A Herança da Claridade
Sob o arco de um tempo que não finda,
brilha a laranja dos olhos blues, azules,
astros de um mar antigo que ainda
pulsa sob o peso de mil azuis.
São azulejos angelicais na parede da memória,
refletindo um sorriso de banho de leite,
frescor que interrompe a poeira da história
e convida o cansaço a que se deite.
No leite poroso do corpo eslavo,
a vida se afirma, de corpo à corpo,
onde o sangue é senhor e nunca escravo.
Ali, o movimento é luz e conforto:
uma carne viva, sem silêncio, sem medo,
onde não reside nenhum traço morto.
O Alicerce do Alvorecer
Não há mármore nem glória na fundação,
apenas o que resta quando o sonho se cala:
carne, sangue, osso, o peso da mão,
e a verdade que a terra, em silêncio, exhala.
Eis o lema que o tempo nunca vicia,
extraído do frio da manhã fria,
um rigor que nasce do próprio dia,
sem a promessa de uma luz que alivia.
Pois o homem se ergue como ponte ou torre,
sustentado por aquilo que é febre e gelo.
A vida pulsa enquanto o inverno corre,
e a alma se faz dura, sem um só apelo.
A Estátua na Encosta
Não é de carne o que o olhar devora,
mas o corpo, rocha negra inclinada,
um vulto que desafia a aurora
na plena metáfora da estrada.
Ali, o corpo escultura feminina
guarda o segredo que o tempo não lava;
não se curva, não foge, não declina,
feita da pedra viva eslava.
É um monumento que respira e espera,
com a paciência de quem atravessa os séculos,
unindo o peso da terra à quimera,
entre os abismos e os obstáculos.
A alma é o cinzel, a vida é a jazida,
onde a rocha se faz, enfim, contida.
O Veneno na Ruína
No centro do silêncio, onde a história emudece,
desabrocha a rosa rubra de tua boca.
Mas é um beijo de verde de serpente que entorpece,
uma doçura amarga, violenta e louca,
que estrangura dos corações as lembranças estrangeiras.
Ecoa o martelo das noites de abismos,
batendo contra o tempo, rompendo as barreiras,
enquanto pairam foices lânguidas nos cataclismos.
Tudo converge para a miséria das ilhas velhas, antigas,
fragmentos de impérios que o esquecimento corrói.
Ali, o desejo e a dor são feridas amigas,
e a memória, como a pedra, em silêncio se destrói.
O Espasmo da Terra
Não é repouso o que se vê no leito,
mas o tronco preto da árvore deitado na cama,
um peso de séculos que oprime o peito
e em surdo lamento, geme raízes na lama.
Da profundeza, onde a luz não alcança,
sobe a negra fumaça do coração,
um fôlego denso que em trevas se lança
e diz te amo em uma estranha oração,
lapidada em joias de cu, o brilho obsceno do chão.
O tempo é um pêndulo de um lado ao outro,
oscilando entre a vida e a poeira das eras,
sob o olhar de estrelas secas, sem rosto,
que observam, frias, as nossas quimeras.
O Espelho de Abril
Debruçado sobre o tempo, o mundo se aquieta,
no pequeno laguinho, onde o céu se desfaz.
Lá, os sapinhos coloridos, em festa indiscreta,
saudando o ciclo que a terra refaz.
Pois o dia abril vem vindo, com sua mão leve,
trazendo a florzinha do mês de abril,
uma joia de pétala, breve como a neve,
no coração de um vale outrora hostil.
Mas a água que banha a delicada margem
bebe a sombra do cavalo preto do rio,
imagem de força, de sede e de aragem,
que se entrega ao abismo, chupado e vazio.
O Galope do Invisível
A terra calou-se, mas o alto estremece,
onde o cavalo preto não toca o chão.
É o galope da noite que o mundo esquece,
um rastro de cascos na imensa solidão.
Ele cavalga no ar as massas errantes,
as nuvens brancas que o vento conduz,
desenhando as escamas e os fios vibrantes
da cobra de um olho só, rainha sem luz.
Nesse olhar único, o tempo se estanca,
vigilante e cego, no centro do nada.
A noite é a crina, a névoa é a sanca,
e a vida é a sela de uma eterna jornada.
A Colheita do Luar
Nasce um aroma de terra e de abismo,
do cafezal puro e bruto do teu corpo nu;
é uma geografia de antigo batismo,
onde o horizonte se perde no azul.
Sim, a noite e o amor são uma foice só,
ceifando o tempo que nos separa.
Ali, onde a carne se torna em pó,
a saudade se encontra e se declara.
Há um gozo na claridade da noite,
um brilho de prata que a pele consome,
livre do medo e de qualquer açoite,
no silêncio que esquece o próprio nome.
E a arte do luar, em febre constante,
vem pulsando até a minha boca,
como um rio de prata, errante e ofegante,
na sede que o mundo, enfim, deságua e sufoca.
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