quinta-feira, 26 de março de 2026

Estratigrafia do Esquecimento

 

Estratigrafia do Esquecimento

E vós, cronistas das linhagens extintas, que dizeis daquele que atravessa o século sem deixar mais rastro que o vôo de uma ave de rapina sobre o deserto?

Eu vi o advento do ser, composto de elementos inestimáveis de mundos desconhecidos, portador de moedas que não circulam em nenhum mercado e de línguas que nenhum escriba ousou traduzir. Ele caminha entre as dunas e as cidades de sal, vestindo a púrpura de um exílio que não escolheu, sob o peso de astros que já morreram.

Contemplai o paradoxo da argila: um homem nasce para se tornar um pedaço de fuligem sem nome e, como tal, desaparecer. Ele é o resíduo de um fogo que não o aqueceu, a cinza de um império que nunca foi fundado. Ele passa pelas portas de bronze e pelas fendas do tempo, e o vento, esse grande varredor de memórias, não guarda o eco de seus passos.

Pois o mistério permanece selado sob sete selos de silêncio: não sabemos para a glória de quem ele nasce, nem para o divertimento de quem ele é destruído. Talvez para o repouso de um deus que não nos nomeia, ou para a música de uma esfera que só conhece a discórdia. Somos a oferenda lançada ao abismo por uma mão invisível, o sacrifício de luz que se consome para que o Vazio continue a sua dança perfeita.

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