Liturgia do Engenho Oculto
Eis o tempo da fundação e o silêncio das grandes estruturas, onde a cal e o betume se misturam ao hálito das primeiras chuvas. Eu vi o arquiteto do desejo operar no recesso das fundações, lá onde a viga encontra a sombra e a carne se torna cimento de um novo templo. Não é um gesto de clemência, mas de precisão; uma geometria de espasmos sob o rigor da noite. Escutai o segredo que se desprende das juntas e das pedras: na construção escura a negra flecha salgada na boca de açúcar cospe o mel açucarado do cuspe, oferenda de uma boca que conhece tanto a amargura das marés quanto a doçura dos canaviais em chamas. É a fusão do minério com a seiva, o jato de ouro pálido que sela a aliança entre o esforço do ferro e a volúpia da terra. Vede: o que era secreção torna-se âmbar; o que era impacto torna-se monumento na sombra das vigas mestras.
Transfiguração dos Olhos e do Âmbar dos Beijos
E vós, navegantes do estuário de sangue, que dizeis daquela que traz o firmamento entre as coxas e a luz das primeiras eras na ponta dos dedos? Eu vi a forma que não se curva à lei dos nomes comuns; vi a soberana que atravessa o espelho para fundar a sua própria linhagem de relâmpagos. Não é uma sombra que passa, mas uma arquitetura de carne e mistério que desafia os agrimensores da alma. Escutai o murmúrio das águas profundas, lá onde o cuspe do mel naufraga até as bolas de ouro do diamante negro. É o mergulho da seiva no mineral mais puro, o impacto da doçura contra a dureza do que é eterno. Eu te saúdo, teu corpo de arcanjo, ó arcanja mulher travestida, potência de fuste e seda, traveco meu amor, vértice onde o desejo se torna liturgia e a beleza se faz gume. Tu és o monumento erguido no centro do deserto, belo e negro como a noite infinita dos dias, onde o sol não se põe, mas se recolhe para arder, para sempre, no teu seio de ônix.
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