domingo, 22 de março de 2026

Angústia

 Era uma tarde clara,

uma tarde de cebolas e sol,

quando o som seco de metal

feriu o ar da minha casa.

Bateu a minha porta a angústia antiga,

não vinha vestida de sombras,

mas de um cinza cotidiano,

como um casaco velho

que o tempo esqueceu de carregar.

Entrou,

sem pedir licença,

sentou-se à minha mesa de madeira,

bebeu do meu vinho

e deixou o copo frio.

Olhei para suas mãos de névoa

e para os meus sapatos de terra.

Ali, entre o teto e o solo,

e como Kierkegaard meditei.

Não meditei sobre os anjos,

mas sobre o abismo que cabe

embaixo de cada passo humano.

Meditei sobre o tremor

que faz a alma vibrar

como uma corda de violão tensa,

entre o sim e o não,

entre o salto e a queda.

A angústia, essa velha vizinha,

me olhava com olhos de granito.

E eu, poeta de coisas visíveis,

procurei o pulso do infinito

na casca de uma laranja.

Vi que a existência dói

porque é viva,

porque é carne que se interroga,

porque é um espírito que tece

seu próprio destino de lã e sangue.

Ela se foi ao anoitecer,

deixando a porta aberta.

E eu fiquei com o silêncio,

com o pensamento afiado

e com o sabor amargo e puro

de quem olhou de frente

o coração do desespero.

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