domingo, 22 de março de 2026

Pequeno Auto de Amores e Estações em forma de entremez

 Pequeno Auto de Amores e Estações em forma de entremez 


(Cenário: Um campo de oliveiras prateadas sob um céu que se divide entre o carmim e o anil.)



O Diálogo da Sombra e da Luz


NOITE

Vens com espadas de ouro puro,

ferir meu corpo de seda preta.

Sou o silêncio, o muro escuro,

tu és a chama e a borboleta.


DIA

Corro atrás do teu rastro frio,

mas quando chego, tu já partiste.

O nosso amor é um imenso rio,

que nasce alegre e morre triste.


NOITE

Oh, quem pudera, sol de agonia,

beijar teus olhos sem te apagar!

Pois se te abraço, morre o dia,

se me procuras, deixo de estar.



O Lamento das Flores


PRIMAVERA

Parem o pranto, que a vida é curta,

e o meu destino é de cristal.

Minha cor viva o tempo furta,

sou um suspiro no laranjal.


Não peçam vida ao Sol que queima,

nem ao Inverno peçam calor.

Pois na fragilidade onde teima,

não sobrevive a minha flor.



A Fúria e o Repouso


VERÃO

Eu sou o amante do Sol ardente,

bebo o suor da terra nua!

Onde eu piso, o chão se sente,

mais febril que a própria lua.


O calor é o meu reinado,

cigarras cantam o meu louvor.

Deixo o campo todo queimado,

pela luxúria do meu fervor.


INVERNO

Guardai o vosso fogo insolente,

que eu prefiro o meu canto calado.

Em casa, a sós, secretamente,

com um café e o corpo abrigado.


Amo a Noite e o seu sossego,

o vento frio que faz pensar.

Não busco glória nem apego,

só o silêncio de me encontrar.



Final (Em Coro)


TODOS

Gira o mundo, gira a roda,

entre o gelo e a queimadura.

O amor é a sorte que incomoda,

é beleza e é tortura.

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