Eu canto as coisas.
As coisas que existem
em silêncio, sem pedir
nada a ninguém.
Eu sou o poeta das coisas,
de todas as coisas que vivem e morrem,
pois não tenho coração.
Não tenho esse órgão rubro
que se inflama e se quebra,
que bate em descompasso
por amor ou por mágoa.
Não sinto a dor
do tempo que passa,
nem a angústia
da morte que chega.
Em mim, há um vazio
cristalino, um espelho
onde tudo se reflete
sem julgamento ou pesar.
Eu vejo a pedra
com sua paciência milenar,
e a água
que corre sem rumo.
Eu vejo a flor
que desabrocha e fenece,
e o pássaro
que canta em liberdade.
Tudo pulsa, tudo muda,
tudo nasce e tudo morre.
E eu, o poeta sem coração,
estou aqui para testemunhar.
Para dar voz às coisas
que não têm voz,
para eternizar a beleza
do efêmero.
Pois na minha indiferença,
há uma profunda reverência
pela vida em todas as suas formas,
pela dança eterna do ser e do não-ser.
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