A Geometria do Aroma (ou: O Engenho do Luar)
I
O cafezal é uma grade de ferro verde,
linhas exatas, de onde a fuga é impossível.
Neste tabuleiro de terra e de sombra,
dois corpos se medem pelo rigor da distância
e pela precisão do desejo.
II
Ele, o negro: a densidade do grão,
a noite concentrada na pele de minério.
Eu, o branco: a cal das paredes de Olinda,
a brancura que busca o seu próprio contorno
no impacto da sombra alheia.
III
Não há romance aqui, há arquitetura.
O encontro é uma colisão de climas:
a secura do norte contra a umidade da mata.
O desejo é um agrimensor
medindo o limite entre a carne e a terra.
IV
cafezal, eu e ele,
ele negro, eu branco,
bruto gozo branco do luar
na minha boca de açúcar
V
O luar desce como uma lâmina de gesso,
sem as curvas da alma, apenas o peso da luz.
É um gozo mineral, um gozo de pedra,
que se dissolve no cristal da boca,
na doçura técnica do açúcar refinado.
VI
O café bebe o sangue da noite.
A boca, saturada de lua,
torna-se o ponto onde o cálculo falha
e a matéria se faz milagre.
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