quinta-feira, 26 de março de 2026

O Verbo Encarnado no Café

 O Verbo Encarnado no Café

A voz se levanta,

não como anjo em trombeta,

mas como o chiar da gordura na frigideira:

sua voz sobressai,

atravessa o vapor do bule e me cutuca o flanco.


Vem de longe,

desse exílio do amor onde a gente se guarda

quando o cansaço é maior que o desejo,

e a alma vira um cômodo fechado,

pegando pó.


Mas a palavra dita tem mãos.

Ela alcança o coração quebrado,

não para colá-lo (que remendo em louça velha sempre aparece),


mas para banhá-lo em azeite e paciência.

Deus é o que sobra

quando a gente para de gritar e resolve ouvir

o som da própria fome.

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