quinta-feira, 26 de março de 2026

O Orvalho e o Chão

 O Orvalho e o Chão

Sob o céu que desce em silêncio,

o tempo interrompe o seu curso.

Não há pressa nos ramos,

apenas o peso do fruto que cede.


Branca goza em tua boca de terra, mulher,

essa doçura que o mundo esqueceu,

enquanto sobre nós se ergue, serena,

a árvore verde visão de plumas.


É o beijo que a raiz entrega ao pó,

um breve rastro de luz na sombra,

antes que o vento leve, enfim,

a última pétala do que fomos.



O Altar da Manhã

Lá fora, os telhados brilham sob o cinza,

e a cidade dissolve-se em fios de água,

como se o mundo fosse apenas um reflexo

numa vidraça embaciada pelo hálito.


Na mesa, o calor que nos sustenta:

o café com leite do nosso amor entre a chuva,

misturando a força escura da terra

com a brancura mansa da tua pele.


Não peço ao tempo que pare,

apenas que nos deixe aqui, neste abrigo,

onde o aroma do que sentimos

é mais real do que o próprio destino.

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