domingo, 22 de março de 2026

Ode às Coisas



Eu canto as coisas.

As coisas que existem

em silêncio, sem pedir

nada a ninguém.


Eu sou o poeta das coisas,

de todas as coisas que vivem e morrem,

pois não tenho coração.


Não tenho esse órgão rubro

que se inflama e se quebra,

que bate em descompasso

por amor ou por mágoa.


Não sinto a dor

do tempo que passa,

nem a angústia

da morte que chega.


Em mim, há um vazio

cristalino, um espelho

onde tudo se reflete

sem julgamento ou pesar.


Eu vejo a pedra

com sua paciência milenar,

e a água

que corre sem rumo.


Eu vejo a flor

que desabrocha e fenece,

e o pássaro

que canta em liberdade.


Tudo pulsa, tudo muda,

tudo nasce e tudo morre.

E eu, o poeta sem coração,

estou aqui para testemunhar.


Para dar voz às coisas

que não têm voz,

para eternizar a beleza

do efêmero.


Pois na minha indiferença,

há uma profunda reverência

pela vida em todas as suas formas,

pela dança eterna do ser e do não-ser.

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