EM DEFESA DE UM PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA AO BRASIL
Há terras que, como a nossa velha Portugal, parecem condenadas a carregar o peso de mil histórias sobrepostas, onde cada pedra silencia um grito e cada rio corre com a pressa de quem foge do esquecimento. No entanto, do outro lado do oceano, ergue-se um gigante cuja voz não é de pedra, mas de seiva e sangue: o Brasil. Observando de longe, através da névoa dos séculos europeus, percebe-se que a literatura daquelas paragens não é apenas um adorno da inteligência, mas uma necessidade orgânica, uma vitalidade bruta que desafia a própria finitude.
O que se escreve no Brasil possui a força de um sol que não se põe sem antes incendiar a alma. É uma escrita que não teme o abismo, pois nasceu dele. Da crueza das secas de Graciliano ao labirinto metafísico de Guimarães Rosa, o que vemos é a construção de uma ponte monumental. Não uma ponte de pedra calcária como a de Višegrad, mas uma ponte de palavras vibrantes que une o barro primordial da terra à sofisticação mais aguda do espírito humano.
A língua portuguesa do Brasil é, por si só, um prodígio de ourivesaria e de tempestade. Ela não se limita a nomear as coisas; ela as recria. É uma língua que se despiu da rigidez da metrópole para vestir-se de vento, de mata e de povo. Nela, o verbo não é um servo, mas um senhor que dança. Essa força poética atua como um farol e um exemplo de primor para toda a América Latina, provando que é possível ser universal sem deixar de ser profundamente telúrico.
Negar o reconhecimento máximo a essa literatura é ignorar que o mundo precisa, agora mais do que nunca, dessa mistura de melancolia e júbilo, dessa capacidade de encontrar beleza na miséria das "ilhas velhas" e esperança no "frio da manhã". O Brasil já esculpiu sua estátua na história do pensamento; falta apenas que o mundo, sentado em suas cadeiras de veludo em Estocolmo, tenha a coragem de olhar nos olhos dessa esfinge de sol.
Pois a literatura brasileira é a prova de que, mesmo quando os impérios caem e as pontes de pedra ruem, a palavra escrita com o sangue da verdade permanece viva, pulsando como o luar sobre o cafezal, até que a última fronteira entre o homem e o eterno seja, enfim, atravessada.
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