sábado, 21 de março de 2026

paisagem de areia


um anônimo de agulhas racha o cimento.

a tarde é um peixe podre na garganta do cego.

vomitei meu próprio nascimento:

sobre os muros frios, sonhei com o arcanjo negro.


trajava um terno de formigas e cinza.

suas asas eram de cobre e lodo, sem apego.

a cidade mastiga sua última pitada de linfa:

sobre os muros frios, sonhei com o arcanjo negro.


não há saída, gritavam os metais cravados.

o sangue do mundo é um rio negro e sossego.

deixei meus dentes nos pregos dourados:

sobre os muros frios, sonhei com o arcanjo negro.


martelos de espuma batem no coração de gesso.

o espelho dissolve o rosto que eu perco e relego.

encontrei no vazio o meu próprio tropeço:

sobre os muros frios, sonhei com o arcanjo negro.

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