quinta-feira, 26 de março de 2026

A Herança da Claridade........

A Herança da Claridade

Sob o arco de um tempo que não finda,

brilha a laranja dos olhos blues, azules,

astros de um mar antigo que ainda

pulsa sob o peso de mil azuis.


São azulejos angelicais na parede da memória,

refletindo um sorriso de banho de leite,

frescor que interrompe a poeira da história

e convida o cansaço a que se deite.


No leite poroso do corpo eslavo,

a vida se afirma, de corpo à corpo,

onde o sangue é senhor e nunca escravo.

Ali, o movimento é luz e conforto:

uma carne viva, sem silêncio, sem medo,

onde não reside nenhum traço morto.



O Alicerce do Alvorecer

Não há mármore nem glória na fundação,

apenas o que resta quando o sonho se cala:

carne, sangue, osso, o peso da mão,

e a verdade que a terra, em silêncio, exhala.


Eis o lema que o tempo nunca vicia,

extraído do frio da manhã fria,

um rigor que nasce do próprio dia,

sem a promessa de uma luz que alivia.


Pois o homem se ergue como ponte ou torre,

sustentado por aquilo que é febre e gelo.

A vida pulsa enquanto o inverno corre,

e a alma se faz dura, sem um só apelo.



A Estátua na Encosta

Não é de carne o que o olhar devora,

mas o corpo, rocha negra inclinada,

um vulto que desafia a aurora

na plena metáfora da estrada.


Ali, o corpo escultura feminina

guarda o segredo que o tempo não lava;

não se curva, não foge, não declina,

feita da pedra viva eslava.


É um monumento que respira e espera,

com a paciência de quem atravessa os séculos,

unindo o peso da terra à quimera,

entre os abismos e os obstáculos.


A alma é o cinzel, a vida é a jazida,

onde a rocha se faz, enfim, contida.



O Veneno na Ruína

No centro do silêncio, onde a história emudece,

desabrocha a rosa rubra de tua boca.

Mas é um beijo de verde de serpente que entorpece,

uma doçura amarga, violenta e louca,

que estrangura dos corações as lembranças estrangeiras.


Ecoa o martelo das noites de abismos,

batendo contra o tempo, rompendo as barreiras,

enquanto pairam foices lânguidas nos cataclismos.


Tudo converge para a miséria das ilhas velhas, antigas,

fragmentos de impérios que o esquecimento corrói.

Ali, o desejo e a dor são feridas amigas,

e a memória, como a pedra, em silêncio se destrói.



O Espasmo da Terra

Não é repouso o que se vê no leito,

mas o tronco preto da árvore deitado na cama,

um peso de séculos que oprime o peito

e em surdo lamento, geme raízes na lama.


Da profundeza, onde a luz não alcança,

sobe a negra fumaça do coração,

um fôlego denso que em trevas se lança

e diz te amo em uma estranha oração,

lapidada em joias de cu, o brilho obsceno do chão.


O tempo é um pêndulo de um lado ao outro,

oscilando entre a vida e a poeira das eras,

sob o olhar de estrelas secas, sem rosto,

que observam, frias, as nossas quimeras.



O Espelho de Abril

Debruçado sobre o tempo, o mundo se aquieta,

no pequeno laguinho, onde o céu se desfaz.

Lá, os sapinhos coloridos, em festa indiscreta,

saudando o ciclo que a terra refaz.


Pois o dia abril vem vindo, com sua mão leve,

trazendo a florzinha do mês de abril,

uma joia de pétala, breve como a neve,

no coração de um vale outrora hostil.


Mas a água que banha a delicada margem

bebe a sombra do cavalo preto do rio,

imagem de força, de sede e de aragem,

que se entrega ao abismo, chupado e vazio.



O Galope do Invisível

A terra calou-se, mas o alto estremece,

onde o cavalo preto não toca o chão.

É o galope da noite que o mundo esquece,

um rastro de cascos na imensa solidão.


Ele cavalga no ar as massas errantes,

as nuvens brancas que o vento conduz,

desenhando as escamas e os fios vibrantes

da cobra de um olho só, rainha sem luz.


Nesse olhar único, o tempo se estanca,

vigilante e cego, no centro do nada.

A noite é a crina, a névoa é a sanca,

e a vida é a sela de uma eterna jornada.



A Colheita do Luar

Nasce um aroma de terra e de abismo,

do cafezal puro e bruto do teu corpo nu;

é uma geografia de antigo batismo,

onde o horizonte se perde no azul.


Sim, a noite e o amor são uma foice só,

ceifando o tempo que nos separa.

Ali, onde a carne se torna em pó,

a saudade se encontra e se declara.


Há um gozo na claridade da noite,

um brilho de prata que a pele consome,

livre do medo e de qualquer açoite,

no silêncio que esquece o próprio nome.


E a arte do luar, em febre constante,

vem pulsando até a minha boca,

como um rio de prata, errante e ofegante,

na sede que o mundo, enfim, deságua e sufoca.



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