O Orvalho e o Chão
Sob o céu que desce em silêncio,
o tempo interrompe o seu curso.
Não há pressa nos ramos,
apenas o peso do fruto que cede.
Branca goza em tua boca de terra, mulher,
essa doçura que o mundo esqueceu,
enquanto sobre nós se ergue, serena,
a árvore verde visão de plumas.
É o beijo que a raiz entrega ao pó,
um breve rastro de luz na sombra,
antes que o vento leve, enfim,
a última pétala do que fomos.
O Altar da Manhã
Lá fora, os telhados brilham sob o cinza,
e a cidade dissolve-se em fios de água,
como se o mundo fosse apenas um reflexo
numa vidraça embaciada pelo hálito.
Na mesa, o calor que nos sustenta:
o café com leite do nosso amor entre a chuva,
misturando a força escura da terra
com a brancura mansa da tua pele.
Não peço ao tempo que pare,
apenas que nos deixe aqui, neste abrigo,
onde o aroma do que sentimos
é mais real do que o próprio destino.
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