quinta-feira, 26 de março de 2026

A Geometria do Aroma (ou: O Engenho do Luar)

 A Geometria do Aroma (ou: O Engenho do Luar)


I

O cafezal é uma grade de ferro verde,

linhas exatas, de onde a fuga é impossível.

Neste tabuleiro de terra e de sombra,

dois corpos se medem pelo rigor da distância

e pela precisão do desejo.


II

Ele, o negro: a densidade do grão,

a noite concentrada na pele de minério.

Eu, o branco: a cal das paredes de Olinda,

a brancura que busca o seu próprio contorno

no impacto da sombra alheia.


III

Não há romance aqui, há arquitetura.

O encontro é uma colisão de climas:

a secura do norte contra a umidade da mata.

O desejo é um agrimensor

medindo o limite entre a carne e a terra.


IV

cafezal, eu e ele,

ele negro, eu branco,

bruto gozo branco do luar

na minha boca de açúcar


V

O luar desce como uma lâmina de gesso,

sem as curvas da alma, apenas o peso da luz.

É um gozo mineral, um gozo de pedra,

que se dissolve no cristal da boca,

na doçura técnica do açúcar refinado.


VI

O café bebe o sangue da noite.

A boca, saturada de lua,

torna-se o ponto onde o cálculo falha

e a matéria se faz milagre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário