos de terra.
Ali, entre o teto e o solo,
e como Kierkegaard meditei.
Não meditei sobre os anjos,
mas sobre o abismo que cabe
embaixo de cada passo humano.
Meditei sobre o tremor
que faz a alma vibrar
como uma corda de violão tensa,
entre o sim e o não,
entre o salto e a queda.
A angústia, essa velha vizinha,
me olhava com olhos de granito.
E eu, poeta de coisas visíveis,
procurei o pulso do infinito
na casca de uma laranja.
Vi que a existência dói
porque é viva,
porque é carne que se interroga,
porque é um espírito que tece
seu próprio destino de lã e sangue.
Ela se foi ao anoitecer,
deixando a porta aberta.
E eu fiquei com o silêncio,
com o pensamento afiado
e com o sabor amargo e puro
de quem olhou de frente
o coração do desespero.
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