sexta-feira, 27 de março de 2026

O Menino Urubu

O Menino Urubu

Na colina de Ossos Tortos, onde a névoa é constante,

Vivia o pequeno Barnabé, de olhar vago e distante.

Lhe faltavam dentes e lhe sobrava palidez,

Sua maior tristeza era viver nos pés.


Enquanto as outras crianças caçavam aranhas e rãs,

Barnabé só olhava o céu, de manhãs a manhãs.

Ele queria ser leve, ele queria pairar,

Seja como uma folha seca ou um monstro no ar.


Ele tentou colar penas com cera e com piche,

E saltou da janela, numa tentativa ridícula (que chique!).

Caiu direto nas silvas, assustando um rato,

Com um belo galo na testa e um nariz achatado.


Numa noite de lua, redonda e amarela,

Ele dormiu chorando ao lado da vela.

No sonho, uma sombra lhe deu um abraço,

E ele sentiu sua pele se rasgar no espaço.


Ele acordou de repente, com um ruído estridente,

Não era um choro, era um grito contente.

Suas pernas magrinhas eram garras curvadas,

E suas mãos eram asas, pretas e pesadas.


O espelho quebrado refletiu sua nova figura:

Um pescoço enrugado, careca e sem formosura.

Os olhos eram grandes, os olfatos apurados,

Prontos para achar os banquetes podres e esquecidos.


Ele não gritou, ele não chorou,

Ele abriu a janela e um vento forte o levou.

Ele soltou um "Caw!", uma nota de alegria,

A criatura mais feia que a cidade já via.


Lá embaixo, os vizinhos olhavam com horror,

Mas lá em cima, Barnabé não sentia dor.

Com um cheiro de carniça e o vento na cara,

Ele finalmente voava, numa liberdade rara.

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