Pequeno Auto de Amores e Estações em forma de entremez
(Cenário: Um campo de oliveiras prateadas sob um céu que se divide entre o carmim e o anil.)
O Diálogo da Sombra e da Luz
NOITE
Vens com espadas de ouro puro,
ferir meu corpo de seda preta.
Sou o silêncio, o muro escuro,
tu és a chama e a borboleta.
DIA
Corro atrás do teu rastro frio,
mas quando chego, tu já partiste.
O nosso amor é um imenso rio,
que nasce alegre e morre triste.
NOITE
Oh, quem pudera, sol de agonia,
beijar teus olhos sem te apagar!
Pois se te abraço, morre o dia,
se me procuras, deixo de estar.
O Lamento das Flores
PRIMAVERA
Parem o pranto, que a vida é curta,
e o meu destino é de cristal.
Minha cor viva o tempo furta,
sou um suspiro no laranjal.
Não peçam vida ao Sol que queima,
nem ao Inverno peçam calor.
Pois na fragilidade onde teima,
não sobrevive a minha flor.
A Fúria e o Repouso
VERÃO
Eu sou o amante do Sol ardente,
bebo o suor da terra nua!
Onde eu piso, o chão se sente,
mais febril que a própria lua.
O calor é o meu reinado,
cigarras cantam o meu louvor.
Deixo o campo todo queimado,
pela luxúria do meu fervor.
INVERNO
Guardai o vosso fogo insolente,
que eu prefiro o meu canto calado.
Em casa, a sós, secretamente,
com um café e o corpo abrigado.
Amo a Noite e o seu sossego,
o vento frio que faz pensar.
Não busco glória nem apego,
só o silêncio de me encontrar.
Final (Em Coro)
TODOS
Gira o mundo, gira a roda,
entre o gelo e a queimadura.
O amor é a sorte que incomoda,
é beleza e é tortura.
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