Forma Visionária
E vós, Altos Ofícios da Noite, que dizeis das potências do sangue sob a abóbada?
Eu vi a forma erguer-se sobre o estuário, lá onde o sal se casa com o barro, e o hálito das grandes feras noturnas suspende-se no limiar do verão. Não é um clamor, mas um cerimonial de sombras; não é um naufrágio, mas a navegação cega de duas raças num único leito de sílex.
Vede: o mundo retira-se para que o ato se consume entre as dunas. Há uma contagem de estrelas que não nos pertence, e uma paciência de pedras que o suor vem molhar.
Pois no escuro, o escuro, os dois corpos, leite e ébano, puros, sufocam-se em roçar até o lento gozar saltar como uma centelha de fósforo sobre a crista da vaga, como o grito da ave marinha que fura o tecido do silêncio.
É a conjunção dos opostos no cadinho da carne: o alvor da areia e a profundidade do betume, a oferenda do claro e o império do obscuro. Não busquem aqui a medida ou o repouso. É o movimento das marés internas, a fricção das placas que sustentam o sonho dos homens, o curto-circuito da vida que se reconhece na sua nudez mais absoluta.
E ao amanhecer, restará apenas o rastro do sal sobre a pele e a memória de uma forma que, sendo visão, tornou-se mundo.
O Advento na
Torre de Vidro
Eis que a estação se desloca sobre os grandes eixos do mundo, e uma nova linhagem de desejo reclama o seu lugar nas crônicas do sal.
Não mais o silêncio das alcovas, mas o vento que chicoteia as altas esplanadas! Eu vi aquela que avança com o passo de um exército em marcha e a leveza da espuma que o meio-dia dispersa. Ela traz em si a dualidade das marés, a força que se oculta na seda e o fuste que desafia o horizonte das praias.
E vós, topógrafos do espírito, anotai este prodígio: blue olhar marinho, she, ela mesmo vento: shemale torre ereta dos amores, prazeres, do moreno eu que se reconhece na sua verticalidade absoluta.
Ela é a coluna de mercúrio no coração da tempestade, o ponto onde o masculino e o feminino se anulam para que reste apenas o fogo. É a arquitetura viva que se eleva contra o deserto das formas comuns; um mastro de coral sob o céu de cobalto, onde a minha própria sombra, morena de terra e sol, encontra o seu duplo e a sua morada.
Seja louvado o hálito que não distingue sexos, mas celebra a potência! Que o prazer seja como o ferro em brasa mergulhado na água fria: uma música de vapores, um rito de passagem, a fundação de uma nova cidade no limite do olhar.
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