O Menino Urubu
Na colina de Ossos Tortos, onde a névoa é constante,
Vivia o pequeno Barnabé, de olhar vago e distante.
Lhe faltavam dentes e lhe sobrava palidez,
Sua maior tristeza era viver nos pés.
Enquanto as outras crianças caçavam aranhas e rãs,
Barnabé só olhava o céu, de manhãs a manhãs.
Ele queria ser leve, ele queria pairar,
Seja como uma folha seca ou um monstro no ar.
Ele tentou colar penas com cera e com piche,
E saltou da janela, numa tentativa ridícula (que chique!).
Caiu direto nas silvas, assustando um rato,
Com um belo galo na testa e um nariz achatado.
Numa noite de lua, redonda e amarela,
Ele dormiu chorando ao lado da vela.
No sonho, uma sombra lhe deu um abraço,
E ele sentiu sua pele se rasgar no espaço.
Ele acordou de repente, com um ruído estridente,
Não era um choro, era um grito contente.
Suas pernas magrinhas eram garras curvadas,
E suas mãos eram asas, pretas e pesadas.
O espelho quebrado refletiu sua nova figura:
Um pescoço enrugado, careca e sem formosura.
Os olhos eram grandes, os olfatos apurados,
Prontos para achar os banquetes podres e esquecidos.
Ele não gritou, ele não chorou,
Ele abriu a janela e um vento forte o levou.
Ele soltou um "Caw!", uma nota de alegria,
A criatura mais feia que a cidade já via.
Lá embaixo, os vizinhos olhavam com horror,
Mas lá em cima, Barnabé não sentia dor.
Com um cheiro de carniça e o vento na cara,
Ele finalmente voava, numa liberdade rara.
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