O Verbo Encarnado no Café
A voz se levanta,
não como anjo em trombeta,
mas como o chiar da gordura na frigideira:
sua voz sobressai,
atravessa o vapor do bule e me cutuca o flanco.
Vem de longe,
desse exílio do amor onde a gente se guarda
quando o cansaço é maior que o desejo,
e a alma vira um cômodo fechado,
pegando pó.
Mas a palavra dita tem mãos.
Ela alcança o coração quebrado,
não para colá-lo (que remendo em louça velha sempre aparece),
mas para banhá-lo em azeite e paciência.
Deus é o que sobra
quando a gente para de gritar e resolve ouvir
o som da própria fome.
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